Entidades ligadas ao movimento negro vêm ampliando a mobilização política em defesa da indicação de uma mulher negra para a próxima vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Organizações da sociedade civil, juristas, coletivos e lideranças políticas articulam campanhas públicas, reuniões institucionais e manifestações para pressionar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a considerar um nome alinhado à pauta racial e de gênero para a Corte.
Os grupos argumentam que a ausência histórica de mulheres negras no STF revela um problema estrutural de representatividade nos espaços de poder do Judiciário brasileiro. Atualmente, a Suprema Corte jamais teve uma ministra negra em seus mais de 130 anos de existência.

A mobilização ganhou força após a reabertura do debate sobre futuras indicações ao tribunal. Para as entidades envolvidas, o momento é visto como oportunidade histórica de corrigir uma exclusão considerada simbólica e institucional.
Entre os grupos que lideram o movimento está a Educafro, organização voltada à inclusão de pessoas negras e de baixa renda no ensino superior. A entidade prepara uma carta com sugestões de nomes de juristas negras que poderá ser apresentada ao presidente Lula em articulação com outras organizações da sociedade civil.
O fundador da Educafro, Frei David, afirma que o Brasil possui tradição jurídica negra frequentemente invisibilizada nos espaços institucionais. “A ideia é levarmos uma lista com 20 nomes de notório saber jurídico e apresentá-los ao presidente Lula”, declarou.
Segundo ele, a discussão vai além de representatividade simbólica e envolve reconhecimento da produção intelectual e jurídica de profissionais negras historicamente afastadas dos cargos mais altos do Judiciário. “O Brasil produziu, ao longo de sua história, uma tradição rica e consistente de saberes jurídicos negros, que o presidente Lula desconhece”, afirmou David.
Outro grupo envolvido na mobilização é o movimento Mulheres Negras Decidem, organização criada em 2018 e que atua em diferentes estados brasileiros na defesa da participação política de mulheres negras. A entidade também tenta construir diálogo com integrantes do governo federal e da Secretaria-Geral da Presidência para fortalecer a pauta.
Para a coordenadora política do movimento, Tainah Pereira, a discussão sobre a composição do STF está diretamente ligada à democracia brasileira. “A luta por mais mulheres e pessoas negras na Suprema Corte é histórica e está diretamente relacionada ao aprofundamento da democracia”, afirmou.
A campanha “Ministra Negra Já!”, organizada por coletivos de juristas e movimentos sociais, também ganhou força nas redes sociais e em espaços políticos. O grupo afirma que busca “visibilizar os feitos de um grupo de juristas negras”, segundo comunicado divulgado pelos organizadores.
A articulação ganhou novo impulso após a rejeição do nome do advogado Jorge Messias pelo Senado em discussões recentes sobre futuras composições da Corte. Para os movimentos, o episódio reacendeu o debate sobre diversidade racial e de gênero no Supremo.
A coordenadora do projeto de enfrentamento à violência política de raça e gênero, Joyce Souza, afirma que a discussão envolve romper padrões históricos de exclusão. “Com a rejeição do nome de Messias, voltamos com força a exigir a quebra dessa exclusão histórica das mulheres negras nos espaços de poder no Brasil”, declarou.
Outro nome que passou a apoiar publicamente a campanha foi o desembargador William Douglas, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2). O magistrado tem divulgado nas redes sociais mensagens favoráveis à indicação de uma mulher negra para a Corte.
Segundo Douglas, a pauta possui relevância institucional e social. “O objetivo é dar visibilidade à importância de nomeação de uma mulher negra para o STF, uma vez que a pauta antirracista é uma pauta da sociedade”, afirmou.
O debate também reacendeu discussões sobre o histórico de composição do Supremo. Desde sua criação, o STF teve apenas três mulheres ministras: Ellen Gracie, indicada em 2000 pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso; Cármen Lúcia, nomeada em 2006 pelo presidente Lula; e Rosa Weber, escolhida em 2011 pela então presidente Dilma Rousseff.
Apesar do avanço feminino nas últimas décadas, movimentos sociais apontam que o recorte racial continua praticamente ausente nas nomeações para os tribunais superiores brasileiros.
Especialistas em direito constitucional e representação institucional afirmam que a composição do STF possui forte dimensão simbólica, especialmente em um país marcado por desigualdade racial estrutural.
Para os defensores da campanha, a presença de uma mulher negra no Supremo teria impacto não apenas institucional, mas também cultural, ao ampliar referências de poder e representatividade dentro do sistema de Justiça.
Os movimentos também argumentam que diversidade nos tribunais influencia perspectivas jurídicas, interpretação constitucional e sensibilidade em temas relacionados a direitos humanos, violência racial e desigualdade social.
Ao mesmo tempo, críticos da proposta afirmam que a escolha de ministros deve priorizar exclusivamente critérios técnicos e experiência jurídica, sem considerar fatores identitários. Os grupos favoráveis à campanha respondem dizendo que competência técnica e diversidade não são elementos incompatíveis.
Enquanto a discussão avança, lideranças do movimento negro intensificam articulações políticas em Brasília e ampliam pressão pública sobre o governo federal. A expectativa das entidades é transformar a próxima indicação ao STF em marco histórico de representatividade racial no Judiciário brasileiro.