O anúncio do curso “A zúrie”, idealizado pelo ator Juliano Cazarré, provocou forte repercussão nas redes sociais e reacendeu discussões sobre masculinidade, relacionamentos e os papéis de homens e mulheres na sociedade contemporânea. A iniciativa, apresentada como um espaço de debates voltado ao público masculino, reúne influenciadores, escritores e palestrantes ligados a diferentes correntes conservadoras e religiosas.
Segundo a proposta divulgada pelo ator, o curso pretende discutir comportamento masculino, paternidade, casamento, desenvolvimento pessoal e relações familiares. O lançamento ocorreu em meio ao crescimento de conteúdos voltados ao universo da masculinidade nas plataformas digitais, movimento que vem mobilizando apoiadores e críticos.

Nas redes sociais, parte das críticas se concentrou na proposta de “orientar” o comportamento de homens e mulheres dentro das relações afetivas. Comentários publicados após o anúncio acusaram a iniciativa de reforçar visões conservadoras sobre gênero e estimular padrões considerados ultrapassados. Em resposta, apoiadores afirmaram que o projeto busca apenas recuperar valores relacionados à responsabilidade, família e amadurecimento emocional.
O debate ganhou ainda mais força após a divulgação da programação do festival “Masculinidades”, marcado para acontecer no próximo dia 29 no Museu de Arte do Rio, com entrada gratuita. O evento reúne nomes ligados à discussão sobre comportamento masculino, entre eles o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, o professor e pesquisador Evolui Schöller, o escritor Gary Barker e o médico e psicanalista Manoel Chagas.
Entre os temas previstos estão paternidade, saúde emocional masculina, relações afetivas, criação dos filhos, sexualidade e desafios enfrentados por homens na sociedade atual. A programação inclui ainda debates sobre violência, sofrimento emocional e transformações nos papéis masculinos ao longo das últimas décadas.
Para Juliano Cazarré, a proposta não se resume a uma visão ideológica sobre masculinidade, mas busca discutir responsabilidades e vínculos familiares. Em uma das declarações divulgadas durante o lançamento do projeto, o ator afirmou que percebe um aumento no número de homens desorientados em relação à própria identidade.
“Mais gente está descobrindo que existe um valor no matrimônio, na fidelidade. O que quero propor é: vale a pena casar, ser pai, cuidar da família. A resposta redpill é o contrário. E o homem desconstruído, frágil, não defende as mulheres. Se vê uma mulher apanhando, pega o celular e filma”, declarou Cazarré.
O ator também afirmou que existe um esvaziamento do papel masculino nas relações contemporâneas e criticou o que chamou de perda de referências. Segundo ele, o projeto pretende incentivar homens a assumirem responsabilidades familiares e emocionais.
Já o escritor Gary Barker, um dos convidados do evento, defendeu que discussões sobre masculinidade precisam ir além de modelos rígidos impostos historicamente aos homens. Para ele, muitos padrões ainda dificultam que homens expressem emoções e procurem ajuda psicológica.
“As normas tradicionais dizem: não chore, resolva tudo sozinho. Isso isola os homens e tem consequências graves. A ideia é incentivar uma masculinidade que aceite mudanças, em vez de enxergá-las como perda. O patriarcado não é só um sistema em que homens têm poder sobre mulheres: também implica que homens e certas estruturas tenham poder sobre outros homens”, afirmou.
O professor Evolui Schöller também comentou a polarização em torno do debate e afirmou que tanto setores conservadores quanto progressistas tentam impor modelos únicos de masculinidade.
“O risco está quando se tenta impor um modelo único. Existe um viés autoritário, tanto em leituras conservadoras quanto progressistas, que querem padronizar comportamentos e definir o lugar que as pessoas devem ocupar. Isso contraria a própria ideia de diversidade. O ideal é que essas discussões ajudem a ampliar possibilidades, não a restringi-las”, declarou.
Segundo especialistas ouvidos durante o evento, o crescimento de iniciativas voltadas à masculinidade acompanha mudanças sociais relacionadas ao papel dos homens dentro da família, do mercado de trabalho e dos relacionamentos afetivos. O avanço de temas ligados à saúde mental masculina, paternidade ativa e violência doméstica também ampliou o interesse por discussões desse tipo.
Ao mesmo tempo, pesquisadores apontam que parte do debate nas redes sociais tem sido capturada por grupos radicais ligados à chamada cultura “redpill”, movimento que defende uma visão crítica sobre feminismo e relacionamentos contemporâneos. O tema aparece frequentemente associado a discursos de ressentimento masculino e rejeição a transformações sociais ligadas às mulheres.
Durante o lançamento do curso, Juliano Cazarré afirmou que discorda dessa abordagem e defendeu que homens devem assumir responsabilidade emocional e familiar. “Na verdade, deveríamos pensar no que fazer para sermos transformados em homens capazes de amar, de sermos bons pais, bons maridos”, afirmou o ator.
O festival e o curso devem continuar mobilizando debates nas próximas semanas, especialmente nas redes sociais, onde o tema da masculinidade contemporânea vem ganhando cada vez mais espaço entre influenciadores, pesquisadores, religiosos e produtores de conteúdo.