Muitas pessoas recorrem a músicas relaxantes, meditações guiadas, podcasts ou ruído branco para conseguir dormir. O hábito de adormecer utilizando fones de ouvido se tornou comum, especialmente entre pessoas que convivem com ansiedade, pensamentos acelerados ou dificuldade para relaxar antes de dormir. Apesar de especialistas reconhecerem que sons suaves podem ajudar na qualidade do sono, médicos alertam que o uso frequente de fones durante a noite pode trazer riscos para a saúde auditiva e aumentar a chance de irritações e infecções no ouvido.
Segundo profissionais ouvidos pela reportagem, o problema não está necessariamente em ouvir conteúdos antes de dormir, mas no tempo prolongado de exposição, no volume utilizado e no tipo de fone escolhido. Em muitos casos, o hábito não provoca complicações graves, mas alguns cuidados são considerados importantes para evitar danos.

A fonoaudióloga Jennife Alyono, professora clínica associada de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Universidade Stanford, explicou que os ouvidos possuem mecanismos naturais importantes para ventilação e eliminação de umidade. De acordo com ela, alguns modelos de fones podem bloquear esse processo.
“Fones intra-auriculares, especialmente os que vedam completamente o ouvido, podem reter umidade e criar um ambiente propício para bactérias”, afirmou. Segundo a especialista, o risco pode aumentar principalmente em pessoas que costumam dormir logo após o banho ou utilizam os fones por muitas horas seguidas. A umidade acumulada dentro do canal auditivo pode favorecer irritações e infecções.
O médico Carrie Nieman, cirurgião otorrinolaringologista e professor associado da Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins, também alertou para o impacto do uso contínuo dos dispositivos dentro do ouvido. “Para secar os ouvidos antes de dormir, ela recomenda utilizar um secador de cabelo em potência baixa — e sem aproximá-lo demais da cabeça”, explicou Nieman sobre uma das orientações dadas a pacientes.
Além das infecções, especialistas afirmam que os fones podem provocar acúmulo excessivo de cera. Isso acontece porque alguns modelos impedem a saída natural da cera produzida pelo ouvido, fazendo com que ela fique compactada dentro do canal auditivo.
O cirurgião de ouvido do sistema de saúde Mount Sinai, Zachary Schwam, afirmou que o problema pode se agravar quando os fones são usados diariamente por longos períodos. “Se você perceber cera grudada na ponta dos fones, isso pode ser um sinal de que isso está acontecendo”, afirmou.
Segundo o médico, sintomas como ouvido tampado, coceira, zumbido, desconforto persistente ou redução da audição devem servir de alerta para procurar atendimento médico. “Nieman recomenda procurar um médico para limpeza ou usar kits vendidos em farmácia para remoção de cera”, destacou a reportagem.
Outro ponto citado pelos especialistas é o risco de irritações na pele do canal auditivo causadas pelo atrito contínuo dos dispositivos. Pequenas lesões podem facilitar infecções e aumentar a sensibilidade da região.
A reportagem também menciona um pequeno estudo que associou o uso frequente de fones a uma maior incidência de irritações na pele. Embora os resultados ainda sejam considerados preliminares, especialistas afirmam que pessoas que utilizam os dispositivos durante toda a noite podem desenvolver mais desconfortos ao longo do tempo.
Os médicos também chamam atenção para os riscos relacionados à audição. O uso prolongado de sons em volume elevado pode provocar danos auditivos permanentes, especialmente quando feito de forma contínua durante o sono. “A exposição prolongada a sons altos pode causar danos irreversíveis à audição”, afirmou Schwam.
Segundo especialistas, o risco não está apenas em músicas muito altas. Sons moderados reproduzidos continuamente ao longo de várias horas também podem representar perigo dependendo do volume e da sensibilidade auditiva de cada pessoa. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera 80 decibéis como um limite de exposição prolongada relativamente seguro. Para comparação, esse nível sonoro equivale aproximadamente ao ruído de um restaurante movimentado ou de músicas reproduzidas diretamente nos fones.
Quem já possui algum grau de perda auditiva deve ter atenção redobrada. Médicos alertam que aumentar excessivamente o volume para mascarar ruídos externos pode acelerar problemas auditivos. Atualmente, alguns aparelhos celulares já oferecem ferramentas que monitoram e limitam automaticamente o volume dos fones. Em dispositivos Android, o controle também pode ser feito por aplicativos específicos de medição de decibéis.
Jennife Alyono destacou ainda que o uso de cancelamento de ruído pode trazer riscos adicionais em determinadas situações. “Ouvir algo em volume alto ou usar fones com cancelamento de ruído enquanto dorme também pode ser perigoso se isso impedir a pessoa de escutar um alarme, por exemplo”, afirmou. Especialistas recomendam que usuários façam testes antes de dormir para garantir que sons importantes do ambiente ainda possam ser percebidos mesmo utilizando os dispositivos.
Os médicos afirmam que existem alternativas consideradas mais seguras para quem depende de sons relaxantes para dormir. Entre elas estão os fones externos, posicionados fora do canal auditivo, faixas de tecido com caixas de som embutidas e pequenas caixas acústicas colocadas próximas à cama. Esses modelos reduzem a pressão dentro do ouvido e diminuem o acúmulo de umidade.