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Escravidão

MPF investiga contas de escravizados

Pesquisa histórica identificou ao menos 158 cadernetas vinculadas a homens e mulheres escravizados no século 19 em Mato Grosso
Por O Correio de Hoje
14/05/2026 | 12:57

O Ministério Público Federal (MPF) abriu uma investigação para apurar a existência de contas bancárias pertencentes a pessoas escravizadas na antiga Caixa Econômica Provincial de Mato Grosso, instituição que posteriormente foi incorporada à Caixa Econômica Federal. O caso ganhou repercussão após pesquisadores identificarem ao menos 158 cadernetas vinculadas a homens e mulheres escravizados no século 19.

Os documentos foram localizados durante uma pesquisa histórica conduzida por especialistas que analisam registros financeiros da época do Império. Segundo os pesquisadores envolvidos no estudo, o número identificado em Mato Grosso pode representar apenas uma pequena parcela do total existente em arquivos bancários espalhados pelo País.

escravizados
MPF abriu investigação para apurar contas bancárias pertencentes a pessoas escravizadas Foto: Reprodução

A investigação conduzida pelo MPF busca esclarecer a origem dos depósitos, o funcionamento dessas contas e o papel das instituições financeiras na administração de recursos pertencentes a pessoas escravizadas antes da abolição da escravidão, em 1888.

Os registros encontrados pertencem ao período de funcionamento da Caixa Econômica Provincial de Mato Grosso, criada ainda durante o Império para incentivar a poupança popular. Entre os documentos analisados aparecem nomes de pessoas escravizadas que mantinham cadernetas de depósito em seus próprios nomes.

Segundo pesquisadores, os materiais encontrados ajudam a revelar aspectos pouco conhecidos sobre a vida financeira de pessoas escravizadas no Brasil, incluindo estratégias de sobrevivência, tentativas de compra da alforria e formas de circulação econômica dentro da sociedade escravocrata.

A historiadora Keila Grinberg, professora da Universidade de Pittsburgh e referência em estudos sobre escravidão, afirmou que os documentos ajudam a desmontar ideias simplificadas sobre o período escravista brasileiro. “Não sabemos por que essas pessoas não tiveram acesso às suas economias nessas décadas”, afirmou a pesquisadora.

Segundo Grinberg, a existência das contas demonstra que pessoas escravizadas participavam ativamente da vida econômica do país, ainda que submetidas a um sistema de violência e exploração. “Não é colocar o dedo na cara da Caixa. É grande. É pensar o papel das instituições brasileiras na construção das desigualdades até hoje”, declarou.

Os pesquisadores apontam que, em muitos casos, pessoas escravizadas conseguiam guardar pequenas quantias obtidas por meio de trabalhos extras, venda de produtos ou prestação de serviços autorizados por seus proprietários. Parte desses recursos era utilizada na tentativa de comprar a própria liberdade ou auxiliar familiares.

Os documentos encontrados incluem registros de depósitos feitos por homens e mulheres escravizados em diferentes períodos do século 19. Alguns dos materiais analisados indicam movimentações financeiras relativamente frequentes.

Segundo especialistas, o estudo também contribui para ampliar o debate sobre os impactos econômicos da escravidão e suas consequências na desigualdade racial brasileira contemporânea.

A investigação do MPF foi aberta após provocação feita por pesquisadores e entidades ligadas aos direitos humanos e à preservação da memória da população negra no país. O órgão pretende avaliar se há necessidade de medidas relacionadas à reparação histórica ou preservação documental.

Pesquisadores afirmam que casos semelhantes podem existir em outras regiões brasileiras. Arquivos históricos de antigas caixas econômicas provinciais e bancos do período imperial ainda estão sendo analisados em estados como Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Maranhão.

Segundo os especialistas, a descoberta reforça a importância da preservação de documentos históricos ligados à escravidão, tema que durante décadas recebeu pouca atenção institucional no Brasil.