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Cultura

Livros inéditos revelam um novo Câmara Cascudo e apresentam a faceta de poeta

Às vésperas dos 40 anos de seu encantamento, Daliana Cascudo fala sobre o legado do avô e manuscritos inéditos que devem chegar ao público nos próximos anos
Nathallya Macedo
28/07/2026 | 05:44

Às vésperas dos 40 anos do encantamento de Luís da Câmara Cascudo, em 30 de julho, uma descoberta no próprio acervo do escritor amplia o tamanho de uma obra que parecia definitivamente conhecida. Depois de mais de sete décadas dedicadas ao estudo do folclore, da cultura popular e da identidade brasileira, Cascudo continua produzindo novidades: dez livros inéditos foram encontrados entre milhares de documentos preservados pelo Instituto Câmara Cascudo. Entre eles, um surpreende até os pesquisadores mais próximos do autor — um livro de poemas que ele próprio decidiu esconder.

A revelação foi feita pela pesquisadora Daliana Cascudo, neta do escritor e presidente do Instituto Câmara Cascudo, durante entrevista ao podcast Cultue. Segundo ela, a descoberta apresenta um autor que o público ainda não conhecia. “É um material que mostra também um novo Cascudo. A gente tem obras muito interessantes, como um livro de poemas”, afirma.

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Daliana Cascudo coordena trabalho de organização e pesquisa do acervo do escritor potiguar Luís da Câmara Cascudo - Foto: José Aldenir

O manuscrito chama-se “Caveira em Campo de Trigo” e ajuda a preencher uma lacuna na trajetória literária do intelectual. Embora tenha escrito versos e compartilhado alguns deles com nomes como Mário de Andrade e Manuel Bandeira, Cascudo jamais publicou um livro de poesia.

A decisão foi registrada pelo próprio autor em uma carta enviada a Mário de Andrade, em 1925. Nela, escreveu que havia concluído o livro, mas desistiria da publicação. “Ele diz: ‘Mário, eu terminei esse livro de poema, se chama Caveira em Campo de Trigo, mas eu não vou publicar. Eu não sou poeta. Vou enterrar esse livro no inferno da biblioteca’. E enterrou tão bem enterrado que a gente passou quase cem anos para descobrir.”

Para Daliana, a obra acrescenta uma nova dimensão à fortuna crítica de Câmara Cascudo. “É uma obra que surpreende muito porque mostra uma nova faceta, esse Cascudo poeta.”

Dez novos livros surgiram após anos de gestão do acervo

A descoberta dos inéditos não aconteceu por acaso. Ela é resultado de um trabalho iniciado em 2016, quando começou a organização técnica do acervo documental deixado por Cascudo.

O primeiro grande projeto foi a digitalização de cerca de 15 mil cartas trocadas pelo escritor com pesquisadores, intelectuais e estudiosos de diversas partes do mundo. O processo levou aproximadamente três anos. Depois disso, a equipe passou a organizar cerca de 20 mil documentos preservados na antiga residência da família.

Foi durante essa etapa, concluída em 2023, que surgiram os dez livros inéditos. Segundo Daliana, o primeiro deles já chegou ao público em 2025: “Ruas da Cidade Natal”. Outro, sobre a história antiga de Ceará-Mirim, deve ser publicado ainda este ano. Ela afirma que todos os manuscritos serão editados gradualmente.

Autor de mais de 150 livros, Câmara Cascudo consolidou-se como o principal nome dos estudos sobre folclore brasileiro. Obras como Dicionário do Folclore Brasileiro, publicado em 1954, transformaram o pesquisador potiguar em referência nacional ao reunir lendas, mitos, crenças, festas populares, alimentação, costumes e manifestações culturais do país.

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Para Daliana, os inéditos ampliam a compreensão sobre a trajetória do avô – Foto: José Aldenir

Para Daliana, a permanência da obra está ligada ao fato de Cascudo ter antecipado discussões que hoje ocupam espaço central nas pesquisas culturais. Ela lembra que o escritor foi um dos primeiros intelectuais brasileiros a defender que a tradição oral possuía o mesmo valor da cultura registrada nos livros. Em vez de limitar suas pesquisas aos documentos, buscava ouvir quem vivia os saberes populares.

“Ele dizia que, se fosse escrever sobre jangadas, precisava procurar a bibliografia, mas quem podia ensinar mais era o mestre jangadeiro.” Essa forma de pesquisar, segundo ela, continua atual ao reconhecer como produtores de conhecimento pessoas que dominam ofícios e tradições, mesmo sem formação acadêmica.

As histórias contadas por Câmara Cascudo vão dos contos populares à história de Natal, da alimentação brasileira aos gestos cotidianos, passando pelas tradições transmitidas oralmente entre gerações.

Luís da Câmara Cascudo estaria nas redes sociais

Daliana acredita que, se estivesse vivo hoje, Câmara Cascudo utilizaria as novas tecnologias para ampliar sua produção. Ela lembra uma resposta dada pelo escritor quando foi provocado por um jornalista que afirmava que, após a chegada do homem à Lua, o folclore já não fazia sentido.

Cascudo respondeu que os astronautas ainda pisavam com o pé direito para dar sorte e eram recebidos com aplausos ao retornar à Terra, mostrando que práticas culturais permaneciam presentes mesmo em tempos de avanços tecnológicos.

Para a neta, o escritor manteria a mesma postura diante da internet. “Ele estaria totalmente na rede social, usando a internet, com blog. Tenho certeza de que utilizaria todas essas ferramentas para se comunicar.”

40 anos de encantamento

No próximo dia 30 de julho, data que marca os 40 anos da morte de Câmara Cascudo, o Instituto promove uma programação especial na antiga residência do escritor, localizada na Avenida Câmara Cascudo, na Cidade Alta, em Natal.

A agenda começa às 9h e reúne apresentações culturais, dança, teatro e um café comemorativo. A proposta, segundo Daliana, é celebrar um legado que continua sendo ampliado não apenas pelas reedições de sua obra, mas também pelas descobertas que seguem surgindo dentro da própria biblioteca onde, há quase um século, um poeta decidiu esconder seus versos.