O crescimento de Augusto Cury (Avante) nas pesquisas presidenciais acendeu um alerta nas campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Após avançar nove pontos em cerca de um mês e alcançar 11% das intenções de voto na pesquisa Nexus (BR-08900/2026), o candidato passou a ser visto pelos dois grupos como uma alternativa capaz de atrair o eleitor insatisfeito com a polarização e ocupar o espaço de terceira via.
Integrantes da campanha petista afirmam, em conversas reservadas, que detectaram uma movimentação incomum nas redes sociais associada ao candidato do Avante. Aliados de Lula comparam o fenômeno à estratégia adotada por Pablo Marçal (PRTB) na eleição para a Prefeitura de São Paulo, em 2024. Marçal foi condenado à inelegibilidade por promover os chamados “campeonatos de cortes”, nos quais oferecia prêmios a seguidores responsáveis pela publicação de trechos de seus vídeos que alcançassem maior audiência; mesmo inelegível, registrou candidatura à Presidência.

Auxiliares de Flávio Bolsonaro também dizem ter identificado uma atuação irregular nas redes. Segundo integrantes da campanha do PL, robôs localizados na Índia teriam sido utilizados para ampliar artificialmente a presença digital de Cury e contribuído para seu avanço nas pesquisas. A equipe bolsonarista também atribui parte do crescimento à participação do candidato no debate da TV Bandeirantes, realizado no dia 23, que aumentou seu grau de conhecimento entre os eleitores.
Cury negou na segunda-feira que sua campanha tenha manipulado as redes sociais ou contratado influenciadores. “Não tem história de robô. Na verdade, são milhões de pessoas que acreditam na pacificação e estão cansadas desta polarização insana”, declarou. O candidato, que ganhou mais de 2 milhões de seguidores em uma semana, relacionou o avanço ao desempenho no primeiro debate da campanha: “O que aconteceu foi uma revolução totalmente silenciosa a partir do primeiro debate. As pessoas estão vendo sinceridade nas nossas propostas”, afirmou.
Os números da Nexus indicam que Cury alcança seu melhor desempenho entre os jovens, segmento no qual registra 22% das intenções de voto. O candidato também chega a 17% entre eleitores com ensino superior e a 14% no Nordeste. Em um eventual segundo turno, 46% de seus atuais eleitores dizem que votariam em Flávio Bolsonaro, enquanto 23% escolheriam Lula.
Na avaliação de integrantes da campanha petista, mesmo que o avanço tenha sido estimulado artificialmente por operações digitais, a estratégia produziu resultados: ao assumir o terceiro lugar, Cury ganhou maior visibilidade e passou a ocupar uma posição que pode consolidar seu crescimento. Petistas consideram que o perfil do candidato também favorece sua aproximação com parcelas da classe média — Cury é apresentado como uma pessoa rica, que não dependeria da atividade política para sobreviver, característica vista por aliados de Lula como atraente para parte do eleitorado.
O surgimento de uma alternativa competitiva preocupa a campanha do presidente porque pode dificultar a conquista de eleitores de centro e reduzir as possibilidades de vitória no primeiro turno. Parte dos aliados de Lula também teme que Cury, fortalecido por uma votação expressiva, apoie Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno.
A avaliação das campanhas foi publicada na edição desta terça-feira 1º do jornal O Correio de Hoje.