O governo de Donald Trump abriu mais uma frente de pressão sobre o Brasil, agora na segurança pública. Num relatório mandado ao Congresso americano, a Casa Branca sustenta que o país é brando no enfrentamento ao PCC e Comando Vermelho, facções criminosas que, segundo o documento, transformaram o território nacional numa peça central do tráfico internacional de cocaína.
O efeito do documento é mais político do que jurídico, pelo menos por enquanto. O Brasil ficou fora das listas formais de grandes produtores de drogas e de rotas do tráfico, e também não aparece entre os países que teriam descumprido, de forma comprovada, compromissos internacionais. Por isso, o relatório não dispara de forma automática as punições previstas na lei dos Estados Unidos.

O texto, porém, aprofunda uma divergência que já existia. Washington passou a classificar o Primeiro Comando da Capital e o CV como organizações terroristas estrangeiras, enquadramento que o governo brasileiro rejeita. Brasília defende cooperação entre as polícias e troca de informações de inteligência, mas sem abrir brecha para qualquer intervenção estrangeira no território nacional.
No Ministério da Justiça e na Polícia Federal, o relatório foi lido como peça político-eleitoral, divulgada a poucas semanas da votação. Em resposta, integrantes das duas instituições lembraram os R$ 11 bilhões aplicados no combate ao crime organizado e as operações contra tráfico e lavagem de dinheiro feitas em 19 estados.
O governo brasileiro prepara uma resposta oficial. Com a cobrança americana, entram na mesma discussão a segurança pública, a soberania nacional e a relação entre os presidentes Lula (PT) e Trump, mistura que transforma um relatório sobre drogas em mais um ponto de atrito diplomático entre os dois países.