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Outrora

“Outrora”: livro aborda amadurecimento e juventude no interior do RN

Multiartista potiguar, Tales Gabriel publica primeiro livro de poesias, escrito de forma pessoal
Fernando Azevêdo
26/09/2025 | 05:00

A paixão pela leitura que começou na infância com gibis e contos de fadas culmina agora no lançamento de “Outrora” (Offset, 2025), o livro de estreia do escritor potiguar Tales Gabriel, 24 anos. A obra reúne poemas escritos ao longo de uma década e explora o amadurecimento e as angústias de um jovem no interior do Rio Grande do Norte.

“Tenho muitas questões sobre o tempo […] Falo muito sobre passado, presente e futuro, sobre sonhos, sobre expectativas de futuro”, explica o autor, que também é cantor, compositor e estudante de Direito na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. 

Livro aborda amadurecimento e juventude no interior do RN - Foto: Edson Herlan
Livro aborda amadurecimento e juventude no interior do RN - Foto: Edson Herlan

Para ele, a poesia é um veículo para o que não se consegue expressar em voz alta. Viabilizada com recursos da Lei Aldir Blanc, a publicação reflete a ampliação do acesso a fomentos para artistas de fora da capital potiguar. O livro será lançado oficialmente no dia 18 de outubro, em Currais Novos (RN). Confira a entrevista completa.

Revista Cultue: Gostaria de começar por sua história com a literatura. Como surgiu, ainda na infância, o interesse pelos livros?

Tales Gabriel: A minha história com a literatura começou quando eu era criança. Sempre gostei muito de ler. Lia bastantes quadrinhos, lia Turma da Mônica, lia muitas revistas, lia os contos de fada que as crianças leem… E foi assim que fui desenvolvendo a vontade de ler outras coisas. Meu primo [Carlos Barata], que fez o prefácio, também me incentivava muito a ler mitologia grega e outras histórias. E, assim, fui começando a me interessar mais pela leitura. 

Cultue: E como surgiu a vontade de escrever as suas próprias histórias?

Tales: A escrita começou quando eu era um pouquinho mais velho, quando tinha por volta dos 12 anos. Comecei a escrever quando tive mais acesso à internet. A vontade de escrever minhas próprias histórias surgiu no site Spirit Fanfics, em que eu podia escrever minhas próprias histórias sobre qualquer coisa – sobre filmes, sobre animes que eu gostava, por exemplo. E comecei a escrever sobre diversos personagens que já existiam antes. Assim eu fui me desenvolvendo e começando a escrever as minhas histórias originais, e depois as minhas poesias. Um tempo depois, eu comecei a tomar mais gosto pelo texto poético. 

Cultue: Por que poesia?

Tales: Eu não sei dizer exatamente por que poesia. A poesia sempre me encantou muito. Eu lembro que comecei a ter mais interesse por poesia depois de ler alguns livros na biblioteca da escola que eu estudava, a Escola Estadual Tristão de Barros, em Currais Novos. Li vários poetas famosos, como Cecília Meirelles e Fernando Pessoa, e as poesias me passavam a ideia de um texto que consegue passar o que a gente não consegue dizer em voz alta. Coisas que a gente consegue apenas passar para o papel. Cada palavra e cada vírgula têm um significado específico. Isso me dava muita liberdade na hora de escrever. Foi isso que me fez ficar mais próximo especificamente da poesia.

Cultue: Quais os principais temas presentes nos poemas?

Tales: Eu tenho muitas muitas questões sobre o tempo. Não é à toa que o livro se chama “Outrora”, que é um tempo anterior, um tempo que já não está mais presente. Falo muito sobre passado, presente e futuro, falo muito sobre sonhos, sobre expectativas de futuro. É um livro sobre o crescimento e o amadurecimento de um jovem adulto, na sociedade em que estamos e que tem essa vertente, querendo ou não, do local onde eu estou, que é o interior do Rio Grande do Norte, do Nordeste.

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“A poesia sempre me encantou muito”, diz o autor – Foto: Edson Herlan

Falo muito também sobre amor, sobre sonhos e sobre querer essa liberdade, que é algo que todo jovem almeja. Só que a liberdade é condicionada a muitos fatores, e nós nunca estamos completamente livres – tudo isso depende de muitas coisas, que muitas vezes não estão ao nosso alcance para decidir, e isso causa uma angústia. Eu trouxe essa angústia para vários desses textos.

Cultue: Conta um pouco do processo de escrita por trás de “Outrora”. Como foi o processo de selecionar os poemas, escritos em 10 anos, e a escolha dos capítulos?

Tales: O processo de escrita é um pouco complicado. Ele está mais atrelado a essa questão de seleção, porque eu escrevi poemas especificamente para o livro, sim, mas eu selecionei muito mais [poesias já escritas antes] do que escrevi. O livro é separado em três seções. É um pouco literal: Primórdios são os poemas ainda da minha adolescência, de quando eu tinha 15, 16 anos; Interlúdio é de cinco anos atrás, mais ou menos; e Ontem são poemas mais recentes, de dois anos, um ano atrás. Alguns até deste ano.

Essa seleção foi complicada, mas ao mesmo tempo bastante reveladora, porque, quando você vai atrás de textos antigos seus, você se lembra de muitas coisas e percebe o quanto mudou. Acho que trazer um livro que tem um cunho tão pessoal, porque eu estou presente em várias dessas poesias, e revisitar isso, mostra bastante o meu amadurecimento. Acredito que é um livro que fala muito sobre amadurecimento, sobre um perfil de juventude, que é o que vivo nos últimos anos, e é um processo muito legal. Trazer o íntimo para o livro foi muito recompensador, porque eu consegui terminar esse processo sabendo muito mais sobre a minha identidade como artista.

Cultue: Deixou muitos poemas na lista de espera para uma próxima obra? Como seria uma segunda parte de “Outrora”?

Tales: Eu não deixei muitos poemas na leitura de espera, mas teve poesias que eu não escolhi porque, por mais que eu gostasse delas, elas não cumpririam o papel que eu gostaria que elas cumprissem, de me introduzir como escritor para o público leitor. Em relação a uma segunda parte de “Outrora”, eu não consigo ver isso acontecendo, porque ele é um livro muito único e tem um papel único de apresentar essa minha perspectiva, esse meu viés artístico, além de fazer esse marco histórico na minha linha do tempo como artista. Me vejo escrevendo outro livro em relação a outras coisas, escrevendo outro gênero. Eu também gosto muito de escrever contos, por exemplo.

Cultue: A publicação do livro está sendo possível graças às leis de incentivo. De que forma esses mecanismos chegam aos artistas do interior do Estado?

Tales: A publicação está ocorrendo graças à lei de incentivo Aldir Blanc, do Estado Rio Grande do Norte. Esses mecanismos chegam para os artistas do interior por meio dos editais, e a Secretaria de Estado da Cultura, depois da Lei Paulo Gustavo, começou a fazer mais ouvidorias com os artistas e entender como a gente acharia a melhor forma que esse dinheiro fosse viabilizado para a classe artística. Antes, só existia 50% da verba para Natal e região e 50% para o resto do estado. Agora, toda região tem a sua quantia de vagas. A gente, do Seridó, tem a nossa quantia de vagas a depender do edital – isso torna o processo muito mais democratizado, para que todos os artistas do Rio Grande do Norte consigam acessar esses recursos e fazer seus projetos.