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Ciência

Demência é rara entre indígenas da Amazônia boliviana, mas quem adoece morre seis vezes mais

Estudo acompanhou 730 adultos dos povos Tsimané e Mosetén por cinco anos e achou 22 novos casos, com incidência menor que na América do Norte
Agora RN
25/09/2026 | 21:56

A demência entre indígenas da Amazônia boliviana é excepcionalmente rara. Nos povos Tsimané e Mosetén, levantamentos encontraram prevalência de apenas 1% a 2% — contra algo em torno de 8,5% dos brasileiros de 60 anos ou mais que convivem com algum tipo da condição. Um novo estudo, porém, mostra que parte dessa distância tem explicação menos favorável do que parecia até agora.

Foram 730 adultos dessas comunidades acompanhados ao longo de cinco anos por pesquisadores dos Estados Unidos. A idade média dos participantes era de 67,3 anos, e 22 novos casos de demência apareceram no período. A incidência calculada ficou em 7,4 casos por mil pessoas-ano, abaixo do que se registra em populações da América do Norte e do norte da Europa. O trabalho foi publicado na revista Alzheimer’s & Dementia: The Journal of the Alzheimer’s Association, editada pela associação americana que estuda a doença.

Mão de uma pessoa mais jovem pousada sobre as mãos entrelaçadas de uma pessoa idosa
Imagem ilustrativa sobre envelhecimento e demência: o estudo acompanhou 730 adultos dos povos Tsimané e Mosetén por cinco anos — Reprodução/Pixabay

Até aqui, o achado só reforça o que já se observava — a condição é de fato mais rara ali do que em populações industrializadas. Ao seguir os participantes ano a ano, porém, os pesquisadores chegaram a outro número, e esse não é favorável. Quem desenvolvia a condição passava a correr um risco de morte seis vezes maior do que quem seguia com a cognição normal.

Por que a prevalência é tão baixa

É essa diferença que ajuda a entender a proporção tão pequena de pessoas vivendo com demência naquelas comunidades. Surgem relativamente poucos casos, e quem adoece parece sobreviver por menos tempo. Nos Estados Unidos, por comparação, a redução de sobrevida associada à demência é estimada entre duas e três vezes. Entre os indígenas acompanhados, a distância encontrada foi consideravelmente maior.

Explicação definitiva para essa mortalidade ainda não existe. Uma das hipóteses é que as características do dia a dia dessas comunidades tenham influência. Tsimané e Mosetén levam uma rotina de elevada atividade física e vivem em ambientes onde as dificuldades trazidas pelo comprometimento cognitivo podem custar mais caro à sobrevivência.

O que o sangue mostrou

O sangue dos participantes forneceu outra pista a respeito de como a doença se manifesta nessas populações. Quem recebeu diagnóstico apresentava níveis elevados de biomarcadores de neurodegeneração, entre eles as proteínas da cadeia leve de neurofilamentos. Faltou, em contrapartida, o padrão de proteínas anormais que costuma acompanhar a doença de Alzheimer: marcadores como amiloide e tau fosforilada não apareceram como se esperava.

Essa lacuna abre uma possibilidade: a de que parte dos casos de demência entre os dois povos tenha causas diferentes daquelas que se observam com frequência nas populações industrializadas. O estudo não diz quais seriam esses mecanismos. Indica, sim, que envelhecimento cognitivo e demência podem seguir caminhos distintos conforme a população e o ambiente.

Os resultados também recolocam em perspectiva a aparente proteção dessas comunidades. Prevalência baixa continua sendo um dado relevante, mas não quer dizer, assim sem mais, que seus integrantes cheguem à velhice sem nenhum comprometimento cognitivo. Parte do fenômeno pode vir da menor incidência; outra parte parece vir da mortalidade alta depois que a demência se instala.

A combinação faz dessas comunidades uma oportunidade dupla de pesquisa: investigar o que pode proteger o cérebro ao longo do envelhecimento e, na mesma medida, descobrir que mecanismos de demência existem fora dos padrões mais conhecidos da doença de Alzheimer.