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Saúde

Laboratório brasileiro testa antídoto contra overdose e intoxicações agudas

Medicamento desenvolvido pela UFG capturou até 60% das substâncias tóxicas em estudos pré-clínicos, mas ainda precisa demonstrar segurança e eficácia em humanos
Por O Correio de Hoje
03/08/2026 | 18:21

A farmacêutica Cristália pretende solicitar à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), nas próximas semanas, autorização para iniciar os testes clínicos de uma terapia destinada ao tratamento de overdoses e intoxicações agudas, inclusive por cocaína. Batizado de lipossoma de resgate, o medicamento ainda está em fase inicial de desenvolvimento.

Atualmente, a maioria desses quadros não possui tratamento específico. Os pacientes recebem medidas de suporte enquanto o organismo elimina as substâncias, mas há risco de morte. Uma das exceções é o cloridrato de naloxona, utilizado para reverter overdoses causadas por opioides.

Antídoto
Primeira fase dos testes em humanos avaliará apenas a segurança da terapia com a substância em voluntários saudáveis - Foto: Pedro Galhardo / Cristália

O lipossoma de resgate foi criado por pesquisadores da Universidade Federal de Goiás (UFG), liderados pela farmacêutica Eliana Martins Lima, professora titular e chefe do Laboratório de Nanotecnologia Farmacêutica da instituição. A Cristália integra o projeto desde 2024, quando firmou um acordo de cooperação com a universidade para financiar os estudos e obter o direito de exploração comercial do produto.

Lipossomas são estruturas formadas por moléculas de gordura e utilizadas há mais de 30 anos para transportar medicamentos com segurança pelo organismo. Desde 2017, a equipe da UFG pesquisa uma aplicação diferente: usar essas estruturas para capturar moléculas tóxicas presentes no sangue.

“Fizemos estudos in vitro com alta concentração de substâncias tóxicas no plasma e testes com ratos e suínos e vimos que o lipossoma foi capaz de capturar até 60% dessas moléculas em circulação”, afirmou Eliana ao Pulsa. A declaração ocorreu durante o anúncio de uma parceria entre a Cristália e o Instituto Bairral de Psiquiatria, que conduzirá os testes clínicos.

Segundo a pesquisadora, o medicamento poderia impedir que as substâncias chegassem a órgãos vitais, como coração e cérebro. Depois de capturadas pelo lipossoma, as moléculas seriam metabolizadas no fígado e eliminadas pelas fezes.

Os estudos pré-clínicos apresentaram resultados considerados positivos contra overdose de cocaína e intoxicação por lidocaína, anestésico usado em procedimentos médicos e odontológicos. Mesmo que a eficácia seja confirmada nesses dois casos, porém, cada substância exigirá uma pesquisa específica.

Os resultados obtidos em laboratório e em animais ainda não foram publicados em revistas científicas revisadas por pares. Eliana e representantes da Cristália afirmam que a submissão ocorrerá após o registro da patente no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), previsto para os próximos meses.

A primeira fase dos testes em humanos avaliará apenas a segurança da terapia em voluntários saudáveis. Os participantes receberão o medicamento sem serem submetidos a qualquer intoxicação, para que os pesquisadores identifiquem possíveis efeitos adversos.

“Já tivemos duas reuniões com a Anvisa para entender a melhor forma de apresentação dos dados que já temos dos estudos pré-clínicos”, afirmou Rogério Almeida, vice-presidente de pesquisa e desenvolvimento da Cristália. Procurada pelo Pulsa, a agência não se manifestou sobre as conversas até a publicação da reportagem original.

Caso o produto avance, as fases 2 e 3 avaliarão sua eficácia em pacientes que chegarem às emergências com intoxicação ou overdose. O Instituto Bairral elaborará o protocolo da pesquisa e definirá os critérios para a seleção dos participantes. A Cristália prevê investir ao menos R$ 54 milhões no desenvolvimento e nos testes, segundo o fundador da empresa, Ogari Pacheco.

Se tiver eficácia comprovada, a terapia poderá ser usada tanto em dependentes químicos quanto em vítimas de intoxicação acidental, como crianças, pacientes que receberam doses incorretas de medicamentos e pessoas obrigadas a engolir drogas para transportá-las.

A Cristália também desenvolve a polilaminina, terapia experimental para pacientes com paralisia decorrente de lesão medular. A empresa foi criticada pela divulgação dos resultados preliminares do estudo piloto, que provocou uma série de ações judiciais pelo uso compassivo da substância, ainda sem segurança e eficácia comprovadas.