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Irã

Irã amplia influência após trégua com EUA

Trégua de 60 dias reduz tensões no Oriente Médio, mas especialistas apontam que Teerã obteve ganhos diplomáticos e econômicos sem ceder imediatamente em temas centrais
Por O Correio de Hoje
17/06/2026 | 14:07

O acordo preliminar firmado entre Estados Unidos e Irã para interromper a guerra no Oriente Médio por 60 dias começa a produzir efeitos econômicos e diplomáticos imediatos, mas também alimenta uma avaliação crescente entre analistas internacionais: apesar dos danos sofridos durante o conflito, Teerã pode ter saído das negociações em posição política mais favorável do que a que possuía antes do início da guerra.

A percepção contrasta com a narrativa apresentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que classificou o entendimento como uma vitória diplomática de Washington. Embora o memorando tenha permitido a retomada gradual da navegação no Estreito de Ormuz e reduzido os riscos para o abastecimento global de energia, especialistas observam que vários dos objetivos inicialmente anunciados pelos americanos não foram alcançados.

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Analistas avaliam que Irã pode sair politicamente fortalecido após acordo provisório com os Estados Unidos - Foto: Reprodução

Quando a ofensiva militar foi iniciada, em fevereiro, Trump afirmou que pretendia neutralizar as capacidades militares iranianas, enfraquecer decisivamente o regime dos aiatolás e pressionar por uma solução definitiva para o programa nuclear do país.

Meses depois, porém, a principal conquista obtida até o momento foi um acordo provisório que suspende as hostilidades e transfere para futuras negociações justamente os temas mais sensíveis da disputa, incluindo a questão nuclear, as sanções econômicas e o desbloqueio de ativos financeiros iranianos mantidos no exterior.

Para o professor Michel Gherman, coordenador do Núcleo de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o simples fato de o Irã participar de uma negociação direta apoiada por potências internacionais representa uma mudança relevante no equilíbrio diplomático da região.

Segundo ele, países que há pouco tempo tratavam o regime iraniano como enfraquecido passaram a integrar articulações voltadas à construção de um entendimento com Teerã.

A avaliação é compartilhada por parte dos analistas que acompanham as negociações. Embora o conteúdo completo do memorando ainda não tenha sido divulgado, os termos já conhecidos indicam que o Irã poderá obter benefícios econômicos importantes sem abrir mão imediatamente de suas principais posições estratégicas.

Entre os potenciais ganhos está o descongelamento de bilhões de dólares em ativos financeiros bloqueados no exterior. O país também busca ampliar o reconhecimento internacional dos futuros compromissos negociados, incluindo eventual validação pelo Conselho de Segurança da ONU.

A reabertura do Estreito de Ormuz, apresentada por Washington como um dos principais resultados do acordo, é vista por alguns especialistas como uma concessão limitada. O bloqueio da passagem marítima ocorreu justamente como resposta iraniana às operações militares conduzidas por Estados Unidos e Israel durante a guerra.

Nesse contexto, a normalização do tráfego seria mais uma reversão dos efeitos do conflito do que uma vitória estratégica inequívoca para qualquer dos lados.

Críticas semelhantes surgiram dentro dos próprios círculos diplomáticos americanos. O ex-embaixador dos Estados Unidos em Israel, Daniel Shapiro, avaliou que Washington ainda está distante de alcançar um acordo nuclear considerado satisfatório.

Segundo ele, existe o risco de que as futuras negociações produzam resultados inferiores aos que poderiam ter sido obtidos por meio da diplomacia antes da escalada militar.

Além das dificuldades relacionadas ao programa nuclear, outro desafio envolve a abrangência regional do entendimento. Embora as negociações tenham sido conduzidas por Estados Unidos, Irã e Paquistão, diversos atores centrais para a estabilidade da região não participaram formalmente das tratativas. Entre eles estão Israel, países do Golfo e grupos armados que atuam em diferentes frentes do conflito.

Essa ausência gera dúvidas sobre a capacidade de implementação do acordo.

A CEO da organização de pesquisa ACLED, Clionadh Raleigh, observa que parte significativa das questões em discussão depende do comportamento de governos que não participaram diretamente do processo de negociação.

O problema ficou evidente poucas horas após o anúncio do memorando. Mesmo com a trégua em vigor, novos ataques foram registrados no sul do Líbano. Integrantes do governo israelense também manifestaram resistência à possibilidade de limitar operações militares por determinação de Washington.

Apesar do alívio inicial observado nos mercados e da redução imediata das tensões, especialistas avaliam que os próximos 60 dias serão decisivos para determinar se o entendimento representará o início de uma solução diplomática mais duradoura ou apenas uma pausa temporária em um conflito marcado por décadas de desconfiança, interesses divergentes e sucessivas tentativas fracassadas de negociação.