As declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre o receio que parte da população teria de procurar delegacias para devolver celulares roubados ou furtados provocaram reação de entidades representativas da Polícia Civil no Rio Grande do Norte. A Associação dos Delegados de Polícia Civil do Estado (Adepol-RN) e o Sindicato dos Policiais Civis e Servidores da Segurança Pública (Sinpol-RN) divulgaram notas públicas nas quais criticam as afirmações do chefe do Executivo federal e defendem a atuação dos profissionais da segurança pública.
As manifestações ocorreram após discurso de Lula durante a 7ª Reunião Plenária do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, realizada na semana passada, quando o presidente apresentou uma proposta do governo federal para ampliar a recuperação de celulares roubados ou furtados por meio do envio de notificações aos aparelhos com registro de roubo.

Ao defender que os dispositivos possam ser devolvidos em agências dos Correios, Lula afirmou que muitas pessoas evitariam procurar uma delegacia por insegurança em relação ao atendimento policial.
“Eu vou efetivamente despachar o sinalzinho para quem tiver com o telefone roubado devolver, porque senão pode ter consequências. A dúvida é que eu não quero devolver na delegacia, eu quero devolver no correio. Na delegacia, as pessoas têm até medo, porque não sabem o tipo de delegado que vão encontrar ou o tipo de policial”, declarou o presidente.
Na mesma fala, Lula também comentou o mercado ilegal de aparelhos celulares e afirmou que consumidores podem ser atraídos pelo baixo preço dos produtos de origem ilícita.
“Quem é que não gosta de comprar uma coisinha barata? Todo mundo gosta. Essa inquietação econômica de quem tá com telefone roubado mexeu com a minha cabeça. Eu não posso ficar com essa dúvida, porque o telefone seguro vai deixar 200 milhões de brasileiros tranquilos de que eles não vão ter mais o seu celular roubado”, disse.
Em nota, a Adepol-RN classificou a declaração como “inadequada, injusta e desrespeitosa” e afirmou que ela atinge milhares de delegados e policiais civis que exercem suas funções “com responsabilidade, legalidade, compromisso público e permanente dedicação à sociedade brasileira”.
A entidade ressaltou ainda que as delegacias são “portas de acesso ao sistema de Justiça Criminal”, desempenhando funções de acolhimento, investigação, proteção de direitos, recuperação de bens e responsabilização de infratores.
Embora reconheça a importância de políticas públicas voltadas à recuperação de celulares furtados e roubados, a associação afirmou que essas iniciativas devem fortalecer as instituições policiais.
“Contudo, tais iniciativas devem fortalecer as instituições policiais, e não propagar generalizações que fragilizam a confiança da população na Polícia Judiciária”, registra o documento.
A Adepol-RN também declarou que “a segurança pública exige integração, respeito institucional e valorização dos profissionais que estão na linha de frente do combate ao crime” e reafirmou seu compromisso “com a legalidade, com a investigação criminal técnica e com a defesa intransigente das prerrogativas dos Delegados de Polícia Civil”.
O Sindicato dos Policiais Civis e Servidores da Segurança Pública do Rio Grande do Norte (Sinpol-RN) também manifestou repúdio às declarações do presidente. Em nota, a entidade afirmou que as falas são “injustas, desrespeitosas e desconsideram o trabalho sério, comprometido e transparente realizado diariamente por milhares de Policiais Civis em todo o Brasil”.
Segundo o sindicato, trata-se de “uma generalização equivocada que atinge profissionais que dedicam suas vidas à investigação criminal, ao combate à criminalidade e à promoção da Justiça”.
O Sinpol-RN destacou ainda que a Polícia Civil potiguar se tornou referência nacional em operações de recuperação e devolução de celulares roubados ou furtados, ressaltando que centenas de aparelhos foram restituídos aos proprietários nos últimos anos “de forma legal, transparente e eficiente”.
A entidade também afirmou causar “estranheza” que esse tipo de declaração tenha partido do presidente da República, sustentando que a maior autoridade política do país deveria “reconhecer, valorizar e fortalecer os profissionais responsáveis pela segurança da população brasileira”.
Ao final da nota, o sindicato reiterou confiança na atuação ética dos policiais civis e declarou repudiar “qualquer tentativa de desacreditar o trabalho da categoria por meio de declarações infundadas que apenas contribuem para desinformar a sociedade e desvalorizar os servidores da Segurança Pública”.