Quase dois anos após o fim do programa Desenrola, o Brasil voltou a registrar forte avanço da inadimplência, com 81,7 milhões de consumidores com contas em atraso — um aumento de cerca de 9 milhões de pessoas no período. O patamar atual representa o maior nível de calote desde 2012 e reacende o debate no governo sobre a criação de uma nova política de renegociação de dívidas.
Lançado em julho de 2023 como uma das promessas de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Desenrola tinha como objetivo conter o avanço do superendividamento no pós-pandemia. À época, o país registrava 71,4 milhões de inadimplentes, segundo dados da Serasa.

Durante cerca de dez meses de operação, o programa promoveu uma redução pontual da inadimplência entre a população de baixa renda — seu público-alvo —, que passou de 25,2 milhões para 23,1 milhões de pessoas. No total, 15 milhões de brasileiros renegociaram R$ 53,2 bilhões em dívidas.
Apesar do alívio inicial, especialistas avaliam que o programa teve impacto limitado por não atacar as causas estruturais do endividamento. “O governo tomou uma medida paliativa, que não interrompeu o ciclo que promove o endividamento”, afirma Ione Amorim, economista do Idec.
Com o fim do programa, a inadimplência voltou a crescer, impulsionada por fatores como juros elevados, expansão do crédito digital e aumento das apostas online. A taxa de calote em operações de crédito de pessoas físicas alcançou 5,24%, a maior em 14 anos.
Segundo especialistas, a combinação de oferta agressiva de crédito e custo elevado do dinheiro tem ampliado o risco financeiro das famílias. “Hoje há uma combinação de mais atores atuando no mercado de crédito digital, oferecendo empréstimos de forma quase automática. Os juros altos são a cereja do bolo”, afirmou Lauro Gonzalez, da FGV.
Atualmente, a maior parte das dívidas dos brasileiros está concentrada em bancos, especialmente no cartão de crédito, que responde por 26,7% do total. Contas de consumo, como água e energia (21,3%), e dívidas com financeiras (20,3%) também têm peso relevante.
A avaliação de economistas é que o desenho do Desenrola enfrentou dificuldades operacionais, sobretudo na fase voltada à população de menor renda, que exigia acesso a uma plataforma digital com níveis específicos de cadastro no portal Gov.br. A exigência acabou limitando a adesão inicial ao programa.
Diante do novo cenário, o Ministério da Fazenda estuda uma reedição do programa, com foco em dívidas mais caras, como cartão de crédito e cheque especial, oferecendo descontos de até 80% e possibilidade de refinanciamento.
A proposta também pode incluir contrapartidas, como restrições ao uso de plataformas de apostas e a exigência de participação em cursos de educação financeira. Ainda assim, especialistas alertam para o risco de repetição de falhas anteriores, caso a política mantenha caráter emergencial e não enfrente os determinantes estruturais do superendividamento.
Para Fabio Bentes, economista da CNC, o cenário atual reflete principalmente a alta da taxa básica de juros, que passou de 10,50% ao ano, no fim do Desenrola, para 14,75% atualmente. “O Desenrola teve boas intenções, mas não resolveu o problema nem de longe”, afirmou.
O avanço da inadimplência, aliado às incertezas sobre a eficácia de novas medidas, mantém o tema no centro das discussões econômicas, com impacto direto sobre consumo, crédito e crescimento da atividade no país.