O presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Roberto Serquiz, afirmou que o próximo governador do Estado terá como principal desafio enfrentar o desequilíbrio fiscal das contas públicas. Em entrevista ao podcast “Fala, Indústria!”, ele defendeu medidas de controle de despesas, uma reforma administrativa e um pacto envolvendo governo, poderes e sociedade para recuperar a capacidade de investimento do Estado.
Segundo Serquiz, a situação financeira do Rio Grande do Norte se tornou um obstáculo para a execução de obras estruturantes e para a atração de novos investimentos. Na avaliação dele, sem enfrentar o problema fiscal, qualquer projeto de desenvolvimento ficará comprometido.

“É uma situação sine qua non para o próprio governante. Ou ele enfrenta esse problema fiscal do Estado, ou ele vai se deparar com a mesma situação que os últimos três governadores enfrentaram: a ausência de capacidade própria de investimento”, declarou.
Dados do Tesouro Nacional mostram que o RN é o Estado do País com o maior nível de despesa e, consequentemente, menor disponibilidade de receita para investimentos. As despesas com pessoal e encargos abocanharam 75% da receita em 2025. Os gastos com custeio, por sua vez, representaram 21% e os serviços da dívida consumiram 2%. Sobraram apenas 4% para investimentos — o menor valor do País. A título de comparação, o estado vizinho da Paraíba teve o seguinte perfil de execução orçamentária: 57% de despesa com pessoal e encargos, 28% de custeio, 1% de serviços da dívida e 13% para investimentos (6º maior percentual do País).
O dirigente da indústria potiguar observou que a falta de recursos próprios obriga o Estado a depender de transferências federais e de parcerias para viabilizar projetos considerados estratégicos.
“Quando tem essa falta de capacidade própria de investimento, depende do governo federal, depende de uma PPP. É isso que o Estado vem vivendo nos últimos 20 anos, praticamente”, afirmou.
Serquiz disse que a limitação financeira acaba retardando obras importantes para a economia potiguar. Como exemplo, citou a dragagem do Porto de Natal, reivindicação antiga do setor produtivo.
“Quando a federação diz que precisamos ter um porto, precisamos fazer a dragagem, precisamos fazer as defensas, o governante entende. Mas quando ele olha para o lado, ele não tem o dinheiro para fazer. Ele depende da União, tem todo um trânsito burocrático. Então, isso demora a acontecer. Começamos a dragagem agora. O tempo que nós perdemos, isso é competitividade.”
Para o presidente da Fiern, a discussão sobre o ajuste fiscal não deve ser tratada como uma disputa política entre governos, mas como uma necessidade estrutural do Estado.
“Aqui não vai nenhuma culpabilidade para A ou B governantes. É um cenário do que nós estamos sentindo e do que o Estado precisa fazer”, ressaltou.
Ele defendeu uma reforma administrativa e uma revisão dos gastos públicos.
“Alguém tem que enfrentar essa reforma administrativa. Onde é que estão as gorduras? Como é que está sendo distribuído realmente o recurso arrecadado do Estado? É preciso dar férias à despesa? Então vamos dar férias à despesa e chamar a sociedade para discussão, chamar os poderes para discussão, criar um pacto disso.”
Segundo Serquiz, o objetivo final não é apenas melhorar indicadores fiscais, mas criar condições para geração de oportunidades.
“Quando a gente fala emprego e renda, muitas vezes fica muito repetitivo. Mas não estamos falando só disso. Estamos falando de dignidade. As pessoas precisam realmente ter a condição de construir sua independência econômica e sua própria qualidade de vida.”
Competitividade e infraestrutura
Ao abordar os desafios para o crescimento econômico do Rio Grande do Norte, o presidente da Fiern apontou a infraestrutura como um dos principais gargalos para a competitividade da indústria.
Ele destacou que o Estado não possui um porto voltado à movimentação de contêineres, o que obriga as empresas a utilizarem estruturas localizadas em estados vizinhos.
“Nós temos três portos no Rio Grande do Norte, mas não temos um porto que possa escoar a nossa produção. Hoje, 74% da produção sai por Suape, em Pernambuco, e pelo Pecém, no Ceará.”
Segundo Serquiz, a dependência de outros estados aumenta os custos logísticos das empresas potiguares e reduz a competitividade dos produtos locais. Além da questão portuária, ele citou a situação das rodovias estaduais como outro problema histórico.
“O governo está fazendo agora uma quantidade de recuperação de estradas. É bem-vindo. Mas veja quanto tempo se levou para que hoje estivesse sendo feito isso. Esse custo também se pagou.”
Apesar dos obstáculos, o dirigente avalia que a indústria potiguar tem conseguido avançar graças ao esforço do empresariado local. Ele citou dados recentes do Observatório da Indústria Mais RN que apontam crescimento da participação industrial na economia estadual.
“Importante. Todo crescimento é importante. Nós aumentamos de 20% para 23% a participação da indústria na economia do Estado. Também aumentamos o número de indústrias, de 11,6 mil para 13,7 mil. Hoje a indústria corresponde a 55% das exportações do Rio Grande do Norte.”
Mesmo considerando os resultados positivos, Serquiz entende que o potencial de crescimento é muito maior.
Ele afirmou que o Rio Grande do Norte reúne condições naturais e econômicas para ampliar significativamente sua atividade industrial, sobretudo na indústria de transformação.
“Quando falo em indústria de transformação, falo da confecção, dos móveis, do plástico, dos alimentos. Esse setor está se movimentando no Estado.”
O presidente da Fiern também destacou atividades consideradas estratégicas para o futuro da economia potiguar, como mineração, petróleo, energias renováveis, pesca, sal e fruticultura.
“Nós precisamos transformar essas riquezas em desenvolvimento.”
Ele citou ainda o potencial do Seridó, especialmente nos setores de confecção e bonelaria, e defendeu maior estímulo à industrialização regional.
“A cultura do Seridó é a cultura da costura. Nós temos o segundo polo boneleiro do Brasil. Temos mais de 120 oficinas de costura naquela região. Há cidades com pleno emprego. O que significa dizer que, se hoje nós temos números importantes, nós poderíamos ter muito mais.”