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Crime

Criminalidade gera prejuízo de R$ 107 bilhões por ano para a indústria brasileira

Levantamento mostra que empresas gastam mais com prevenção do que perdem diretamente com ações criminosas; roubo de cargas lidera ocorrências
Por O Correio de Hoje
01/06/2026 | 12:42

A criminalidade impõe um custo bilionário à indústria brasileira. Levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) estima que os prejuízos provocados por crimes e pelos investimentos necessários para combatê-los somam pelo menos R$ 107 bilhões por ano.

A pesquisa ouviu 1.398 empresas de pequeno, médio e grande porte, distribuídas por 32 segmentos industriais em todo o país, entre os dias 3 e 12 de novembro de 2025.

Caminhão
Entre os ilícitos mais frequentes, o roubo de cargas aparece em 1º lugar - Foto: José Aldenir

Do valor total estimado, R$ 68,8 bilhões correspondem aos gastos realizados pelas empresas para prevenir crimes. Nessa conta entram despesas com vigilância patrimonial, monitoramento eletrônico, segurança cibernética e proteção pessoal. Outros R$ 39,1 bilhões representam perdas diretas causadas por atividades criminosas, incluindo roubos de carga, furtos de matérias-primas, pirataria, contrabando e fraudes no consumo de energia elétrica.

Segundo a CNI, os recursos destinados à proteção e as perdas causadas pela criminalidade poderiam estar sendo direcionados para investimentos produtivos, ampliação da capacidade industrial e geração de empregos.

A entidade também aponta que parte desses prejuízos pode estar associada à atuação do crime organizado, embora o estudo não tenha conseguido dimensionar exatamente esse impacto. Casos recentes em setores como combustíveis e bebidas apresentaram indícios de participação de organizações criminosas, mas as empresas geralmente conseguem mensurar apenas os prejuízos sofridos, sem identificar os responsáveis pelos delitos.

Os efeitos da criminalidade atingem mais de um terço das indústrias brasileiras e são particularmente severos para empresas de menor porte. Nas pequenas empresas, o impacto médio corresponde a 0,6% da receita líquida anual. Entre as médias, o percentual sobe para 0,8%, enquanto nas grandes companhias chega a 0,4%.

De acordo com a CNI, esse dado ganha relevância porque micro e pequenas empresas representam cerca de 44% da indústria nacional, segundo números do Sebrae referentes a 2024. Quando pressionadas pelos custos associados à criminalidade, essas empresas tendem a reduzir investimentos, adiar projetos e evitar riscos, o que pode comprometer a inovação e o crescimento econômico no longo prazo.

Entre os ilícitos mais frequentes, o roubo de cargas aparece em primeiro lugar, citado por 32% das empresas. O tipo de crime, entretanto, varia conforme o porte da companhia. Enquanto pequenas empresas sofrem mais com furtos e roubos dentro de suas próprias instalações, médias e grandes organizações são mais afetadas por ataques a cargas durante o transporte.

O problema tem impacto expressivo em alguns estados. No Rio de Janeiro, por exemplo, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) registrou mais de 3 mil ocorrências de roubo de cargas em 2025, média de oito caminhões atacados por dia. O prejuízo estimado para as empresas fluminenses chegou a cerca de R$ 314 milhões.

A segunda irregularidade mais relatada pelas indústrias é a comercialização de produtos que não atendem às normas técnicas, regulatórias ou de segurança exigidas pela legislação. A prática envolve desde a ausência de certificações obrigatórias até falhas em rotulagem e qualidade inferior aos padrões estabelecidos.

Nesse contexto também aparecem a pirataria e a falsificação de produtos, que figuram entre os crimes mais mencionados pelas empresas. Além dos riscos à saúde e à segurança dos consumidores, essas práticas geram concorrência desleal ao permitirem a oferta de produtos mais baratos, produzidos sem o cumprimento das exigências legais.

Como consequência, a perda de participação de mercado é apontada por 30% das empresas afetadas como um dos principais impactos da criminalidade, atrás apenas da redução da receita bruta, citada por metade dos entrevistados. O aumento dos gastos com segurança foi mencionado por 28% das companhias, enquanto 10% relataram elevação dos custos jurídicos.

A pesquisa também investigou quais medidas são consideradas mais eficazes para enfrentar o problema. A ampliação da fiscalização e dos mecanismos de controle lidera as respostas, sendo defendida por 77% das empresas. Em seguida aparecem ações de inteligência, mencionadas por 46% dos participantes. Já 36% defendem o endurecimento da legislação como forma de reduzir a incidência de crimes que afetam o setor produtivo.

Para a CNI, os resultados indicam que o setor industrial espera uma atuação mais firme do poder público, especialmente na fiscalização da circulação e comercialização de produtos irregulares, considerados uma das principais fontes de prejuízo para a atividade econômica formal.

Crimes que mais atingem a indústria brasileira

Percentual de empresas impactadas por cada tipo de ilícito nos últimos dois anos, segundo a CNI:

  • Roubo ou furto de carga durante o transporte – 32%
  • Produtos fora das normas técnicas e regulatórias (produção ou venda irregular) – 29%
  • Roubo ou furto de matérias-primas, equipamentos e produtos dentro das empresas – 21%
  • Descaminho, subfaturamento ou falsa declaração de origem – 17%
  • Pirataria, contrafação e falsificação de produtos – 15%
  • Outros tipos de crimes – 15%
  • Contrabando de produtos proibidos ou sem registro regulatório – 11%
  • Fraude ou furto de energia elétrica (“gato”) – 4%
  • Fraude ou furto de água – 1%

Fonte: CNI.