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Economia

“Estado se trava com baixa capacidade de investimento próprio”, diz Serquiz

Roberto Serquiz aponta déficit logístico, impactos do “tarifaço” e riscos de mudanças trabalhistas em meio à transição tributária
Elias Luz
04/03/2026 | 05:38

O presidente da Federação das Indústrias do Rio Grande do Norte (Fiern), Roberto Serquiz, afirma que o principal entrave ao avanço da competitividade do Rio Grande do Norte é o déficit histórico de infraestrutura. Segundo ele, a limitada capacidade de investimento do Estado, aliada à dependência de repasses federais e à burocracia associada, compromete a execução de obras estruturantes e mantém gargalos logísticos que afetam diretamente o setor produtivo.

De acordo com Serquiz, a precariedade de trechos rodoviários, a necessidade de modernização de acessos estratégicos e a ausência de investimentos consistentes elevam custos, dificultam o escoamento da produção e reduzem a atratividade para novos empreendimentos. “Sem infraestrutura adequada, não há competitividade. E, sem competitividade, o Estado perde oportunidades, investimentos e geração de empregos”, afirma.

Roberto Serquiz Copia
Infraestrutura e ambiente regulatório travam avanço industrial, diz o presidente da Fiern, empresário Roberto Serquiz - foto: Reprodução/Assessoria

Para o dirigente, romper esse ciclo exige recuperação da capacidade de inestimento, aprimoramento do ambiente fiscal, definição clara de prioridades e planejamento de longo prazo. A agenda logística, diz, deve ser tratada como política estratégica permanente para assegurar desenvolvimento sustentável e maior protagonismo regional.

No comércio exterior, os setores de pesca e sal seguem entre os mais impactados pelas tarifas impostas durante o governo de Donald Trump nos Estados Unidos. O chamado “tarifaço”, segundo Serquiz, gerou aumento de custos, insegurança e perda de competitividade para segmentos com forte dependência do mercado norte-americano.

Uma decisão recente da Suprema Corte dos Estados Unidos reacendeu a expectativa de revisão de medidas que vinham dificultando as exportações. Embora ainda haja incertezas, o presidente da Fiern vê um ambiente mais favorável para a retomada gradual dos embarques.

“Foi um período de grande turbulência, que exigiu resiliência e reorganização de mercados por parte das empresas potiguares”, afirma. A expectativa é que, com maior previsibilidade nas regras comerciais, os setores consigam recuperar parte das perdas acumuladas.

No cenário doméstico, a eventual revisão da jornada de trabalho no modelo 6 por 1 é considerada tema sensível pelo setor industrial. Para Serquiz, uma discussão dessa magnitude não deveria ocorrer em ano eleitoral, sob risco de comprometer a qualidade técnica do debate.

Ele ressalta que o País já enfrenta o desafio de implementar a transição da reforma tributária. Na avaliação da entidade, promover simultaneamente mudanças estruturais na legislação trabalhista e no sistema tributário ampliaria o grau de incerteza para o setor produtivo.

“O Brasil precisa aumentar sua competitividade. Isso passa por mais tecnologia, mais eficiência, segurança jurídica e estabilidade regulatória”, afirma. Para ele, qualquer alteração na jornada deve levar em conta a produtividade brasileira e ser acompanhada de avanços na modernização do parque industrial e no ambiente de negócios.

Apesar dos entraves, Serquiz destaca que o Rio Grande do Norte possui ativos naturais relevantes — como petróleo, sal, pesca, energias renováveis, fruticultura e mineração — que sustentam parcela significativa do PIB industrial e evidenciam vocação econômica clara.

O Programa de Estímulo ao Desenvolvimento Industrial (Proedi) é apontado como instrumento eficaz para manter a competitividade das empresas instaladas. No entanto, segundo ele, o incentivo isolado não tem sido suficiente para atrair, em maior escala, indústrias de transformação, responsáveis por maior agregação de valor e geração de empregos qualificados.

Para o presidente da Fiern, o desafio central está no ambiente de negócios. A modernização do licenciamento ambiental, com alinhamento à legislação federal, maior agilidade e autonomia técnica do órgão ambiental, é vista como medida essencial para assegurar previsibilidade e prazos definidos.

“O que impede uma industrialização mais acelerada não é falta de potencial, mas a necessidade de avançar em governança, ambiente regulatório e eficiência institucional”, afirma. Com esses ajustes, conclui, o Estado teria condições de dar um salto qualitativo em seu processo de desenvolvimento industrial.