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Eletrificados já mudam avaliação de seminovos em Natal

Entrada de híbridos e elétricos no mercado de usados leva revendedores a incorporar bateria, software, autonomia e histórico de recarga como novos critérios para definir preço e confiança na negociação
Redação
16/06/2026 | 05:43

Todo carro usado carrega uma história. Antes, ela aparecia na quilometragem, na pintura, no barulho do motor, no estado do câmbio, no carimbo das revisões e na procedência do antigo dono. Com a chegada dos híbridos e elétricos ao mercado de seminovos em Natal, parte dessa história passou a ficar escondida em outro lugar: na bateria, no software, no histórico de recarga e na autonomia real do veículo.

A mudança já altera a rotina das lojas multimarcas. Avaliar um seminovo eletrificado exige olhar para pontos que, até pouco tempo atrás, não faziam parte do cálculo de compra e revenda: saúde da bateria, garantia remanescente, atualizações, uso do sistema elétrico e eventual perda de autonomia.

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Avanço dos eletrificados no mercado de seminovos muda negociação nas lojas, afirma associação - Foto: Reprodução

Para o presidente da Associação Norte-Riograndense de Revendedores de Veículos (Anreve), Álvaro Crisanto, os híbridos leves e plug-ins já aparecem com boa penetração no mercado de seminovos em Natal. Os modelos 100% elétricos ainda representam menor volume, mas tendem a crescer rapidamente à medida que as vendas de veículos novos abastecem o mercado de usados.

“Os híbridos leves e plug-ins já estão com uma boa penetração no mercado. Os elétricos 100% ainda representam menor volume, mas crescem rápido porque houve explosão de vendas de zero quilômetro neste ano. E a venda do zero quilômetro abastece o mercado de seminovos com o passar do tempo”, afirma.

A avaliação mostra que a eletrificação começa a produzir um efeito em cadeia. Primeiro, os carros híbridos e elétricos entram nas vitrines das concessionárias como novos. Depois, passam a circular nas ruas, mudam o comportamento do consumidor e, em seguida, chegam ao mercado de seminovos. Nesse ponto, a discussão deixa de ser apenas sobre tecnologia e passa a envolver liquidez, desvalorização, seguro, garantia, manutenção e segurança para quem compra um usado.

Segundo Álvaro, o comprador de seminovos já teve mais receio em relação aos eletrificados. “Essa insegurança estava muito presente no começo. Agora já sentimos uma mudança de mentalidade do público em geral. O principal receio é bateria: custo de substituição e degradação. O consumidor médio ainda não entende bem vida útil, garantia e perda de autonomia. Mas a garantia de até oito anos minimiza esses impactos”, afirma.

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Empresário Álvaro Crisanto representa a Anreve – Foto; Reprodução

A bateria se tornou o novo centro da avaliação. Em um veículo a combustão, o comprador costuma observar quilometragem, estado do motor, câmbio, suspensão, lataria, revisões e procedência. No eletrificado, esses critérios continuam relevantes, mas não são suficientes. É preciso entender como a bateria foi usada, se passou por ciclos frequentes de recarga rápida, se ainda está coberta por garantia, qual a autonomia real e se o sistema recebeu atualizações.

Essa mudança obriga as lojas multimarcas a desenvolverem novas competências. O avaliador de seminovos precisa interpretar informações que antes não faziam parte do cotidiano da revenda. Software, módulos eletrônicos, histórico de recarga e desempenho da bateria entram na composição do preço final.

“A loja multimarcas agora precisa aprender coisas que antes não eram relevantes para avaliação dos carros, como saúde da bateria, histórico de recarga, autonomia real, software e atualizações, garantia remanescente da bateria. Então está mudando completamente as avaliações”, diz Álvaro.

O impacto também aparece na liquidez e na desvalorização. De acordo com o presidente da Anreve, os carros a combustão ainda têm comportamento mais previsível no mercado de usados. Nos eletrificados, esse histórico ainda está em formação.

“Os elétricos de entrada estão tendo uma boa procura no mercado de seminovos também. Então, sua depreciação tem uma maior similaridade com os carros a combustão”, afirma.

Esse recorte é importante porque mostra que o mercado de eletrificados não se comporta de forma uniforme. Elétricos premium podem sofrer mais com desvalorização, especialmente por preço inicial elevado, rápida atualização tecnológica e receio de custo futuro. Já os modelos de entrada encontram público interessado no custo de uso, especialmente entre consumidores que rodam muito.

Segundo Álvaro, os elétricos de entrada têm procura significativa entre motoristas de aplicativo. Esse perfil de cliente calcula o custo por quilômetro rodado, compara gasto com combustível, manutenção e retorno financeiro. Para quem passa boa parte do dia no carro, a economia operacional pode pesar mais que a resistência inicial à tecnologia. “Os carros elétricos de entrada, no mercado de seminovos, estão com uma procura muito grande pelos motoristas de aplicativos. Tem também os clientes que rodam muito e fazem conta de combustível”, afirma.

Outro perfil citado pela Anreve é o de consumidores de SUVs médios que começam a migrar para híbridos e elétricos seminovos. Nesse caso, a decisão envolve tecnologia e custo-benefício. Para alguns compradores, um eletrificado seminovo pode entregar mais conectividade, conforto e equipamentos pelo mesmo valor de um modelo a combustão tradicional. “Também tem alguns clientes de SUV médio fazendo essa migração, por perceber que os híbridos e elétricos seminovos entregam mais tecnologia pelo mesmo custo-benefício”, diz Álvaro.

O avanço dos eletrificados no mercado de seminovos também muda a negociação. A garantia de bateria, por exemplo, passa a ter peso comercial. Um veículo ainda coberto por garantia longa tende a transmitir mais segurança ao comprador. Já carros sem histórico claro de manutenção, sem informações sobre recarga ou com dúvida sobre autonomia podem enfrentar maior resistência.

A loja também precisa explicar melhor o produto. O cliente que compra um eletrificado usado pode ter dúvidas parecidas com as de quem compra um zero quilômetro: onde recarregar, quanto custa rodar, como preservar a bateria, que tipo de manutenção será necessária e se o veículo terá boa revenda no futuro. A diferença é que, no seminovo, essas perguntas se somam ao histórico do antigo proprietário.

Esse cenário exige mais profissionalização das multimarcas. A venda de um seminovo eletrificado não pode se apoiar apenas no preço ou na aparência do carro. Precisa vir acompanhada de informação, transparência e capacidade de demonstrar a condição real do veículo. Quanto mais o comprador entender a bateria, a garantia e a autonomia, menor tende a ser a resistência.

Para o mercado de Natal, o movimento indica uma mudança de etapa. Os eletrificados já não estão restritos às lojas de marca, aos lançamentos ou ao consumidor que compra carro novo. Eles começam a entrar no giro dos usados, pressionando avaliadores, vendedores, lojistas e compradores a aprenderem uma nova linguagem.

Na prática, a eletrificação cria uma espécie de segunda ficha técnica do seminovo. Além de ano, modelo, quilometragem, procedência e estado de conservação, entram agora dados sobre bateria, software e uso energético. Esses elementos podem valorizar, desvalorizar ou até travar uma negociação.

O presidente da Anreve afirma que o setor vive um momento de adaptação e também de depreciação em parte dos estoques. O ajuste faz parte do amadurecimento de um mercado que ainda está aprendendo a precificar novas tecnologias. À medida que mais veículos eletrificados chegarem ao mercado de usados, a tendência é que critérios de avaliação fiquem mais claros e o consumidor ganhe mais segurança.