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Carros

Eletrificação automotiva avança no Brasil e tende a elevar qualidade dos empregos

Investimentos de montadoras chinesas impulsionam empregos, centros de pesquisa e infraestrutura no setor automotivo
Por O Correio de Hoje
07/04/2026 | 13:33

A expansão dos veículos elétricos no Brasil, impulsionada principalmente por montadoras chinesas, começa a redesenhar o mercado de trabalho no setor automotivo. Mais do que aumentar a produção, o movimento tem exigido a criação de um ecossistema mais complexo, que envolve pesquisa, desenvolvimento, testes, manutenção e infraestrutura de recarga — atividades que demandam mão de obra mais qualificada.

Durante o painel “Mobilidade do Futuro: Os Planos da Indústria Chinesa no Brasil”, no Summit Valor Econômico Brazil-China 2026, executivos destacaram que os investimentos vão além das fábricas. “O centro de P&D na Bahia vai ter foco nas pesquisas de técnicas de fabricação e de motores. No Rio de Janeiro, vamos ter outro centro, estamos fazendo o plano de investimento, que chega a mais de R$ 800 milhões, que vai incluir tecnologias de automação veicular e centros de experiência”, afirmou David Zhou, diretor da BYD na América.

Carro Eletrico (4)
Chinesas já respondem por 16% dos carros de passeio novos vendidos no País - Foto: José Aldenir / O Correio de Hoje

A criação dessa estrutura tende a multiplicar empregos qualificados, mas depende de políticas públicas para se consolidar. Para Sidney Levy, presidente da Invest.Rio, a cooperação com a China tem papel central nesse processo. Ele citou como exemplo a instalação, pela BYD, de um campo de testes para veículos autônomos no Rio de Janeiro, com área de 200 mil metros quadrados e equipe especializada. “Fizemos no ano passado um planejamento estratégico e tinha duas áreas em que precisávamos melhorar. Uma é inteligência artificial e a outra, a ‘intimidade com a China’”, disse.

Na avaliação de gestores públicos, o papel do Estado vai além de incentivos fiscais. A secretária de Transporte do Rio de Janeiro, Priscila Sakalem, destacou que o edital para concessão de ônibus intermunicipais já prevê a exigência de veículos elétricos e híbridos, além da ampliação da infraestrutura de apoio. “O Rio de Janeiro criou (em 2023, na Via Dutra) o primeiro corredor sustentável para ônibus e caminhões híbridos e movidos a gás”, afirmou.

Os efeitos no emprego já começam a aparecer. A BYD anunciou a contratação de mais 3 mil trabalhadores na Bahia, elevando o total para 6,2 mil funcionários. A produção deve atender também mercados externos, com encomendas de 100 mil veículos para exportação à Argentina e ao México. Já a Great Wall Motors iniciou operações com mil empregados em Iracemápolis (SP) e projeta dobrar esse número conforme avançam os planos de exportação na América Latina.

Apesar da geração imediata de vagas, especialistas apontam que os impactos mais relevantes virão no médio prazo, à medida que os veículos eletrificados se difundirem. Estudo realizado por Universidade de São Paulo, Universidade Estadual de Campinas e pelo Conselho Internacional de Transporte Limpo indica que a eletrificação tende a elevar o número de empregos, a renda e a participação dos salários na renda total, devido ao maior nível de qualificação exigido.

Esse efeito pode ser ainda mais intenso caso o Brasil se consolide como plataforma exportadora de veículos elétricos e autopeças, embora os ganhos já apareçam mesmo sem essa condição.

Os dados de mercado mostram o avanço das montadoras chinesas nesse segmento. Em fevereiro, elas responderam por 16% dos carros de passeio novos vendidos no país, mas já concentram 69% do mercado de veículos eletrificados, segundo informações da Anfavea e da Fenabrave.

Para o gerente da ApexBrasil em Pequim, Victor Oliveira de Queiroz, a estratégia vai além da atração de capital financeiro. “Nosso foco, além de trazer o capital chinês para o Brasil, é a transferência de tecnologia”, afirmou.

O avanço da eletrificação está inserido em um contexto mais amplo de expansão da economia verde, fortemente apoiada pelo Estado chinês. Segundo dados do London Stock Exchange Group, a emissão de títulos verdes na China dobrou em 2025, na contramão de uma queda global de 32%.

De acordo com levantamento do Financial Times, o país movimentou US$ 70,3 bilhões em títulos verdes no período e responde por cerca de 17% das emissões globais, frente a 3% dos Estados Unidos. O embaixador Marcos Caramuru destacou que esse avanço está ligado a uma estratégia coordenada. “A China pede que as suas empresas, que operam em outros países ou no próprio país, ampliem investimentos na economia verde”, disse.

Apesar do crescimento, especialistas apontam que ainda há desafios regulatórios. “Isso ainda está em desenvolvimento e vai exigir, do ponto de vista da China, adaptações para que as suas instituições possam investir em equity em projetos”, afirmou Caramuru.

A tendência é que a expansão do financiamento sustentável alcance diferentes setores. “A injeção de capital pode favorecer toda a cadeia, não somente setores de novas energias, mas também setores com emissões fortes, como cimento, metalurgia e manufatura”, afirmou Li, da Universidade Fudan.