A construção civil do Rio Grande do Norte chega ao segundo semestre de 2026 diante de uma combinação de custos crescentes, juros elevados e redução das contratações. O setor encerrou junho com saldo negativo de 425 empregos formais, enquanto o Custo Unitário Básico (CUB) do padrão R8-N avançou para R$ 2.134,18 por metro quadrado, após a quinta alta consecutiva no ano.
O cenário foi analisado pelo presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Rio Grande do Norte (Sinduscon-RN), Sérgio Azevedo, nesta quinta-feira 30, em entrevista ao podcast Economia & Negócios, da TV Agora RN, apresentado pelo jornalista Elias Luz. Na avaliação do empresário, a construção funciona como um indicador antecedente da economia porque mobiliza indústria, comércio, serviços e arrecadação tributária.

“Quando a construção civil vai bem, o comércio vai bem, a indústria vai bem e você tem uma geração de empregos muito grande”, afirmou. Para Azevedo, a redução do ritmo das obras ultrapassa os canteiros e alcança fornecedores de materiais, empresas de alimentação, transportadoras, prestadores de serviços e fabricantes de equipamentos de proteção.
RN perde 425 empregos na construção
Os números mais recentes do Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) confirmam a perda de ritmo. A construção potiguar fechou 425 postos de trabalho em junho, depois de já ter registrado saldo negativo de 299 vagas em maio. Com os dois recuos, o saldo acumulado pelo setor caiu de 1.560 empregos até maio para 1.135 no primeiro semestre.
O resultado contrasta com o desempenho nacional. Em junho, a construção abriu 14.136 vagas no Brasil. O mercado de trabalho brasileiro criou, ao todo, 145.161 postos formais, enquanto o Rio Grande do Norte gerou somente 287. O Estado contabilizou 19.584 admissões e 19.297 desligamentos e teve o pior resultado mensal entre os nove Estados do Nordeste.
No acumulado de janeiro a junho, o RN abriu 716 vagas com carteira assinada, queda de 89,4% diante das 6.744 criadas no mesmo período de 2025. O estoque estadual chegou a 530.604 vínculos celetistas. Os dados foram divulgados pelo Ministério do Trabalho e Emprego e detalhados pelo Agora RN.
Azevedo disse que o resultado negativo da construção já era indicado pela redução das admissões nos meses anteriores. “Se você pegar os últimos seis ou oito meses, comparando com o ano passado, foram números muito menores de contratação por carteira assinada. Estava se avisando que era preciso fazer alguma coisa”, declarou.
CUB tem quinta alta e chega a R$ 2.134
O custo das obras também ganhou velocidade. O CUB do padrão residencial R8-N, calculado pelo Sinduscon-RN, subiu 1,35% em junho e alcançou R$ 2.134,18 por metro quadrado. Foi a quinta elevação mensal consecutiva de 2026, conforme levantamento divulgado pelo Sinduscon-RN.
O indicador representa uma estimativa parcial do custo de construção e considera materiais, mão de obra, equipamentos e despesas administrativas. Ele serve como referência para contratos e orçamentos, mas não inclui itens como terreno, projetos, fundações especiais, impostos, taxas e remuneração do incorporador.
A tendência também aparece no Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi). Segundo o IBGE, o custo nacional avançou 1,19% em junho, maior alta mensal desde agosto de 2022, exceto janeiro de 2026, quando houve impacto da reoneração da folha. O valor nacional passou de R$ 1.953,08 para R$ 1.976,37 por metro quadrado. Em 12 meses, a alta chegou a 7,26%. No Rio Grande do Norte, o custo calculado pelo Sinapi ficou em R$ 1.857,38 por metro quadrado. Os indicadores têm metodologias e finalidades diferentes e, portanto, não devem ser comparados como valores equivalentes.
Para Azevedo, parte do aumento decorre do diesel e do frete, já que a logística brasileira depende principalmente das rodovias. O encarecimento do petróleo também alcança produtos fabricados com derivados do insumo. O empresário ponderou, entretanto, que fornecedores podem recorrer ao ambiente externo para justificar reajustes sem relação direta com os próprios custos.
Escassez de trabalhadores eleva despesas
A mão de obra forma outra frente de pressão. Segundo o presidente do Sinduscon-RN, há dificuldade para contratar profissionais em quantidade suficiente, o que aumenta salários e despesas operacionais. A falta de trabalhadores qualificados ocorre mesmo com o fechamento recente de vagas, porque determinadas funções continuam com oferta reduzida.
O impacto não se restringe ao salário. Empresas precisam absorver reajustes de alimentação, transporte, limpeza, equipamentos e materiais. Obras contratadas com reajuste anual ficam mais expostas quando os preços sobem rapidamente, pois as despesas aumentam antes da atualização dos contratos.
A taxa de juros afeta o setor por dois caminhos. No mercado imobiliário, o crédito mais caro reduz a capacidade de financiamento das famílias e encarece o capital das incorporadoras. Na infraestrutura, aumenta o custo para aquisição de máquinas e equipamentos. “Quando você faz a conta, na grande maioria das vezes o investimento não se paga. Se não se paga, você não faz o investimento”, disse Azevedo.
Mercado imobiliário mantém resistência
Apesar da conjuntura, o mercado imobiliário residencial ainda apresenta maior capacidade de sustentação. Azevedo atribui esse comportamento ao déficit habitacional, às mudanças promovidas pelo Plano Diretor de Natal e ao programa Minha Casa, Minha Vida, sobretudo nas faixas de menor renda.
Segundo ele, a revisão das regras urbanísticas permitiu a retomada de projetos em bairros como Tirol e Petrópolis, onde mais de 80 empreendimentos teriam sido lançados desde 2023. A expansão, porém, tende a perder intensidade à medida que os projetos entram na fase final e novos lançamentos enfrentam crédito e custos menos favoráveis.
O dirigente também defendeu a continuidade do RN Mais Moradia. O programa concede crédito de até R$ 20 mil, associado ao ICMS, para reduzir o valor de entrada dos imóveis destinados a famílias de baixa renda. Segundo Azevedo, uma etapa inicial de mil unidades está próxima de ser concluída.
“O déficit habitacional era de 106 mil moradias em 2022 e caiu para 99 mil em 2024. É importante que políticas de incentivo à construção de habitações sejam mantidas”, afirmou. Os números foram apresentados pelo presidente do sindicato durante a entrevista.
Energia renovável reduz investimentos
Outra preocupação é a retração das obras ligadas à energia eólica e solar. Azevedo relacionou o movimento aos cortes de geração, conhecidos como curtailment, e à insuficiência da rede de transmissão para escoar a energia produzida no Estado.
O RN produz mais eletricidade do que consome e depende das linhas de transmissão para enviar o excedente a outras regiões. Quando o sistema não consegue absorver a produção, parques são obrigados a reduzir ou interromper a geração, com perda de receita e menor interesse em novos projetos.
Como a construção participa da implantação de parques, estradas, subestações e linhas, o adiamento dos projetos tem efeito direto sobre os empregos. Para o dirigente, o Estado deveria associar a oferta de energia à atração de atividades de consumo intensivo, como centros de dados, sistemas de armazenamento por baterias e projetos de hidrogênio verde.
Sindicato cobra regras mais previsíveis
O Sinduscon-RN prepara uma pauta para apresentar aos candidatos ao Governo do Estado. Entre os temas estão a manutenção do RN Mais Moradia, a revisão das normas ambientais, a redução do tempo de licenciamento e a definição de regras objetivas para novos investimentos.
Azevedo defendeu a proteção ambiental, mas criticou interpretações que, segundo ele, ampliam áreas de restrição sem critérios técnicos claros. Também cobrou regulamentação da consulta prevista na Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, destinada a povos indígenas e tribais, além de parâmetros estaduais para licenças por adesão e compromisso.
Para o presidente do Sinduscon-RN, o segundo semestre ainda deverá ter baixo nível de decisões capazes de alterar o quadro, em razão do calendário eleitoral e da demora para mudanças no crédito e na regulação. A expectativa do setor está concentrada na apresentação de propostas aos candidatos e na formação de uma agenda para 2027.
“Precisamos de prazo e previsibilidade”, resumiu. Sem redução dos custos financeiros, retomada dos projetos de energia e regras mais claras para investimentos, a construção potiguar corre o risco de chegar ao fim de 2026 com menos empregos, margens menores e capacidade limitada para iniciar novas obras.