A farmacêutica EMS iniciou nesta semana a comercialização do Ozivy, primeiro medicamento produzido no Brasil com semaglutida sintética aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o tratamento do diabetes tipo 2. O lançamento ocorre poucos meses após o vencimento da patente da substância no país, encerrada em março deste ano, abrindo espaço para que empresas nacionais passassem a desenvolver e fabricar versões próprias do princípio ativo.
A chegada do novo medicamento representa um marco para a indústria farmacêutica brasileira, que passa a disputar um mercado impulsionado pela crescente procura por tratamentos voltados ao controle glicêmico e à perda de peso. A semaglutida ganhou notoriedade nos últimos anos por integrar a fórmula de medicamentos como Ozempic e Wegovy, utilizados no tratamento do diabetes e da obesidade.

Segundo a EMS, o Ozivy começou a ser distribuído às farmácias de todo o país nesta segunda-feira. O medicamento será oferecido inicialmente por meio do programa Vida + Leve, criado pela fabricante para facilitar o acesso ao tratamento. Nesse formato, um kit com duas canetas multidose de 1 mg, suficiente para os três primeiros meses de uso, será comercializado por R$ 863,23, o equivalente a aproximadamente R$ 287 por mês.
Nas farmácias, os valores variam conforme a dosagem prescrita. As apresentações iniciais de 0,25 mg e 0,5 mg terão preço unitário de R$ 452 por mês, enquanto a versão de 1 mg custará R$ 497. A empresa informou ainda que, a partir de julho, disponibilizará uma embalagem com duas canetas voltadas à fase de manutenção do tratamento na dose de 1 mg.
Para atender à demanda esperada, a EMS colocou no mercado um lote inicial de 500 mil canetas. A projeção da companhia é alcançar uma capacidade anual de produção de 40 milhões de unidades, resultado de investimentos superiores a R$ 1,2 bilhão em infraestrutura, tecnologia e ampliação da capacidade industrial.
A semaglutida integra a classe dos medicamentos conhecidos como agonistas do receptor GLP-1. Essas substâncias atuam reproduzindo os efeitos do hormônio GLP-1, produzido naturalmente pelo organismo após as refeições. O mecanismo de ação contribui para aumentar a liberação de insulina pelo pâncreas, retardar o esvaziamento gástrico e promover sensação prolongada de saciedade.
Na prática, a ação simultânea nesses três sistemas auxilia tanto no controle da glicemia quanto na redução do apetite e da ingestão alimentar. Por essa razão, os medicamentos à base de semaglutida passaram a ser amplamente utilizados também em estratégias de tratamento da obesidade.
Estudos clínicos apontam resultados expressivos na redução de peso corporal. No estudo STEP-4, por exemplo, pacientes que utilizaram semaglutida na dose de 2,4 mg registraram perda média de aproximadamente 17,4% do peso corporal após 68 semanas de tratamento, período equivalente a cerca de um ano e quatro meses.
O Ozivy deve ser administrado por meio de aplicação subcutânea uma vez por semana, preferencialmente sempre no mesmo dia. As regiões indicadas para aplicação incluem abdômen, coxa ou braço, sem restrições específicas de horário.
Uma das diferenças em relação ao Ozempic está nas condições de armazenamento. De acordo com a fabricante, o Ozivy precisa permanecer refrigerado entre 2°C e 8°C antes e após o início da utilização. Já o medicamento de referência pode permanecer fora da geladeira por até seis semanas, desde que mantido em temperatura inferior a 30°C após o primeiro uso.
Entre os efeitos adversos mais frequentemente observados estão náusea, diarreia, vômitos, dores abdominais, azia, refluxo, prisão de ventre, gases, perda de apetite, tontura, fadiga, dor de cabeça e redução de peso. Também podem ocorrer reações no local da aplicação, alteração do paladar e episódios de hipoglicemia, especialmente quando utilizado em conjunto com insulina ou medicamentos da classe das sulfonilureias.
A entrada do Ozivy no mercado brasileiro tornou-se possível após o encerramento da proteção patentária da semaglutida. As patentes garantem exclusividade temporária para exploração comercial de uma invenção e, quando expiram, permitem que outras empresas desenvolvam produtos com o mesmo princípio ativo.
Foi justamente o que ocorreu em março deste ano, quando terminou a exclusividade relacionada à molécula que tornou o Ozempic um dos medicamentos mais procurados do país. Com isso, laboratórios nacionais passaram a investir em versões produzidas a partir de síntese química, utilizando matéria-prima sintética para reproduzir a molécula original.
A autorização da Anvisa para comercialização do Ozivy foi concedida em maio. A fabricação ocorre na unidade da EMS em Hortolândia, no interior de São Paulo, onde a empresa implantou uma plataforma dedicada à produção de peptídeos sintéticos.
Segundo a farmacêutica, a mesma estrutura também é utilizada para a fabricação das canetas Olire e Lirux, medicamentos à base de liraglutida, outro princípio ativo pertencente à classe dos agonistas do GLP-1 e que antecedeu a popularização da semaglutida.
Atualmente, o Ozivy é a primeira caneta de semaglutida sintética autorizada para venda no mercado brasileiro. Já os medicamentos Ozempic e Wegovy utilizam semaglutida de origem biológica. O mesmo ocorre com os produtos Extensior e Poviztra, fabricados pela Eurofarma por meio de acordo com o laboratório dinamarquês responsável pelo desenvolvimento original da molécula.
A expectativa do setor é que o aumento da concorrência contribua para ampliar a oferta e facilitar o acesso aos tratamentos à base de semaglutida nos próximos anos.