Milhares de meninas e mulheres brasileiras convivem com dores menstruais e pélvicas intensas, muitas vezes incapacitantes, desde os primeiros ciclos menstruais. Apesar disso, apenas uma parcela mínima desses casos aparece nas estatísticas oficiais do Sistema Único de Saúde (SUS), o que contribui para manter o problema fora do radar das políticas públicas.
A constatação é de um estudo realizado pela Vital Strategies Brasil em parceria com a Universidade Federal de Juiz de Fora. Com apoio de ferramentas de inteligência artificial, os pesquisadores identificaram um volume de relatos de dor menstrual e pélvica 21 vezes superior ao registrado pelos códigos oficiais de doenças.

Financiada pelo Instituto Alana, a pesquisa analisou informações de 469 mil meninas e mulheres de 10 a 49 anos atendidas na rede municipal de saúde do Recife entre 2016 e 2025.
O levantamento cruzou dados da atenção primária, internações hospitalares e notificações de violência, com o objetivo de entender como as queixas relacionadas à dor menstrual e pélvica são registradas — ou deixadas de lado — nos prontuários clínicos.
Quando os pesquisadores consideraram apenas os códigos da CID-10 (Classificação Internacional de Doenças), encontraram registros de dor em apenas 0,5% das pacientes, o equivalente a 1.906 mulheres.
No entanto, ao aplicar uma metodologia de análise semântica com inteligência artificial, capaz de interpretar os textos livres escritos pelos profissionais de saúde, o total de casos identificados ultrapassou 41 mil, o que representa cerca de 9% da amostra.
Além da subnotificação, o estudo apontou deficiências na qualidade dos registros. Em menos de 5% dos prontuários havia informações sobre intensidade, frequência ou duração da dor, elementos considerados essenciais para orientar o diagnóstico e o tratamento.
Os dados mostram ainda que essas pacientes recorrem com frequência aos serviços de saúde. Mulheres com registros de dor pélvica tiveram, em média, 24 atendimentos no período analisado — quase cinco vezes mais do que aquelas sem histórico de dor.
“Elas estão indo aos serviços repetidamente, mas suas queixas não estão sendo adequadamente registradas nem acompanhadas”, afirma Sofia Reinach, gerente de Saúde e líder da iniciativa de endometriose, dor pélvica e saúde menstrual do Instituto Alana.
A pesquisa também revelou um descompasso entre o que as pacientes relatam e o que efetivamente orienta a conduta clínica. Termos como endometriose e adenomiose aparecem com frequência nos campos subjetivos dos prontuários, destinados às queixas das pacientes.
Essas menções, contudo, tornam-se muito menos frequentes nos campos “objetivo” e “plano”, que reúnem a avaliação médica e as decisões terapêuticas. Na prática, isso sugere que o problema é reconhecido durante a consulta, mas nem sempre resulta em tratamento adequado já na atenção básica.
“Existem recomendações para manejo da dor na atenção primária, incluindo uso de contraceptivos hormonais e outras estratégias. Mas os prontuários mostram muito mais menções a medicamentos para gases e constipação intestinal do que a tratamentos específicos para dor pélvica”, diz Reinach.
Para a secretária municipal de Saúde do Recife, Luciana Albuquerque, o estudo ajuda a evidenciar um problema historicamente minimizado no sistema de saúde. “O que a gente precisa agora é fazer a ligação dos pontos da rede para conseguir virar esse jogo, mudar a cultura da banalização da dor”, afirma.
Segundo ela, os resultados servirão de base para capacitar mais de 3 mil profissionais da atenção básica do município. O treinamento será integrado a um novo protocolo municipal de planejamento sexual e reprodutivo.
Luciana Albuquerque ressalta que a rede municipal já dispõe de instrumentos que podem ampliar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento, como a oferta do implante contraceptivo Implanon nas unidades básicas, o serviço de ultrassom itinerante e ambulatórios especializados no Hospital da Mulher e em policlínicas.
A estudante Cecília Vieira, de 22 anos, é um exemplo dos impactos dessas medidas. Usuária de plano de saúde, ela conseguiu colocar o implante contraceptivo pelo SUS do Recife em fevereiro e relata que deixou de sentir as dores incapacitantes que a acompanhavam desde os 14 anos, três anos após a primeira menstruação “Chegava a desmaiar de dor, ficava muito fraca, faltava às aulas”, conta.
Ela afirma que tentou utilizar anticoncepcionais prescritos pela ginecologista do plano de saúde, mas não se adaptou. “Além das dores, ficava enjoada com a pílula e vomitava muito.”
A médica sugeriu o implante contraceptivo, mas o plano não cobria o procedimento. O custo aproximado era de R$ 2 mil. “Era muito caro para mim. Foi quando soube que já era oferecido no SUS e fui atrás”, relata.
Para Pedro de Paula, diretor-executivo da Vital Strategies Brasil, a pesquisa mostra o potencial do grande volume de dados já existente no SUS.
Segundo ele, o cruzamento de bases de dados com técnicas de linguística computacional e inteligência artificial já despertou o interesse do Ministério da Saúde e pode ser replicado em outras regiões do país.
O estudo também identificou relação entre dor pélvica e violência. Meninas e mulheres com registros simultâneos de dor e histórico de violência apresentaram prontuários ainda mais incompletos, apesar da maior complexidade clínica.
Nesse grupo, as pacientes realizaram, em média, 35 consultas na atenção primária — cerca de 50% a mais do que aquelas com dor, mas sem registros de violência. Adolescentes de 10 a 14 anos figuram entre os grupos mais vulneráveis.
Para Pedro de Paula, a combinação entre sofrimento físico, violência e transtornos mentais ajuda a dimensionar a gravidade do problema.
De acordo com Sofia Reinach, estimativas indicam que entre 35% e 45% das meninas convivem com dores menstruais incapacitantes.
Atualmente, o tempo médio para o diagnóstico de endometriose varia de sete a dez anos, tanto no Brasil quanto em outros países.
Para enfrentar esse cenário, o Instituto Alana prepara um programa voltado à saúde menstrual, à dor pélvica e à endometriose, com três eixos de atuação: financiamento de pesquisas, fortalecimento de políticas públicas e campanhas de conscientização.