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Eleições 2026

PF recolheu R$ 30 milhões em apurações eleitorais neste ano, e o RN responde por 46 inquéritos

Metade dos procedimentos abertos no estado investiga indícios de caixa dois, e um deles alcançou o deputado Luiz Eduardo, candidato à reeleição
Agora RN
30/09/2026 | 17:51

Somadas as cédulas e os bens, o que a Polícia Federal retirou de circulação em apurações sobre crimes eleitorais desde janeiro de 2026 chega a R$ 30 milhões. É o triplo dos R$ 10 milhões contabilizados ao longo de todo o calendário eleitoral de 2022, quando também estiveram em jogo a Presidência, os governos estaduais e as duas Casas do Congresso. Do montante deste ano, R$ 19 milhões eram papel-moeda encontrado com candidatos ou com quem fazia a ponte entre eles e o dinheiro. O restante, R$ 11 milhões, corresponde à avaliação de carros, imóveis e aparelhos celulares levados nas buscas. Mesmo assim, o resultado ainda fica distante dos R$ 63 milhões alcançados nas eleições municipais de 2024.

No Rio Grande do Norte, a corporação abriu 46 inquéritos até agora. Metade deles, 23, trata especificamente de indícios de caixa dois.

Maços de notas de R$ 100 e R$ 50, alguns lacrados com etiqueta de banco, empilhados sobre uma mesa ao lado de uma bolsa escura e de um envelope de evidência
Maços de cédulas recolhidos pela Polícia Federal em uma das buscas relacionadas a suspeitas de crime eleitoral — Polícia Federal/Reprodução

Dinheiro apreendido, por si só, não prova crime eleitoral. O que os investigadores tentam montar é o caminho percorrido por cada quantia: de onde ela saiu, para onde iria e se há alguma ligação com compra de votos ou com movimentação de campanha que tenha ficado de fora da prestação de contas entregue à Justiça Eleitoral.

O episódio local de maior repercussão é a Operação Sem Lastro, que chegou ao deputado estadual Luiz Eduardo (PL), candidato à reeleição. Ela veio a público em 14 de setembro, quando agentes cumpriram dois mandados de busca em Natal, autorizados pela Justiça Eleitoral. Saíram de lá com mais de R$ 1,5 milhão em espécie, além de telefones, papéis e equipamentos eletrônicos. As suspeitas são de falsidade ideológica eleitoral e de emprego de recursos não declarados na campanha.

De início, a PF preferiu não dizer de quem se tratava. Limitou-se a informar que havia localizado saques feitos por um agente político em circunstâncias que apontariam descompasso entre os valores movimentados e o patrimônio declarado. Reportagem de O Correio de Hoje apurou que o parlamentar visado era Luiz Eduardo.

Ele cumpre o primeiro mandato na Assembleia Legislativa e tenta permanecer na Casa. Antes disso, comandou a Prefeitura de Maxaranguape de 2017 até dezembro de 2021, quando deixou o cargo para concorrer no pleito estadual do ano seguinte.

Defesa fala em dinheiro parado em casa

Assim que a operação terminou, os advogados do deputado saíram a público. Disseram que o ponto de partida da apuração foram retiradas das contas bancárias do próprio cliente. Sustentaram que a movimentação é lícita, foi declarada e pode ser comprovada por documentos, que se comprometeram a levar às autoridades. Acrescentaram que a quantia continuava guardada na casa do parlamentar, sem ter sido tocada, e que a falta de despesa afastaria qualquer finalidade eleitoral.

“Não há caixa dois sem recurso arrecadado à margem da prestação de contas ou aplicação de despesas de campanha”, disseram os advogados em nota. Do outro lado, a PF respondeu que vai aprofundar o exame da procedência, do destino e de eventual vínculo daquele dinheiro com a campanha, sem afirmar que já tenha comprovado uso eleitoral.

O recorde nacional está em Roraima. Em 4 de setembro, policiais que abordaram um empresário e um policial militar acharam R$ 4 milhões em notas. A apuração quer saber se aquele dinheiro tinha alguma relação com a campanha ao Senado da deputada federal Helena da Asatur (PSD-RR). No mesmo estado, o candidato a deputado federal Daniel Trindade (PL) acabou preso na sexta-feira 25, durante uma busca por suspeita de crime eleitoral. A diligência fazia parte da Operação Cunhambebe, voltada a cursos clandestinos de segurança privada e à possível formação de um grupo organizado para atrapalhar o trabalho de órgãos públicos dentro da Terra Indígena Raposa Serra do Sol.

Logo atrás vêm Tocantins, com R$ 4,4 milhões acumulados, e o Pará, com R$ 3,29 milhões. No caso paraense, boa parte do valor saiu de uma apuração sobre dinheiro que teria ido parar na campanha de Adriano Coelho (MDB) a deputado federal. A quantia fora sacada de contas de uma empresa que mantém contratos com o governo estadual. Um documento da corporação registra R$ 2,5 milhões em espécie, espalhados entre uma mochila e uma caixa de papelão. Ao lado das notas havia comprovantes bancários e autorizações de transferência eletrônica ligadas à campanha de Marco Adriano Albuquerque Coelho.

No país inteiro, já são 1.217 inquéritos abertos sobre esse tipo de crime. O Rio de Janeiro reúne 137 deles. Depois aparecem o Maranhão, com 121; o Ceará, com 115; São Paulo, com 91; e o Paraná, com 73.

Quem acompanha essas investigações diz que o papel-moeda segue sendo a ferramenta preferida de quem compra voto, enquanto Pix e transferências bancárias aparecem com bem menos frequência. Daí a fiscalização mirar movimentações fora do padrão, como saques fatiados em várias retiradas e valores acima de R$ 50 mil. Estes últimos precisam ser pedidos ao banco com antecedência e podem acabar comunicados ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), pelas regras de prevenção à lavagem de dinheiro.

Para amarrar um saque ao pleito, a PF costuma observar quanto tempo separa a retirada do dia da votação, se apareceram listas de eleitores ou endereços de distribuição e qual o perfil de quem transportava a quantia. Também confere o que liga os envolvidos a alguma candidatura, do parentesco ao trabalho como assessor ou intermediário.