Fátima repudia decisão que reintegra PM condenado por feminicídio e manda PGE recorrer
Governadora afirma que "não há espaço para tolerância com a violência contra a mulher"; liminar do TJRN determinou retorno de Pedro Inácio aos quadros da Polícia Militar até julgamento definitivo
Agora RN
20/08/2026 | 09:46
A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), afirmou nesta quarta-feira 19 que determinou à Procuradoria-Geral do Estado (PGE) a adoção de medidas para tentar reverter a decisão judicial que determinou a reintegração do policial militar Pedro Inácio Araújo de Maria aos quadros da Polícia Militar. O PM foi condenado pelo Tribunal do Júri a 20 anos de prisão pelos crimes de estupro e homicídio da estudante Zaira Dantas Silveira Cruz, morta durante o Carnaval de Caicó, em 2019.
Em publicação nas redes sociais, a governadora classificou a decisão como motivo de indignação e informou que o Estado recorrerá imediatamente.
Governadora Fátima Bezerra afirmou que determinou à PGE recurso contra a reintegração do policial militar. - Foto: José Aldenir / Agora RN
“Recebo com indignação a decisão que determinou a reintegração à Polícia Militar de um policial condenado por estupro e homicídio a uma mulher. Já determinei à PGE que recorra imediatamente para tentar reverter essa decisão.”
Na mesma manifestação, Fátima afirmou que o governo mantém posição de enfrentamento à violência contra a mulher. “O nosso governo é claro: não há espaço para tolerância com a violência contra a mulher.”
Ela também citou ações adotadas pela administração estadual na área de proteção às mulheres. “O RN tem reforçado a rede de proteção, ampliado a Patrulha Maria da Penha e as DEAMs, e assumiu esse compromisso no Pacto Brasil contra o Feminicídio.”
Ao concluir a nota, a governadora afirmou que o Estado respeita as decisões judiciais, mas recorrerá da liminar. “Também temos o dever de proteger a nossa gloriosa Polícia Militar, sua história, sua credibilidade e os milhares de homens e mulheres que honram diariamente a farda e a missão de proteger vidas.”
“Respeitamos o Judiciário, mas vamos recorrer sempre que uma decisão ameaçar o interesse público, a proteção à vida das mulheres e a própria confiança da sociedade na Polícia Militar.”
Liminar determinou retorno do policial
A decisão que motivou a manifestação foi proferida pelo desembargador Cláudio Santos, do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte (TJRN). Em caráter liminar, o magistrado suspendeu a exclusão de Pedro Inácio Araújo de Maria da Polícia Militar, determinando seu retorno à corporação na mesma graduação de 2º sargento, matrícula e situação funcional anteriores, até o julgamento definitivo do processo administrativo pelo Pleno do TJRN.
A informação foi divulgada na terça-feira 18 pelo advogado Adriano Maldini, que representa o policial.
Segundo a defesa, Pedro Inácio já havia sido submetido a processo disciplinar pelos mesmos fatos e recebeu, em 2024, punição administrativa de 30 dias de prisão disciplinar. Os advogados sustentam que a exclusão da corporação representaria dupla punição.
Na decisão, o desembargador escreveu:
“Com efeito, a superveniência do veredito do Tribunal do Júri não ostenta a natureza de ‘fato disciplinar novo’, mas constitui mero desdobramento judicial dos mesmíssimos acontecimentos que já haviam sido integralmente submetidos ao crivo administrativo e apenados pela corporação em 2024. A conduta do sargento permaneceu rigorosamente a mesma.”
Pedro Inácio foi considerado culpado pela morte da estudante em 2019 – Foto: Reprodução
Exclusão ocorreu após condenação
Pedro Inácio foi excluído da Polícia Militar em julho deste ano, após ato publicado no Boletim Geral da corporação apontar incompatibilidade para sua permanência na ativa.
A medida ocorreu depois da condenação pelo Tribunal do Júri, em dezembro de 2025, quando recebeu pena de 20 anos de prisão pelos crimes de estupro e homicídio. A defesa recorre da sentença e mantém a tese de inocência. O processo criminal tramita sob segredo de Justiça.
Antes da exclusão, o Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) também havia recomendado a anulação de duas promoções concedidas ao policial durante o período em que ele permaneceu preso preventivamente. O órgão apontou possíveis irregularidades administrativas e defendeu que o militar deveria permanecer agregado e fora do quadro de acesso às promoções enquanto estivesse preso cautelarmente.
Caso Zaira Cruz
Zaira Dantas Silveira Cruz era estudante de Engenharia Química e foi encontrada morta dentro do carro de Pedro Inácio durante o Carnaval de Caicó, em 2019. A investigação apontou que a jovem foi vítima de violência sexual e homicídio.
O processo foi transferido de Caicó para Natal, onde ocorreu o julgamento pelo Tribunal do Júri. Em dezembro de 2025, Pedro Inácio foi condenado a 20 anos de prisão. A defesa apresentou recurso, enquanto a discussão sobre sua permanência nos quadros da Polícia Militar seguirá sendo analisada pelo Pleno do TJRN.
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