O Brasil e o Rio Grande do Norte saíram das urnas com seus legislativos definidos, mas com as principais disputas pelo Executivo ainda abertas. A eleição de domingo 4 estabeleceu quem ocupará as cadeiras do Congresso e da Assembleia Legislativa a partir de 2027, enquanto a Presidência da República e o Governo do RN dependerão de uma nova votação, em 25 de outubro. O primeiro turno delimitou as forças de cada candidatura, revelou diferenças regionais e deixou uma tarefa comum aos finalistas: conquistar eleitores que fizeram outras escolhas.
Na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro (PL) terminou com 47,03% dos votos válidos, seguido por Lula (PT), com 45,16%. A distância de 1,87 ponto percentual corresponde a 2,2 milhões de votos. Nenhum deles alcançou a maioria absoluta necessária para encerrar a eleição. Os dois concentraram 92,19% dos votos válidos, mas os demais concorrentes reuniram uma parcela suficiente para influenciar o desfecho. O segundo turno exigirá ampliar essas bases, preservar os votos já conquistados e mobilizar quem não compareceu às urnas.

Agora, a disputa passa especialmente pelos eleitores de Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo). Cury recebeu 2,89%; Renan, 2,24%; Caiado, 2,18%; e Zema, 0,27%. Juntos, somaram aproximadamente 9,05 milhões de votos. Para quem irão? As manifestações dos candidatos oferecem indicações, mas não resolvem a pergunta. Cury anunciou neutralidade, e Renan disse que não fará campanha para nenhum finalista. Zema reafirmou oposição ao PT. Caiado deverá anunciar apoio a Flávio em ato nesta terça-feira 6, em Goiânia, embora o PSD tenha liberado seus filiados. Apoios políticos podem ajudar, mas não representam transferência automática de votos.
No RN, a diferença foi ainda menor. Allyson Bezerra (União) recebeu 733.809 votos, ou 36,94%, e Cadu de Lula (PT), 718.300, equivalentes a 36,16%. Foram apenas 15.509 votos de distância, ou 0,78 ponto percentual. Álvaro Dias (PL) terminou com 530.580 votos e 26,71%. Allyson e Álvaro, adversários da gestão estadual, reuniram 63,65% dos votos válidos. Esse total sustenta o discurso oposicionista sobre desejo de mudança, mas não permite concluir que todos esses eleitores escolherão o mesmo candidato na segunda etapa. Eleitores de Álvaro cobram que Allyson se posicione em prol de Flávio na disputa presidencial, mas o ex-prefeito de Mossoró resiste a entrar na polarização.
Allyson conseguirá atrair todos os votos de Álvaro para derrotar Cadu? Não precisa conquistar a totalidade, mas depende de uma adesão significativa. Mantida a base de votos válidos do primeiro turno e preservada sua votação, teria de acrescentar pouco mais de 259 mil votos para superar a metade, aproximadamente 49% do eleitorado de Álvaro. É uma simulação aritmética, não uma previsão. Abstenções, votos brancos e nulos e mudanças de preferência podem alterar o cálculo. Para Cadu, a tarefa envolve conquistar parte desses mesmos eleitores e ampliar a votação governista.
Análise do professor Anderson Santos, do Departamento de Políticas Públicas da UFRN, publicada pela Coluna Blog do Agora na edição de hoje, ajuda a compreender essa configuração. Ele identifica na distribuição mais homogênea dos votos o principal trunfo de Cadu, enquanto Allyson mostrou força no interior e Álvaro concentrou competitividade na região metropolitana. O segundo turno colocará essas bases diante de uma escolha diferente. O eleitor que rejeitou o governo estadual pode também ter restrições a Allyson; quem votou em Álvaro não necessariamente seguirá uma orientação partidária. A campanha terá de transformar aproximações políticas em convencimento individual.
Enquanto os governos permanecem em disputa, a direita ampliou sua presença no Congresso. O PL elegeu 121 deputados federais, correspondentes a 23,6% das 513 cadeiras, e formará a maior bancada da Câmara. No Senado, conquistou 19 das 54 vagas disputadas e chegará a 28 dos 81 assentos. O PT terá nove senadores. Esses números aumentam a capacidade de influência do bolsonarismo sobre a agenda legislativa e a escolha dos comandos das Casas. Ainda assim, o PL dependerá de alianças para formar maiorias, qualquer que seja o vencedor da eleição presidencial.
No RN, os resultados legislativos apresentam maior equilíbrio entre os polos nacionais: PL e Federação Brasil da Esperança elegeram três deputados federais cada, enquanto União e PP ficaram com uma cadeira cada. Na Assembleia, PL e federação conquistaram sete vagas cada. Para o Senado, Styvenson Valentim foi reeleito com 1.055.000 votos, e Samanda de Lula venceu com 635.924, apenas 5.765 acima de Zenaide Maia. O saldo combina avanço conservador nacional, forças divididas no estado e duas decisões ainda pendentes: quem governará o Brasil e quem comandará o RN.