Nesta semana, os jornais O Correio de Hoje e Agora RN publicaram reportagens que levantam suspeitas sobre uma agenda de Cadu de Lula na Europa, em setembro de 2023, quando ele era secretário da Fazenda do Rio Grande do Norte. O hoje candidato ao Governo recebeu R$ 12.148,50 em diárias estaduais para participar de um seminário em Viena, na Áustria. Registros publicados pela namorada, Mariana Fernandes, mostram que o casal também esteve em Roma, na Itália. A combinação desses elementos levou a questionamentos sobre o período autorizado e o roteiro realizado.
O afastamento, autorizado pela governadora Fátima Bezerra, abrangia os dias 21 a 28 de setembro. O seminário sobre administração tributária digital ocorreu de 25 a 28, começando quatro dias depois do início da viagem oficial. No Portal da Transparência, o destino registrado é Viena, com pagamento de sete diárias e meia, de R$ 1.619,80 cada. A finalidade informada corresponde ao evento mencionado no Diário Oficial. Roma não aparece no trecho da autorização examinado pela reportagem.

Cadu apresentou uma explicação após a publicação. Disse que participou do encontro como presidente do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda e que a passagem pela capital italiana ocorreu depois do seminário, durante o retorno ao Brasil. “Após o evento, no trânsito de volta ao Brasil, passamos o dia em Roma, onde aguardamos o voo de retorno”, afirmou. Também declarou que todas as despesas da companheira foram pagas com recursos próprios.
Essa manifestação precisa ser considerada na avaliação do caso. As fotografias foram publicadas em 29 de setembro, um dia depois do encerramento do afastamento autorizado, mas a postagem não informa quando foram tiradas. A presença do casal em atrações turísticas, por si só, não comprova uso indevido das diárias. Uma conexão internacional pode permitir uma visita à cidade durante a espera pelo embarque. A verificação depende das datas, dos bilhetes e das condições efetivas do deslocamento.
A nota, contudo, deixou questões relevantes sem resposta. A principal delas diz respeito aos quatro dias anteriores ao início do seminário. A autorização começou em 21 de setembro, enquanto a programação teve início no dia 25. Viagens internacionais exigem tempo de deslocamento e podem envolver conexões e ajustes de horário. Cabe ao então secretário apresentar o itinerário e esclarecer quanto desse intervalo foi necessário para chegar a Viena e se houve outras atividades oficiais.
Também falta a data da passagem por Roma. Cadu situou o passeio depois do encontro, mas não informou quando deixou a Áustria, chegou à Itália ou embarcou para o Brasil. Esses dados permitem verificar se a visita coincidiu com algum período coberto pelas diárias e se o roteiro incluiu despesas adicionais para o Estado. A reportagem identificou uma lacuna documental que pode ser esclarecida com comprovantes de viagem.
Quanto à presença de Mariana, o candidato afirmou ter custeado a viagem dela com recursos particulares. Acompanhantes podem viajar às próprias expensas, preservada a separação entre despesas pessoais e gastos oficiais. O esclarecimento deve indicar como foram pagos os deslocamentos e se a companhia interferiu no roteiro custeado pelo governo. Bilhetes, cartões de embarque e comprovantes pertinentes podem sustentar a versão apresentada, resguardados os dados pessoais sem relação com a apuração.
A relação do conteúdo do seminário com as funções do secretário está demonstrada; as dúvidas recaem sobre as circunstâncias da viagem.
Ao responder, Cadu também afirmou que nada em sua vida pessoal o desabonaria e atacou outro candidato. Esse posicionamento não esclarece as datas nem documenta os gastos. O assunto envolve uma agenda autorizada pelo governo e financiada com recursos estaduais, sujeita à fiscalização independentemente da eleição. A divulgação do roteiro, do relatório de atividades e dos comprovantes permitiria avaliar a viagem com precisão, inclusive para afastar suspeitas.
Um candidato ao Governo não pode se furtar de explicar e prestar contas do que fez durante uma missão oficial custeada pela população.