No dia 1º de novembro, o Aeroclube de Natal voltará a pulsar em ritmo de afeto com a 9ª edição do Burburinho Festival de Artes. O evento gratuito, que acontece das 15h às 23h, consolidou-se como uma das experiências culturais mais queridas da cidade, propondo ao público uma imersão sensorial que une música, teatro, dança, literatura e práticas de bem-estar em um só espaço. Criado pela Pinote Produções, o Burburinho tornou-se, ao longo de quase uma década, uma celebração do simples – deitar na grama, reencontrar amigos, assistir a um espetáculo e sentir o tempo passar com calma.
“O festival propõe ao público um momento de convivência em comunidade, ocupando e ressignificando espaços importantes da cidade”, explica Nathalia Santana, idealizadora e diretora do projeto. Desde 2017, quando surgiu no Bosque das Mangueiras, o Burburinho passou pela Arena das Dunas e encontrou no Aeroclube um novo território afetivo.

“Esse tom lúdico e essa narrativa que a gente vem construindo ao longo de nove anos têm muito a ver com isso: o Burburinho ser, acima de tudo, uma plataforma de encontro, de troca e de convivência urbana, num ambiente de bem-estar, lazer e apreciação artística”, define.
Nesta edição, o festival se reveste de significados simbólicos. O número nove, que marca o encerramento de um ciclo e o prenúncio de um novo renascimento, guiou a curadoria deste ano. O evento trará de volta artistas que participaram da primeira edição, como Khrystal, Rosa de Pedra e o espetáculo “Flúvio e o Mar”, do Coletivo Artístico Atores à Deriva. “Queríamos fechar esse ciclo homenageando quem esteve com a gente desde o início, reafirmando o sentido de comunidade que sempre guiou o festival”, destaca Nathalia.
Mesmo concentrado em um único dia, o Burburinho mantém a essência de reunir linguagens e públicos diversos. A programação inclui DJ set com Carlota, oficinas de arte e poesia, sessão de yoga, feirinha criativa, praça de alimentação com opções veganas e vegetarianas, e recreação analógica com brincadeiras clássicas.
A ideia, segundo Nathalia, é manter a coerência entre propósito e prática: “Fazer um evento gratuito e de qualidade envolve muitos custos, mas nós não trabalhamos com a lógica de escolher uma única prioridade. Tudo é prioridade: estrutura, segurança, cachês dignos e conforto para o público.”
A diretora também ressalta o compromisso do festival com a cena local. Cerca de 80% da programação é composta por artistas potiguares, com ênfase em repertórios autorais. “Nosso objetivo é fazer o recurso cultural girar dentro do ecossistema criativo local, fomentando trabalho, renda e visibilidade. O festival não acontece em Natal, ele acontece com Natal”, pontua.
Mais do que um evento cultural, o Burburinho é, nas palavras de Nathalia, “um território de cuidado”. Ela define o projeto como uma missão espiritual: “Fazer produção cultural é um trabalho exaustivo e desafiador, mas também profundamente transformador. Cada vez que vivencio o festival acontecendo, sinto que recarrego todas as energias. Essa alegria, essa entrega, essa sensação de que o nosso trabalho toca pessoas – é isso que me faz continuar acreditando, produzindo e sonhando.”
Confira a entrevista com Nathalia Santana:

Revista Cultue – O Burburinho chega à 9ª edição consolidado como um dos festivais mais queridos de Natal. O que você acha que faz dele um evento tão afetivo e simbólico para a cidade?
Nathalia Santana – O Burburinho nasceu, desde a primeira edição, com o desejo de ser um festival de artes integradas que fosse muito mais do que a soma da sua programação de palco. Desde o início, a ideia era que o próprio espaço, o ambiente do evento em si, já fosse a nossa principal entrega. O festival propõe ao público um momento de convivência em comunidade, ocupando e ressignificando espaços importantes da cidade. Começamos no Bosque das Mangueiras, passamos pela Arena das Dunas e hoje estamos no Aeroclube. E tudo indica que, no próximo ano, teremos um novo endereço, o que faz parte do próprio movimento do festival, de estar sempre em transformação. Acho que esse tom afetuoso, lúdico e essa narrativa que a gente vem construindo ao longo de nove anos têm muito a ver com isso: com o Burburinho ser, acima de tudo, uma plataforma de encontro, de troca e de convivência urbana, num ambiente de bem-estar, lazer e apreciação artística.
Cultue – Quando você olha para essa trajetória iniciada em 2017, quais momentos ou conquistas mais te emocionam?
Nathalia – Tudo no Burburinho me emociona. Ele é o meu primeiro projeto próprio, autoral, como proponente e diretora. Antes dele, eu já havia realizado outros trabalhos, mas em formatos menores, de forma mais independente, sem ainda acessar os mecanismos de incentivo à cultura. O Burburinho representa, para mim, um momento de maturidade e coragem, o ponto em que decidi buscar parcerias, dialogar com empresas e, de fato, dar um passo profissional mais estruturado. A Pinote já existia desde 2013, mas até então prestava serviços para outros projetos. O Burburinho foi o divisor de águas, o momento em que eu decidi que a Pinote também seria um núcleo criativo que propõe e realiza suas próprias iniciativas. E isso mudou tudo. O festival se tornou um reflexo do que eu acredito enquanto produtora cultural e enquanto cidadã, uma proposta artística comprometida com o coletivo, com o cuidado e com a responsabilidade em cada detalhe. Ao longo dos anos, cada mudança de espaço também trouxe novas aprendizagens e transformações. Mudar de lugar do evento sempre significou repensar o formato, o layout, a programação, mantendo a essência de ser um festival de artes integradas. Um marco bonito foi, no ano passado, quando trouxemos a banda Eddie, de Pernambuco, para o palco do festival. Eu sou recifense e moro em Natal desde os 15 anos, então foi simbólico ver esse diálogo entre as duas cidades que me formaram. Também me emocionam as parcerias que foram chegando com o tempo. Tivemos a Unimed por muitos anos, e mais recentemente a UNP, que abraçou o projeto e compreendeu nossa forma de trabalhar. Cada parceiro novo, cada edição, cada reencontro com o público é um marco.
Cultue – O festival nasceu com a ideia de unir arte, convivência e acesso gratuito. Como é manter essa coerência entre propósito e prática ao longo dos anos?
Nathalia – Manter a coerência entre propósito e prática nunca foi algo difícil, porque isso pauta o meu trabalho de forma muito natural, tanto no Burburinho quanto em todos os projetos da Pinote Produções. Enquanto produtora cultural que acessa os mecanismos públicos de incentivo, acredito que temos compromissos básicos: fortalecer a democratização do acesso aos bens culturais e valorizar a cena artística do território onde estamos inseridos. São princípios que, para mim, não são apenas coerentes, mas essenciais. Cada projeto da Pinote tem sua personalidade, seu formato e um público específico, mas todos partem do mesmo ponto, criar ambientes de convivência estimulados pelas linguagens artísticas. Trabalhamos com a convicção de que nossos projetos são para a cidade, espaços que propõem ao público momentos de lazer, bem-estar e formação cidadã, a partir da arte e da cultura. Eu acredito muito no poder transformador desse estímulo, que amplia nossa capacidade de reflexão, de sensibilidade e de elaboração de pensamento. O Burburinho, especialmente, carrega uma meta maior: contribuir para um futuro mais sensível, mais digno e mais humano. A arte e a cultura são ferramentas poderosíssimas nesse processo civilizatório, e é isso que nos move. As dificuldades que enfrentamos são, em geral, do campo prático, captar recursos, viabilizar tudo o que sonhamos. Desde a primeira edição, ainda não alcançamos o orçamento ideal, mas seguimos criando, ajustando e apresentando novidades a cada ano. No fim das contas, essa coerência entre propósito e prática é o que nos guia. É assim que a gente sabe e gosta de fazer.
Cultue – Este ano o festival acontece em um único dia. Que tipo de experiência o público pode esperar dessa edição mais compacta?
Nathalia – Sim, este ano o festival acontece em apenas um dia, e isso tem uma justificativa muito clara. Houve uma diminuição significativa de orçamento em relação à edição passada, em função do reajuste nos valores do Programa Djalma Maranhão, que é o mecanismo municipal de incentivo à cultura responsável por viabilizar o nosso projeto. Com esse corte de recursos, não seria possível manter o mesmo formato de dois dias sem comprometer aspectos que consideramos essenciais. Fazer um evento como o Burburinho, gratuito e de qualidade, envolve muitos custos. E nós não trabalhamos com a lógica de escolher uma única prioridade, tudo é prioridade. Ter um espaço bonito, bem estruturado, seguro e organizado é uma prioridade. Ter uma equipe de produção bem remunerada e com funções claras também é uma prioridade. Assim como garantir cachês minimamente dignos para os artistas, e proporcionar conforto e segurança para o público. Tudo isso tem um custo alto, e reduzir a estrutura significaria abrir mão de algo que consideramos fundamental. Por isso, optamos por concentrar a programação em um único dia, mantendo a qualidade que o público já conhece e espera do festival. Continuamos com todas as atividades que fazem parte da nossa essência, espetáculos de dança, teatro, shows, DJ sets, oficinas, feirinha criativa e praça de alimentação. A única diferença é que, desta vez, tudo acontece em um só dia. E essa escolha acabou ganhando um sentido simbólico bonito, porque estamos na nossa nona edição, o número nove representa encerramentos, mas também renascimentos. Então, de certa forma, essa edição tem um tom ritualístico, mais leve, mais místico. Um encerramento de ciclo que já anuncia um novo começo. Esperamos que o público sinta isso, se conecte e abrace essa proposta com o mesmo carinho de sempre.
Cultue – Mesmo com menos tempo de evento, o Burburinho mantém a essência de reunir diferentes linguagens artísticas. Como foi o processo curatorial?
Nathalia – O processo curatorial dessa edição parte diretamente do conceito do nosso “ano 9”. Trouxemos para a programação toda a mística e a simbologia desse número, que representa o encerramento de ciclos e, ao mesmo tempo, o impulso para novos começos. Dentro dessa perspectiva, pensamos em uma curadoria que evocasse leveza, ritualidade e sensorialidade, experiências que convidasse o público à presença, à concentração e ao encantamento. Por isso, incluímos atividades como oficinas de aquarela e de origami, que estimulam o uso das mãos, o foco e o estar presente. Começamos o dia com uma sessão de yoga, abrindo o festival num clima de respiração e conexão. A curadoria do Burburinho sempre busca gerar reflexão e encantamento no público, e isso vale ainda mais numa edição como essa, que carrega uma simbologia tão especial. Como o festival é intergeracional, temos um cuidado grande em construir uma programação de classificação livre, que possa ser vivida por crianças, jovens, adultos e idosos. Tudo é pensado com atenção: o conteúdo dos espetáculos, as mensagens trazidas por cada artista, o horário de cada atividade. É um trabalho cuidadoso, que leva em conta o que cada obra comunica e o que ela desperta. Nesta edição, também quisemos criar um elo afetivo com o nosso início, trazendo de volta artistas e grupos que estiveram com a gente na primeira edição, em 2017. Como o Coletivo Atores à Deriva, com o espetáculo Flúvio e o Mar, que fala de forma poética sobre sustentabilidade e nossa relação com a natureza; a cantora Khrystal, que é uma das vozes mais potentes e simbólicas da nossa cena; e a Banda Rosa de Pedra, que retorna aos palcos justamente no nosso festival, depois de um tempo parada. Tudo no Burburinho tem um sentido. Cada escolha é feita com cuidado, para que o público sinta que há intenção em cada detalhe, e que cada encontro dentro do festival seja, de alguma forma, estimulante e transformador.
Cultue – Toda a programação é composta por artistas locais – o que essa decisão representa para você e para o festival?
Nathalia – O Burburinho tem um compromisso muito claro e profundo com a cena local. Como um projeto viabilizado pelo Programa Djalma Maranhão, o mecanismo municipal de incentivo à cultura, entendemos que esse compromisso é não apenas ético, mas também estrutural. A própria lei estimula que o recurso público circule dentro do território, fortalecendo artistas, profissionais e fornecedores da cidade. E isso, para nós, é um princípio inegociável. Nosso objetivo é fazer o recurso cultural girar dentro do ecossistema criativo local, fomentando trabalho, renda e visibilidade. Por isso, priorizamos uma programação composta majoritariamente por artistas potiguares, com cerca de 80% de atrações da casa, e com um critério importante: pelo menos 75% do repertório apresentado precisa ser autoral. É uma forma de valorizar a criação, não apenas a execução. Naturalmente, também acreditamos no valor das trocas e conexões com artistas de outros territórios, e isso certamente está nos nossos planos para o futuro. Mas, neste momento, o foco do Burburinho é fortalecer o que nasce aqui, a arte, as pessoas e as estruturas que sustentam a produção cultural da cidade. Para o próximo, o meu maior desejo é que a gente consiga ampliar os recursos para realizar tudo o que sonha. É natural que, com mais estrutura, a gente consiga alcançar ainda mais pessoas. Queremos muito retomar o formato de dois dias de evento e iniciar um movimento de intercâmbio, trazendo artistas de outras regiões, especialmente do Nordeste.
Cultue – Como produtora e gestora cultural, como você enxerga o momento atual da cultura potiguar?
Nathalia – Eu vejo o momento atual da cultura potiguar como um período muito vivo, cheio de efervescência e de movimentos importantes acontecendo. Desde a pandemia, tivemos um verdadeiro boom de novos projetos e propostas, muito impulsionado pelas políticas públicas de fomento, como a Lei Aldir Blanc e a Lei Paulo Gustavo, que injetaram recursos significativos nos estados e municípios. Isso permitiu que muitos produtores tirassem ideias do papel, que artistas realizassem seus trabalhos e que o setor cultural respirasse um novo fôlego. De modo geral, o Brasil vive um momento interessante, de retomada e de produção intensa. Mas, paralelamente, enfrentamos desafios importantes, especialmente no campo local. No ano passado, por exemplo, houve um reajuste no Programa Djalma Maranhão, que reduziu os valores de incentivo. Isso impacta diretamente os projetos, como aconteceu com o próprio Burburinho este ano, que precisou concentrar sua programação em um único dia por conta dessa diminuição de recursos. Então, ao mesmo tempo em que há um processo de amadurecimento e profissionalização da produção cultural, é essencial que as políticas culturais locais acompanhem esse ritmo. Precisamos que a gestão pública compreenda a importância de fortalecer e atualizar esses mecanismos, para que o avanço do setor não dependa apenas de programas federais. Trabalhar com cultura no Brasil é, por si só, um grande desafio, porque ainda não se reconhece a cultura como uma necessidade básica, tão essencial quanto a educação ou a saúde. Mas eu acredito que tudo é prioridade, e que é possível organizar e estruturar políticas públicas de modo que todas as áreas caminhem juntas. O maior desafio, talvez, esteja no campo da mentalidade, fazer com que a sociedade compreenda o valor real da cultura. A cultura é transversal; ela dialoga com todos os campos, educação, saúde, segurança, cidadania etc. Há exemplos muito claros no mundo, como Medellín, na Colômbia, uma cidade que foi reconstruída a partir da cultura. E temos muitos outros exemplos dentro do próprio Brasil. Vivemos, portanto, um momento de avanços e também de desafios. Somos uma democracia jovem, e o caminho da cultura no país ainda é de altos e baixos. Mas seguimos trabalhando para construir essa consciência coletiva de que a cultura é um pilar fundamental para o desenvolvimento humano e social. E é esse o papel que escolhi exercer: o de fortalecer, todos os dias, a cultura como eixo de desenvolvimento e transformação.
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