A comunidade de inteligência dos Estados Unidos avalia que a China não tem planos de invadir Taiwan até 2027 e que busca alcançar a reunificação sem recorrer ao uso da força. A conclusão consta na Avaliação Anual de Ameaça, divulgada nesta semana, em meio à intensificação das tensões no Indo-Pacífico e ao aumento de exercícios militares chineses na região.
Segundo o documento, embora o Exército de Libertação Popular (PLA) esteja ampliando gradualmente suas capacidades militares, não há um cronograma fixo para uma eventual ação contra a ilha. A análise contraria avaliações anteriores do Pentágono, que indicavam 2027 como um possível marco para a reunificação, ano simbólico por coincidir com o centenário das Forças Armadas chinesas e com o calendário político taiwanês.

O relatório ressalta que uma invasão anfíbia de Taiwan seria “extremamente desafiadora” e implicaria alto risco de fracasso, especialmente diante de uma possível intervenção dos Estados Unidos. Ainda assim, Pequim mantém a ameaça de uso da força, embora prefira, se possível, atingir seus objetivos por meios não militares.
A divulgação do documento ocorre em um contexto de fricções diplomáticas. Em resposta, o governo chinês afirmou que Taiwan é um assunto interno e criticou a postura americana. “Instituições e indivíduos relevantes dos EUA devem abandonar preconceitos ideológicos e a mentalidade de Guerra Fria”, declarou o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores, Lin Jian.
O texto também destaca os potenciais impactos globais de um eventual conflito, incluindo interrupções nas cadeias de suprimento de tecnologia — especialmente semicondutores — e aumento da aversão ao risco nos mercados financeiros. O estreito de Taiwan, rota estratégica para o comércio internacional, também é apontado como ponto crítico em caso de escalada.
As tensões são agravadas pelo papel dos Estados Unidos como principal aliado militar de Taiwan. O Parlamento da ilha autorizou recentemente a assinatura de um pacote de compra de armas de cerca de US$ 9 bilhões junto a Washington, parte de um acordo maior aprovado em dezembro. A China tem reiterado oposição a esse tipo de cooperação militar.
O tema deve voltar ao centro das negociações entre Washington e Pequim nos próximos meses, em meio a incertezas sobre a relação bilateral após o adiamento de visita do presidente americano à China. O cenário também envolve atores regionais, como o Japão, que diverge da avaliação da inteligência dos EUA e mantém posição de vigilância diante de um eventual agravamento da crise no estreito de Taiwan.