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Zona Leste
Famílias são retiradas do Viaduto do Baldo, em Natal, após operação da prefeitura
Fortes chuvas que causaram diversos transtornos na cidade foram o principal motivo para a intervenção, segundo autoridades
Bruno Vital
20/01/2020 | 14:40

Uma operação da Prefeitura do Natal para limpeza do Viaduto do Baldo, que fica entre os bairros Alecrim e Cidade Alta, na Zona Leste de Natal, terminou com a retirada de moradores de rua que viviam no local. Cerca de 35 pessoas tiveram de abandonar os barracos improvisados, que estavam montados embaixo da estrutura, na manhã desta segunda-feira, 20.

De acordo com as autoridades, as fortes chuvas que abriram o ano de 2020 e causaram diversos transtornos na cidade foram o principal motivo para a intervenção. Na quinta-feira, 9, uma enxurrada provocou o transbordamento do Canal do Baldo e deixou a região intransitável, o que não acontecia há 30 anos, segundo a Secretaria de Serviços Urbanos (Semsur). A água acabou derrubando o muro da Companhia de Energia do Rio Grande do Norte (Cosern). No viaduto, a prefeitura espera construir uma área de preservação ambiental para evitar novas enchentes.

Moradores retiram pertences. Foto: Bruno Vital/Agora RN
Moradores retiram pertences. Foto: Bruno Vital/Agora RN

“Moro aqui há 7 anos e enchente sempre teve e nunca fizeram nada e agora querem tirar a gente daqui. A gente que não tem lugar para morar é assim, quando chove ninguém dorme. Até a vida de uma mulher nós salvamos porque ela tava morrendo afogada semana passada. Agora com essa operação aí eu não sei para onde vou. A gente está sendo tratado como bicho, mas a gente é ser humano também, a diferença é a falta de oportunidade”, diz Alexandre Gomes, que faz ‘bicos’ como pedreiro e limpador de para-brisa.

“Agora qualquer calçada, prédio abandonado, terreno baldio que a gente encontrar, a gente vai ocupar porque não temos para onde ir. Eu não sei lhe dizer como vai ser. Esse pessoal aqui vai para onde? Tem um bocado de galpão antigo aí e não fazem nada para dar pelo menos uma moradia. Aqui a gente só é taxado de viciado e bandido, mas tem trabalhador aqui. Só não tem oportunidade”, completa José Carlos Freitas, que vive embaixo do Baldo há uma década.

Viaduto do Baldo, na zona leste de Natal. Foto: José Aldenir/Agora RN
Viaduto do Baldo, na zona leste de Natal. Foto: José Aldenir/Agora RN

A exemplo dos moradores da região, que não sabem onde dormirão nos próximos dias, o Executivo local também desconhece o destino das famílias desalojadas. Atualmente, embora a prefeitura não saiba o número exato de moradores de rua, a estimativa é de que cerca de 800 pessoas estejam nessa situação em Natal.

O secretário-adjunto de Assistência Social, Helder Fernandes, garante que a maioria dos moradores do viaduto recebe ou está apta a receber algum tipo de assistência. “São pessoas que já estão inseridas no nosso cadastro e podem se beneficiar dos programas das esferas municipal, estadual e federal. Acontece que a prefeitura hoje não tem poder de retirar essas pessoas das ruas, até porque ninguém pode obrigar isso, mas nós temos centros de acolhimentos que são de fundamental importância e ajudam nessa situação”, disse.

Cerca de 50 agentes da Guarda Municipal acompanharam a operação. Foto: Bruno Vital/Agora RN
Cerca de 50 agentes da Guarda Municipal acompanharam a operação. Foto: Bruno Vital/Agora RN

“O que nós fizemos nessa ação de hoje foi uma limpeza da área e não uma limpeza das pessoas. É uma retirada de lixo e metralha. Acaba que a consequência para que seja possível fazer essa limpeza é necessário fazer esse desalojamento dessas pessoas, que usam o espaço como abrigo. Temos uma discussão permanente com esse pessoal para tentar resolver essa situação, mas só vamos conseguir isso com uma soma de forças de todos os poderes”, esclarece Helder Fernandes.

Ainda segundo Helder Fernandes, é preciso conhecer a população de rua por meio de um censo para só depois traçar estratégias de acolhimento dessas pessoas. A ideia é montar uma força-tarefa para levantar esses dados, entender as particularidades de cada um e pautar as políticas públicas voltadas para os desabrigados. “Já buscamos apoio com IBGE, Governo do Estado, Ministério Público e UFRN para fazer o censo e saber quem de fato está em situação de rua e mora em Natal”, explica.

Cerca de 50 agentes da Guarda Municipal acompanharam a operação. Foto: Bruno Vital/Agora RN
Pelo menos 35 pessoas estavam no viaduto. Foto: José Aldenir/Agora RN

E completa: “Nossa dificuldade é saber como catalogar isso, até para conhecer o local de origem dessas pessoas. Encontramos resistência dos próprios moradores de rua, que não querem fornecer informações pessoais ou que também não querem sair da rua. Tem gente que se acomoda em pontos específicos da cidade e nos finais de semana retorna para casa, isso é muito comum. Então é muito difícil, você reunir as informações corretas. O município está buscando melhoria de vida para essa população”.

Enquanto o imbróglio envolvendo a elaboração do censo para a promoção de políticas públicas concretas de assistência social às famílias não se resolve, os moradores seguirão improvisando casas nos cantos da cidade.

Famílias viviam embaixo da estrutura. Foto: Bruno Vital/Agora RN
Famílias viviam embaixo da estrutura. Foto: Bruno Vital/Agora RN

Natal conta hoje com dois centros de acolhimentos para a população de rua: o Centro Pop e Albergue Municipal. O Centro Pop atende 40 usuários por dia e oferece os serviços de orientação jurídica, psicológica, social e garantia de direitos, funcionando de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, com oferta de café da manhã, almoço e lanche. Já o albergue oferece dormida para até 70 pessoas.

A operação da manhã desta segunda-feira, 20, contou com aproximadamente 100 representantes da Guarda Municipal de Natal (GMN); Secretaria de Serviços Urbanos (Semsur); Secretaria de Trabalho e Assistência Social (Semtas); e Companhia de Serviços Urbanos de Natal (Urbana).

Operação ocorreu na manhã desta segunda. Foto: José Aldenir/Agora RN
Operação ocorreu na manhã desta segunda. Foto: José Aldenir/Agora RN


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