Economista, colunista de O Globo, professor associado da Fundação Dom Cabral e superintendente executivo do Instituto Unibanco, Ricardo Henriques lança o livro Utopia Pragmática (Editora Jandaíra), obra que reúne 55 artigos publicados entre março de 2022 e julho de 2025. Um dos idealizadores do Bolsa Família, Henriques defende que o Brasil precisa abandonar soluções imediatistas e construir um projeto de longo prazo para enfrentar desafios como a desigualdade, a crise da democracia, as mudanças climáticas e os impactos da inteligência artificial. Nesta entrevista, ele explica por que considera que o país precisa de uma “utopia pragmática”, alerta para o risco de promover “mudanças sem transformação” e aponta a educação como eixo central para aumentar a produtividade e preparar o Brasil para a economia do conhecimento.
Por que o Brasil precisa de uma utopia pragmática?

A ideia é meio um convite para um esforço coletivo, espero especulativo, inovador, para imaginar o Brasil diante dos desafios prementes da IA e das tensões na democracia. O título do livro é um jogo de palavras um pouco ambicioso. O “vamos fazendo”, vendo caso a caso, é um péssimo conselheiro para o Brasil. Estamos vendo crises em países nórdicos, que aparentemente haviam arrumado tudo, vivendo a ameaça da extrema direita desmontar tudo o que montaram. No Brasil pós-Constituinte, pós-Plano Real, pós-Bolsa Família, minha expectativa é que se gere mais. O que já foi um teto nas políticas públicas agora virou um piso. Num certo sentido, ainda bem. Conseguimos conquistar avanços, ficar internacionalizados, e agora queremos mais.
Quais são os principais riscos para o País?
Geramos muitas mudanças sem transformação. Já fizemos isso na Independência e na Abolição, que foi mudar sem transformar. Hoje, se mudar sem transformar, o risco é gigantesco no campo da desigualdade: o de se naturalizar essa situação e não se conseguir sair mais de padrões vexaminosos de desigualdade. Há o risco para a democracia, como arranjo da extrema direita antidemocrática, com soluções simples para problemas complexos, que são pura ilusão. Há o risco de ficarmos irrelevantes e não aproveitarmos as oportunidades de transformações. A questão da democracia é entregar essas transformações, pensar mais ambiciosamente do que foi até agora.
Que soluções simples são essas que o senhor critica?
Militarizar as escolas não faz sentido, não gera retorno, não gera mais aprendizado, estigmatiza o processo formador, a partir de referências, de traços, que não são os princípios da democracia.
Como enfrentar esses desafios?
Para saldar as dívidas históricas precisamos de coisas diferentes, de um repertório mais inovador. O ponto de intenção do livro é convidar ao diálogo e imaginar o futuro do Brasil, produzir uma utopia pragmática. Ficar capturado, fechado, achando que vai resolver do mesmo jeito que já resolveu, satisfeito com teto muito baixo, não funciona mais. O caminho é o do contraditório, das divergências, do desconforto. Democracia requer desconforto para encontrar caminhos. O mundo do conforto, das soluções simplórias, converge para o caminho autoritário. O mundo inteiro está sob essa tensão. Esse desconforto da democracia é um ambiente rico para viabilizar essa democracia transformadora. É isso que estou tentando provocar no livro.
Qual deve ser o papel da educação nesse processo?
No vetor educacional, temos de estar preocupados com a qualidade, atualizando para o século XXI. Caso contrário, não teremos mão de obra de qualidade, seremos obrigados a importar engenheiros, técnicos, da Índia, China, Leste Europeu. E temos de fazer tudo junto ao mesmo tempo, o que é mais difícil. Temos de subir a barra da educação, desenvolver táticas para uso da IA, o pensamento computacional, acelerar o processo técnico aplicado, ler filosofia, literatura. É um caminho muito mais complexo do que fizemos até hoje, dedicando mais tempo para o lúdico. Não posso cair na armadilha de fulano dá para matemática e beltrano dá para português, não posso me comprometer com isso. Precisamos de diálogo, respeito, reconhecer que ninguém tem a verdade absoluta, produzir o espaço do contraditório. Crianças e jovens vão precisar ter múltiplos skills (habilidades), pensamento crítico, argumentação analítica, dedutiva, fluência na língua, isso tudo ao mesmo tempo. Reciclar a formação dos professores. Discutir como engajo o mesmo professor. Não estou propondo ter soluções para todas as perguntas. Tem caminhos que já se mostraram consequentes, outros que não deram certo.
O Brasil vive retrocessos?
Vivemos uma relativização do direito adquirido, num museu de grandes novidades. Ganhos civilizatórios podem deixar de existir: a ideia do Estado laico; direitos dos povos indígenas; incentivo a meninos e jovens serem sexistas, machistas; e o direito das mulheres, em nome de um tradicionalismo. Para algumas pessoas, alguns não terem dignidade é razoável. O fundamento do processo democrático é a garantia da dignidade para todos. As disputas não podem colocar a dignidade em risco. Há um certo sentido de urgência, já passamos pelo primeiro quarto do século XXI. Temos que ajustar Previdência, saúde, tratar da transição demográfica, da IA retirando empregos, desenvolver novos empregos, lidar com os jovens nas periferias das grandes metrópoles que não têm primeiro emprego de qualidade, e a jornada 6×1 faz parte dessa discussão. E ainda a economia do cuidado, com a população envelhecendo. São decisões que têm de ser tomadas quando entrar 2027. Temos de começar logo.
É possível fazer essas mudanças em um ambiente tão polarizado?
Ficou mais difícil do que era há 20 anos, mas a dificuldade não pode ser empecilho para não chegar a um alinhamento para projetarmos o futuro dentro do jogo democrático.