A Netflix decidiu transformar um comportamento cada vez mais comum entre seus assinantes em parte da própria experiência de entretenimento. Em vez de tentar afastar o público do celular enquanto assiste a filmes e séries, a plataforma passou a explorar justamente esse hábito em seu mais novo lançamento na área de videogames. O resultado é Unhinged, produção do Night School Studio que utiliza o smartphone não apenas como controle, mas como um elemento central da narrativa.
O jogo chega ao catálogo nesta terça-feira 30 e representa mais um passo da estratégia da empresa para consolidar sua presença no mercado de games. A proposta parte de uma constatação reconhecida pelos próprios executivos da companhia: boa parte dos espectadores divide a atenção entre a televisão e a tela do celular.

Segundo Alain Tascan, presidente da divisão de jogos da Netflix, a empresa acompanha atentamente essa mudança de comportamento e busca maneiras de incorporá-la ao desenvolvimento de novos produtos.
“É algo que estamos analisando com muita seriedade”, afirmou Alain Tascan, presidente de jogos da Netflix. “Eu mesmo fico na frente da TV usando o celular. Essa é a realidade, para o bem ou para o mal. Nós sabemos disso. Não estamos aqui para julgar, mas para dizer: OK, podemos fazer algo especial a respeito?.”
Essa reflexão deu origem a um jogo que rompe com a lógica tradicional das experiências interativas. Desenvolvido pelo Night School Studio — estúdio adquirido pela Netflix e responsável pela série Oxenfree —, Unhinged é uma produção inédita, sem ligação com franquias já existentes, embora a equipe tenha trabalhado anteriormente em um jogo derivado da sétima temporada de Black Mirror.
A aventura conta com as vozes de Zoë Kravitz, Sadie Sink e Troy Baker e foi construída para que o smartphone do jogador represente o próprio celular da protagonista. Ao longo da história, o aparelho recebe mensagens de texto, chamadas telefônicas e também funciona como lanterna, simulando o comportamento de um telefone real.
Segundo Sean Krankel, chefe da divisão de jogos narrativos da Netflix e cofundador do Night School Studio, a intenção foi fazer com que o ato de olhar para o celular deixasse de ser uma distração para se tornar parte da narrativa. “Se em algum momento você olhar para o seu celular, é porque nós queremos que você faça isso”, disse Sean Krankel, chefe de jogos narrativos da Netflix e cofundador do Night School Studio.
A iniciativa surge em um momento em que empresas de entretenimento disputam intensamente a atenção do público. O crescimento das redes sociais, especialmente plataformas de vídeos curtos como o TikTok, reduziu o tempo de concentração dos usuários e passou a influenciar também a forma como filmes, séries e jogos são produzidos.
O ator Matt Damon, cuja produtora Artists Equity, criada em parceria com Ben Affleck, firmou recentemente uma colaboração com a Netflix, afirmou que a empresa discute internamente maneiras de adaptar seus conteúdos ao comportamento de espectadores que acompanham as produções enquanto utilizam o celular.
Segundo Damon, há conversas para repetir informações importantes da trama diversas vezes ao longo dos diálogos, permitindo que pessoas distraídas consigam acompanhar a narrativa mesmo sem atenção constante à tela.
Relato semelhante foi apresentado pelo roteirista Will Tavlin. De acordo com ele, profissionais que trabalham para a plataforma receberam orientações de executivos para tornar determinadas ações mais explícitas durante os diálogos. “Faça esse personagem anunciar o que está fazendo, para que os espectadores que estão com o programa ao fundo consigam acompanhar.”
A Netflix, no entanto, rebateu essas interpretações. Procurada, a empresa informou que essas descrições não representam sua política de produção e citou uma entrevista concedida pelo chefe da divisão de filmes da companhia, Dan Lin, à revista The Hollywood Reporter. Segundo o executivo, a prioridade permanece sendo desenvolver bons filmes, sem fórmulas narrativas pré-estabelecidas.
As dificuldades para conquistar a atenção do público também atingem a indústria dos videogames. Em um relatório recente, o analista e diretor de estratégia do Xbox, Matt Ball, afirmou que os jogos eletrônicos vêm perdendo espaço na disputa pelo tempo dos consumidores para aplicativos como TikTok, plataformas de apostas esportivas e até o OnlyFans.
Foi nesse cenário que surgiu Unhinged. O Night School Studio optou por criar uma experiência relativamente curta, que pode ser concluída em menos de uma hora, aproximando sua duração da de um episódio de televisão. A proposta busca atrair pessoas pouco familiarizadas com videogames e reduzir a barreira criada por títulos que exigem dezenas de horas de dedicação.
A história acompanha Ava, personagem interpretada por Zoë Kravitz, e sua amiga Claire, dublada por Sadie Sink. As duas decidem permanecer na cidade durante uma forte tempestade, mas acabam isoladas quando o fornecimento de energia é interrompido. A situação se torna ainda mais perigosa quando Ava percebe que há um invasor dentro de seu apartamento.
O suspense evolui rapidamente para uma narrativa de sobrevivência ambientada em um edifício completamente escuro. Durante toda a jornada, o jogador utiliza a tela sensível ao toque do celular para orientar Ava pelos corredores enquanto mantém contato constante com Claire por meio de chamadas telefônicas e mensagens.
Além de servir como lanterna, o aparelho também exige gerenciamento de bateria e intensidade do sinal de rede. Em determinado momento da história, após uma queda sofrida pela protagonista, a tela do celular se quebra, e esse dano passa a ser reproduzido visualmente na tela utilizada pelo jogador.
Segundo o diretor de Unhinged, Sam Warner, o aparelho representa muito mais do que um simples controle. “O celular é a sua única linha de salvação”, disse o diretor do jogo, Sam Warner. “Acho que essa dependência do aparelho fica bastante evidente.”
Claire assume diferentes funções durante a narrativa, atuando como amiga, conselheira, fonte de informações e apoio emocional para Ava enquanto ela tenta escapar do prédio. “Acho que é uma relação diferente daquela que a maioria dos jogos tenta criar com um controle tradicional”, acrescentou Warner.
Os próprios desenvolvedores reconhecem que a relação cotidiana com os smartphones influenciou diretamente a concepção do projeto. Sean Krankel admite que também enfrenta dificuldades para controlar o tempo de uso do aparelho.
“São muitas horas por dia, eu gostaria de conseguir focar mais”, desabafou. “Ainda queremos criar coisas que amamos e que achamos que as pessoas vão amar, mas provavelmente nossa capacidade de atenção hoje é menor”, concluiu.
Para Alain Tascan, Unhinged representa apenas o início de uma estratégia mais ampla da Netflix para integrar o celular às experiências oferecidas na televisão. O executivo afirma que a empresa estuda novas possibilidades de interação social utilizando os smartphones, inclusive entre pessoas que não estejam no mesmo ambiente físico.
“No momento, todos os nossos jogos para TV usam o celular como controle”, explicou. “Mas e se no futuro começarmos a fazer coisas mais sociais com o celular também para pessoas que não estão na mesma sala?”
A iniciativa faz parte da tentativa da Netflix de fortalecer sua presença no mercado de jogos eletrônicos. Apesar dos investimentos realizados nos últimos anos, relatórios anteriores indicaram que apenas cerca de 1% dos assinantes utilizavam os games disponíveis na plataforma. A empresa também encerrou as atividades de um de seus estúdios poucos anos após sua aquisição.
Nem mesmo Unhinged, porém, interfere diretamente nas notificações do aparelho do jogador. A equipe chegou a estudar a possibilidade de bloquear mensagens e chamadas externas durante a partida, mas acabou descartando a ideia.
Segundo Sean Krankel, impedir esse tipo de interrupção poderia causar insatisfação entre os usuários. Além disso, a equipe percebeu que notificações inesperadas aumentavam a tensão da experiência. “Esse jogo foi feito para ser jogado assim, para estressar você intencionalmente”, afirmou.
Ao final, cada jogador decide se permanece imerso na história ou interrompe a experiência para responder às notificações da vida real. Para Sam Warner, essa relação ambígua resume bem o papel que os smartphones ocupam atualmente no cotidiano. “Eu vejo o meu celular quase como um portal para o inferno”, brincou Warner. “Mas ele funciona muito bem como controle.”