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Aviação

EUA avançam para voos supersônicos

FAA propõe substituir veto baseado na velocidade por limite de ruído, abrindo caminho para o retorno de aeronaves comerciais acima de Mach 1 no espaço aéreo americano.
Por O Correio de Hoje
06/07/2026 | 16:20

Os Estados Unidos deram o passo mais significativo em mais de cinco décadas para viabilizar o retorno da aviação comercial supersônica. A Administração Federal de Aviação (FAA) apresentou uma proposta de regulamentação que substitui a proibição de voos acima da velocidade do som sobre o território americano por um novo critério baseado no nível de ruído percebido no solo. Se aprovada, a medida poderá encerrar um veto em vigor desde 1973 e abrir espaço para uma nova geração de aeronaves comerciais desenvolvidas por empresas como a Boom Supersonic.

A proposta foi anunciada pelo secretário de Transportes dos Estados Unidos, Sean Duffy, e assinada pelo administrador da FAA, Bryan Bedford. Em vez de proibir automaticamente qualquer aeronave que ultrapasse Mach 1, a nova regra permitirá operações desde que o estrondo sônico não alcance o solo com intensidade superior ao equivalente ao som de um trovão distante. A mudança reflete a avaliação do governo americano de que os avanços tecnológicos tornaram possível romper a barreira do som sem provocar o impacto acústico que levou à proibição há mais de cinco décadas.

Overture
Jato da Overture, da Boom Supersonic, vai entrar em operações coomerciais até o final desta década nos Estados Unidos - Foto: divulgação

Segundo a FAA, a evolução da engenharia aeroespacial, dos materiais e das técnicas de voo permite explorar o chamado Mach cutoff, fenômeno em que a combinação entre velocidade, altitude e condições atmosféricas faz com que o estrondo sônico seja refratado para as camadas superiores da atmosfera antes de atingir a superfície. Na prática, isso elimina o ruído que historicamente provocava reclamações da população e, em alguns casos, danos estruturais em edificações durante testes realizados nas décadas de 1960 e 1970.

A nova regulamentação trata apenas do ruído gerado durante a fase de cruzeiro da aeronave. A FAA informou que ainda apresentará uma segunda proposta estabelecendo limites específicos para pousos e decolagens de aviões supersônicos. A expectativa da agência é concluir todo o processo regulatório até meados de 2027.

A flexibilização regulatória atende a uma demanda antiga da indústria aeronáutica americana, especialmente da Boom Supersonic, atualmente a empresa mais avançada no desenvolvimento de um sucessor comercial do Concorde. A companhia já acumula encomendas e compromissos de compra da American Airlines, United Airlines e Japan Airlines para o Overture, aeronave projetada para voar a cerca de 2.100 km/h sobre o oceano e, futuramente, também em velocidades supersônicas sobre o território continental, caso a nova regulamentação seja definitivamente aprovada.

Em janeiro de 2025, a Boom realizou um dos testes considerados decisivos para a mudança regulatória. O demonstrador tecnológico XB-1 rompeu a barreira do som três vezes sem que o estrondo sônico fosse percebido na superfície, resultado citado pela FAA como evidência da viabilidade técnica das novas operações. Pesquisas conduzidas pela Nasa também serviram de base para a proposta apresentada pela agência.

O movimento regulatório ganhou força após a assinatura, em junho de 2025, de uma Ordem Executiva pelo presidente Donald Trump determinando que a FAA revisasse a proibição histórica. Paralelamente, a Câmara dos Representantes aprovou um projeto obrigando a agência a estabelecer regras que permitam voos supersônicos sem impacto sonoro perceptível no solo. A proposta ainda aguarda apreciação no Senado.

Para o diretor do Escritório de Ciência e Tecnologia da Casa Branca, Michael Kratsios, a revisão das regras possui também dimensão estratégica. “Por muito tempo, regras ultrapassadas seguraram nossos engenheiros e fabricantes”, afirmou, acrescentando que a mudança fortalece a indústria aeronáutica americana e amplia a competitividade tecnológica do país.

Na mesma linha, o administrador da FAA, Bryan Bedford, afirmou que a proposta representa a oportunidade de encerrar uma restrição que limitou o desenvolvimento do setor por décadas. “Isso significa que poderemos finalmente revogar a proibição dos anos 1970 sobre o voo supersônico em território americano, minimizando o impacto sonoro para comunidades ao longo das rotas e perto dos aeroportos”, disse.

O fundador e CEO da Boom Supersonic, Blake Scholl, também comemorou o avanço regulatório. “O mundo quer viajar de forma supersônica”, afirmou, ao defender que a combinação entre novas tecnologias e padrões internacionais de certificação permitirá o retorno sustentável desse mercado.

A proposta americana acompanha mudanças recentes na regulamentação internacional. Em fevereiro deste ano, a Organização da Aviação Civil Internacional (ICAO) aprovou novos padrões globais de ruído para aeronaves supersônicas durante pousos e decolagens, criando uma base técnica para futuras certificações em diferentes mercados.

O debate marca uma tentativa de reabrir um segmento praticamente inexistente desde a aposentadoria do Concorde. O avião franco-britânico, que voava a Mach 2,04 — aproximadamente 2.500 km/h — e ligava cidades como Nova York, Londres e Paris em pouco mais de três horas, encerrou suas operações comerciais em outubro de 2003 após anos de elevados custos operacionais, baixa rentabilidade e redução da demanda. A restrição americana aos voos supersônicos sobre terra sempre foi apontada como um dos fatores que limitaram a expansão comercial do modelo, ao impedir a criação de rotas domésticas de alta velocidade nos Estados Unidos, considerado o maior mercado de aviação do mundo.