A crise do petróleo provocada pelas tensões no Oriente Médio, com restrições ao trânsito de petróleo pelo Estreito de Ormuz, está mudando o mapa do mercado mundial de energia e abrindo oportunidades para países produtores de fora da região. Nesse novo quadro, o Brasil ganha peso como opção para empresas e governos que querem diversificar a origem do óleo que compram, apoiado no crescimento da produção do pré-sal e no potencial de áreas ainda pouco exploradas.
O conflito que envolve os Estados Unidos e o Irã interrompeu parte do fornecimento e diminuiu a quantidade de petróleo disponível no mercado internacional. Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, a EIA, a produção paralisada no Oriente Médio chegou a 6,7 milhões de barris por dia em agosto.

Pelas contas do órgão, os estoques mundiais teriam caído cerca de 400 milhões de barris desde janeiro. Com isso, a EIA elevou para US$ 91 por barril a previsão de preço médio do Brent, o petróleo de referência no mercado internacional, em 2026.
Com menos oferta, ganham relevância produtores como Brasil, Guiana e Argentina. A EIA já previa que a produção brasileira poderia alcançar, em média, 4 milhões de barris diários em 2026, puxada pela chegada de novas plataformas a campos em águas profundas, e a Petrobras deve ampliar o número dessas unidades no litoral do País. De acordo com o órgão americano, os três países sul-americanos responderam juntos por 28% do aumento da produção mundial de petróleo em 2025.
Victor Montenegro, que ocupa interinamente a diretoria-executiva Corporativa do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), vê o País em posição favorável: “Nosso país virou um porto seguro e estável para as empresas direcionarem seus investimentos, considerando que temos uma quantidade grande de recursos, com reservas comprovadas”.
A geopolítica será um dos assuntos centrais da ROG.e 2026, evento que o IBP realiza de 21 a 24 de setembro no Riocentro, no Rio de Janeiro. Entre os convidados estão Carlos Pascual, vice-presidente sênior da S&P Global, que já representou os Estados Unidos como embaixador no México e na Ucrânia, e Michal Meidan, do Oxford Institute for Energy Studies, que é especialista em energia da China.
Para a indústria brasileira, a chance não se resume a produzir mais petróleo. O País reúne as reservas do pré-sal, a experiência em exploração em águas profundas, fontes de energia renovável e projetos para cortar emissões. A Margem Equatorial também figura entre as áreas que podem aumentar os recursos disponíveis, embora seu aproveitamento dependa do avanço de projetos exploratórios.
O presidente do IBP, Roberto Ardenghy, aposta na região: “O Brasil e outros países da América do Sul podem compensar uma parte da oferta que deixou de ser oferecida. A ROG.e debaterá quais são as perspectivas de Brasil, Guiana, Suriname, Colômbia e outros produtores da região em aumentar a sua participação no mercado global, pois há governos buscando desesperadamente fontes alternativas para reduzir sua dependência de petróleo e gás natural”.
A expectativa de mais espaço para a América do Sul aparece num momento em que a produção de países de fora da Opep+, o grupo que reúne a Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados, ganha importância nas projeções internacionais. Estimativas recentes da própria Opep colocam Brasil, Estados Unidos, Canadá e Argentina entre os países que devem puxar o crescimento da produção fora do grupo em 2026 e 2027.
A falta de oferta também acirra a disputa por investimentos. Na visão do setor, países que conseguem combinar produção de petróleo e gás com segurança jurídica, custos competitivos e projetos de descarbonização tendem a atrair parte do capital que a instabilidade internacional está deslocando.
O Brasil tenta ocupar esse espaço com uma indústria que aposta em eficiência nas operações, em novos combustíveis e em tecnologias para capturar e armazenar carbono. A experiência acumulada na exploração offshore, feita em alto-mar, é vista como trunfo para tocar projetos mais complexos.
Para o chair da ROG.e, Nelson Narciso, o momento atrai atenção internacional: “A descoberta de petróleo na Margem Equatorial, os avanços tecnológicos do offshore e a capacidade brasileira de desenvolver soluções para desafios complexos colocam o país novamente no centro das atenções globais. Isso faz com que os principais líderes empresariais, especialistas e autoridades queiram estar presentes na ROG.e para participar das discussões sobre o futuro da energia”.
O tamanho do evento também mostra o interesse pelo setor. A organização prevê 75 mil participantes e 650 marcas expositoras numa área de 117 mil metros quadrados, com 13 pavilhões internacionais e mais de 600 horas de programação sobre inovação, regulação, descarbonização, investimentos, transição energética e segurança energética.
Os efeitos vão além da indústria. Um estudo do IBP com a Fundação Getulio Vargas calcula que a ROG.e 2026 vai movimentar R$ 593 milhões na economia do Estado do Rio de Janeiro, somando a preparação, os dias do evento e o período posterior. A estimativa inclui mais de 10 mil vagas de trabalho e cerca de R$ 35 milhões em arrecadação líquida de tributos.
Com o Oriente Médio instável, o encontro acontece num período em que a segurança energética voltou ao centro das decisões de governos e empresas. Para o Brasil, o desafio será converter a procura mundial por novas fontes de petróleo e gás em investimentos de longo prazo e, junto disso, equilibrar o aumento da produção com as exigências cada vez maiores de redução das emissões.