A Ópera de Paris anunciou mudanças no cronograma de modernização de seus dois principais teatros e informou que o histórico Palais Garnier poderá ter áreas de visitação turística fechadas por até dois anos durante as obras. A alteração foi divulgada nesta quinta-feira e decorre da necessidade de remover completamente o chumbo existente na estrutura do edifício, exigência estabelecida pelas autoridades francesas após mudanças nas normas de segurança.
O plano de reformas havia sido apresentado em 31 de outubro de 2024 e previa o fechamento escalonado dos dois teatros da instituição. Pelo cronograma inicial, o Palais Garnier seria fechado entre 2027 e 2029, enquanto a Ópera da Bastilha passaria por obras entre 2030 e 2032. Com a nova exigência de descontaminação, os trabalhos no Garnier serão prolongados, e a reforma da Bastilha foi adiada, não devendo começar antes da temporada 2033-2034. Segundo a direção da instituição, a intervenção tem como objetivo modernizar as torres cênicas, conjunto de estruturas localizadas acima e abaixo do palco, além de atualizar equipamentos de cena, redes técnicas, sistemas elétricos e de climatização dos edifícios.

“É uma escolha que assumimos, uma decisão responsável tomada para garantir a viabilidade a longo prazo de nossas instalações”, afirmou o diretor-geral da Ópera de Paris, Alexander Neef. “Estamos tomando essa medida agora para evitar ter de iniciar outro grande projeto de reforma daqui a alguns anos”, acrescentou.
Neef explicou que a presença de chumbo no Palais Garnier já era conhecida e vinha sendo monitorada regularmente, mas que o endurecimento das normas de segurança levou os órgãos competentes a exigir a retirada integral do material durante a reforma. “Como acontece com muitos monumentos históricos, a presença de chumbo no Palais Garnier é conhecida e monitorada regularmente. A questão já estava contemplada no plano inicial da obra”, afirmou. Segundo ele, a principal mudança é que os órgãos responsáveis passaram a exigir a descontaminação completa da torre cênica, tornando inevitável a ampliação do cronograma.
Inaugurado em 1875, o Palais Garnier completa 151 anos e é tombado como monumento histórico desde 1923. A construção é considerada uma das principais obras da arquitetura Beaux-Arts e permanece entre os monumentos mais visitados da capital francesa. Outra mudança anunciada envolve justamente a visitação turística ao Palais Garnier, responsável por uma importante parcela das receitas da instituição.
Embora o planejamento inicial previsse manter os espaços abertos ao público durante parte das obras, a direção informou que as áreas destinadas às visitas poderão permanecer fechadas por até dois anos em razão dos impactos provocados pelos trabalhos, como ruídos, vibrações e limitações operacionais. Atualmente, as visitas turísticas geram aproximadamente € 13 milhões por ano, o equivalente a cerca de R$ 77 milhões, representando uma das principais fontes de arrecadação própria da Ópera de Paris. Segundo Alexander Neef, a decisão sobre um eventual fechamento integral do edifício dependerá dos testes técnicos que serão realizados nos próximos meses para definir o método mais adequado de remoção do chumbo.
“O custo adicional dessas adaptações ainda não é conhecido”, afirmou Neef. Segundo ele, o valor dependerá dos resultados dos testes, da definição sobre um eventual fechamento completo do Palais Garnier e da capacidade de autofinanciamento da instituição.
Em setembro do ano passado, o Ministério da Cultura da França estimou o custo total da modernização em € 450,8 milhões — cerca de R$ 2,68 bilhões — distribuídos ao longo de seis anos. Desse montante, aproximadamente 25% serão financiados pelo Estado francês.
Além dos dois grandes teatros, o projeto prevê intervenções menores em outras unidades da instituição, como a Escola de Dança de Nanterre e os Ateliers Berthier, onde ficam armazenados figurinos, cenários e materiais utilizados nas produções.
Mesmo durante as obras, a programação artística da Ópera de Paris será preservada. Enquanto um dos teatros permanecer fechado, o outro continuará recebendo montagens de ópera e balé. A instituição também pretende ampliar a realização de espetáculos em espaços parceiros, entre eles o Théâtre des Champs-Élysées, o Théâtre du Châtelet, o Théâtre de Chaillot e o Théâtre de la Ville.
A direção informou ainda que está preparando um plano específico para reduzir os impactos sobre os funcionários afetados pelas obras. “Examinaremos atentamente os impactos precisos à luz dos testes realizados neste verão. Depois disso, as medidas de apoio precisarão ser discutidas e negociadas”, afirmou Neef, acrescentando que o objetivo é “preservar competências e empregos para a reabertura do teatro”.
Projetado pelo arquiteto francês Charles Garnier, o Palais Garnier foi inaugurado em 1875 e serviu como sede principal da Ópera de Paris até a inauguração da Ópera da Bastilha, em 1989. Reconhecido por sua fachada ornamentada, escadarias monumentais e salões luxuosos, o edifício recebeu, em 1964, uma pintura de Marc Chagall no teto da sala principal, tornando-se também referência mundial pela combinação entre arquitetura histórica e arte contemporânea. O teatro também entrou para a cultura popular ao inspirar o romance O Fantasma da Ópera, publicado por Gaston Leroux em 1910.