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Cinema

Christopher Nolan diz que maior risco é jogar pelo seguro

Diretor afirma que adaptação do clássico de Homero é o maior projeto de sua trajetória e revela bastidores da produção filmada integralmente em IMAX
Por O Correio de Hoje
01/07/2026 | 17:31

Às vésperas da estreia mundial de “A Odisseia”, marcada para 16 de julho, o cineasta Christopher Nolan admite viver um dos momentos mais tensos de sua carreira. Mesmo após conquistar reconhecimento internacional com produções como Amnésia, A Origem, Interestelar e Oppenheimer, vencedor do Oscar de Melhor Filme, o diretor afirma que o lançamento de um novo trabalho continua sendo acompanhado de ansiedade.

“Os nervos ficam à flor da pele.”

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Christopher Nolan afirma que “A Odisseia” é o maior empreendimento de sua carreira - Foto: divulgação

Segundo Nolan, esse sentimento faz parte do processo de criação porque, depois de concluído, o filme deixa de pertencer ao diretor e passa a ser interpretado pelo público.

“Você trabalha por muito tempo, se dedica, mas os filmes pertencem ao público. Então, tudo depende da perspectiva de quem assiste.”

Desta vez, a expectativa é ainda maior. O diretor classifica “A Odisseia” como o maior empreendimento de sua trajetória no cinema.

“Foi um empreendimento enorme, sem dúvida”, diz. “Acho que só agora me senti pronto para assumir esse filme.”

A produção adapta para o cinema o clássico poema de Homero e marca outro feito inédito: trata-se do primeiro longa-metragem comercial filmado integralmente em câmeras IMAX. Com aproximadamente três horas de duração, o filme foi rodado em seis países, mobilizando milhares de profissionais entre elenco e equipe técnica.

Diferentemente da tendência atual de grandes produções, Nolan optou por privilegiar efeitos práticos em vez da dependência quase total de computação gráfica. O elenco reúne colaboradores frequentes do diretor, como Matt Damon, intérprete de Odisseu, e Anne Hathaway, que vive Penélope. Entre as novidades estão Tom Holland, no papel de Telêmaco, John Leguizamo como um guardador de porcos cego e o rapper Travis Scott interpretando um bardo.

O interesse do público já se refletiu na venda antecipada de ingressos. Nos Estados Unidos, sessões em IMAX começaram a se esgotar cerca de um ano antes da estreia.

A decisão de filmar toda a produção em IMAX trouxe desafios técnicos que exigiram adaptações inéditas. Segundo Nolan, ele e o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema trabalharam em parceria com a própria IMAX para desenvolver soluções capazes de tornar possível uma filmagem desse porte.

Entre elas está um sistema especial de isolamento acústico criado para reduzir o ruído produzido pelas enormes câmeras utilizadas durante as gravações.

A equipe também precisou recorrer ao uso de espelhos para conseguir manter contato visual durante determinadas cenas.

“Na metade das filmagens, Hoyte e eu olhamos um para o outro e percebemos: ‘É, isso vai dar certo’”, recorda.

Nolan afirma que mergulhou profundamente na obra de Homero antes de escrever o roteiro.

Segundo ele, leu diferentes traduções do poema até compreender que “A Odisseia” está presente, de alguma forma, em praticamente toda a sua filmografia.

“É o texto primordial.”

“Está presente em tudo o que fiz antes.”

Embora seja conhecido por construir narrativas complexas e não lineares, o diretor explica que seu processo de escrita segue um caminho bastante organizado.

“Não costumo escrever muitas versões.”

Antes de iniciar o roteiro definitivo, Nolan passa meses produzindo diagramas, esquemas e desenhos para estruturar toda a narrativa.

“Costumo pensar em termos geométricos, matemáticos. Faço muitos diagramas, muitos rabiscos e desenhos durante meses a fio antes de me permitir escrever.”

Depois disso, afirma que redige o roteiro praticamente de forma contínua.

“Começo na página 1 e sigo em frente.”

O fascínio por mundos imaginários acompanha Nolan desde a infância. Ele recorda que assistiu inúmeras vezes ao primeiro “Guerra nas Estrelas”, dirigido por George Lucas, experiência que despertou seu interesse pelo cinema.

“Sempre adorei esse aspecto do cinema, os filmes que levam você a um lugar completamente diferente.”

“Acho que vi umas 12 vezes no cinema quando era criança.”

“Para mim, aquilo representava a própria essência dessa mídia: criar um mundo inteiro que você consegue compreender e habitar, um mundo absolutamente diferente do cotidiano. Essa é a grande alegria do cinema.”

Durante a preparação de “A Odisseia”, Nolan também buscou inspiração em obras de grandes mestres. Entre elas estão “Andrei Rublev”, de Andrei Tarkovsky, e “Ran”, de Akira Kurosawa.

Segundo ele, principalmente a relação entre paisagem, natureza e personagens presente em Ran exerceu influência significativa sobre a linguagem visual do novo longa.

Embora seja frequentemente descrito como um diretor extremamente planejador, Nolan rejeita a ideia de que seu cinema seja conservador.

Para ele, a inovação representa justamente a forma mais segura de dialogar com o público.

“O maior risco de todos é optar pelo caminho seguro.”

Segundo o diretor, espectadores procuram experiências inéditas, e repetir fórmulas tende a aumentar, e não diminuir, o risco comercial de uma produção.

“O público busca algo novo.”

Ele lembra que enfrentou questionamentos semelhantes quando apresentou o roteiro de “Amnésia”, estruturado de trás para frente.

Na época, sua produtora e esposa, Emma Thomas, chegou a considerar o projeto arriscado.

“Ela reagiu bem ao roteiro, mas sentiu que envolvia muitos riscos.”

Nolan, porém, acreditava que justamente essa originalidade diferenciaria o filme.

“Há muitos cineastas capazes de fazer filmes de uma maneira mais convencional. Na verdade, trazer algo novo atenua o risco, permite que você se diferencie.”

Além do espetáculo visual, Nolan afirma que foi profundamente impactado pelas questões morais presentes na narrativa de Homero.

Segundo ele, um dos temas centrais do poema é a chamada “Lei de Zeus”, princípio relacionado à hospitalidade e ao acolhimento do estrangeiro.

“A grandeza do poema é tamanha que você encara esses elementos como algo estranho e antigo, mas, à medida que explora essas ideias, elas se tornam incrivelmente relevantes.”

Para o diretor, esse conceito permanece atual.

“A lei de Zeus é, na verdade, a Regra de Ouro: tratar o outro como você gostaria de ser tratado.”

Questionado sobre a principal mensagem ética do filme, Nolan preferiu não antecipar interpretações.

“Com certeza, 100%. Mas não quero verbalizar. Quero que as pessoas vivenciem através do filme.”

“Tenho sentimentos fortes sobre a história em termos éticos. Espero que o público tenha essa mesma sensação que tive.”

Recém-eleito presidente do Directors Guild of America (DGA), Nolan afirma que uma de suas prioridades será enfrentar a redução da produção audiovisual nos Estados Unidos.

Segundo ele, o setor televisivo vive uma retração prolongada desde 2016.

“Nós, diretores de séries de TV, estamos lidando com um índice de desemprego de 50% neste momento. É algo aterrador.”

Para reverter esse cenário, o cineasta defende incentivos fiscais federais capazes de estimular novamente as filmagens no País.

“Precisamos trazer a produção de volta para os Estados Unidos. Isso é muito, muito importante.”

Conhecido por continuar filmando em película, Nolan rejeita ser definido como um opositor da tecnologia.

Ele afirma utilizar recursos digitais constantemente, principalmente na pós-produção e nos efeitos visuais, mas considera importante preservar diferentes formas de produção cinematográfica.

“Me considero um cético em relação à tecnologia.”