A Venezuela enfrenta o agravamento da maior tragédia natural de sua história recente seis dias após os terremotos de magnitudes 7,2 e 7,5 que atingiram o norte do país. O número oficial de mortos chegou a 1.719, enquanto mais de 5 mil pessoas ficaram feridas e dezenas de milhares continuam desaparecidas. Com a redução das chances de encontrar sobreviventes sob os escombros, as operações de resgate passam gradualmente a concentrar esforços na recuperação de corpos, ao mesmo tempo em que cresce a pressão sobre um sistema de saúde já fragilizado por anos de crise econômica.
Desde os tremores, registrados na última semana, foram contabilizadas 609 réplicas, segundo o presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez. A mais intensa ocorreu na manhã de segunda-feira, com magnitude 4,2, provocando novo pânico entre moradores, mas sem registros de danos adicionais. Os dois abalos principais foram os mais fortes registrados no país em mais de um século e atingiram principalmente o estado costeiro de La Guaira, onde se concentra a maior parte das vítimas e dos desaparecidos.

A dimensão dos danos materiais ainda está sendo calculada e varia conforme a metodologia utilizada. Um levantamento preliminar elaborado pelos pesquisadores Jamon Van Den Hoek, da Universidade Estadual do Oregon, e Corey Scher, da Universidade da Cidade de Nova York, com base em imagens de satélite, estima que 58.870 edifícios possam ter sido destruídos ou danificados. Os autores ressaltam que o estudo não incorpora os efeitos provocados pelas centenas de réplicas registradas desde os primeiros tremores e representa uma avaliação inicial da mudança na superfície compatível com danos estruturais.
Outras instituições apresentam estimativas mais conservadoras. O programa europeu Copernicus identificou 434 edifícios completamente destruídos e outros 1.304 com indícios de danos. Já o Escritório das Nações Unidas para Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) calcula que aproximadamente 9.868 construções tenham sido afetadas. O governo venezuelano, por sua vez, reconhece oficialmente danos em 855 edificações, das quais 189 teriam desabado completamente.
Especialistas avaliam que a infraestrutura precária ampliou os efeitos da tragédia. Após mais de uma década de recessão econômica, hospitais, equipamentos públicos e estruturas de emergência operavam com limitações antes mesmo do desastre. A escassez de escavadeiras, tratores e outros equipamentos pesados reduziu a velocidade das buscas, obrigando moradores e voluntários a assumirem parte significativa das operações de resgate.
“O número oficial continuará baixo até que todos os corpos sejam retirados dos escombros”, afirmou Emily So, professora de Engenharia da Universidade de Cambridge, em entrevista ao The New York Times. Segundo a pesquisadora, o colapso de edifícios de concreto armado torna praticamente impossível uma operação eficiente sem maquinário especializado. Outro especialista, Ilan Kelman, da University College London, afirmou que “nenhum edifício deveria ter desabado”, argumentando que o conhecimento atual em engenharia sísmica permite construir estruturas capazes de resistir a terremotos dessa magnitude.
A tragédia também expôs o colapso do sistema de saúde venezuelano. Em La Guaira, apenas um hospital permanece funcionando integralmente, enquanto outras unidades sofreram danos estruturais ou operam parcialmente. Muitos pacientes passaram a receber atendimento em áreas abertas devido ao risco de novos desabamentos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), hospitais enfrentam superlotação, acúmulo de cirurgias e falta de profissionais, especialmente em obstetrícia, além do risco crescente de surtos de doenças infecciosas entre os desabrigados.
Relatos de profissionais de saúde apontam falta de água corrente, obrigando médicos a higienizar as mãos com soro fisiológico, além da escassez de produtos de limpeza, macas, álcool para desinfecção, sacos para cadáveres e câmaras frigoríficas. Em alguns casos, portas de madeira passaram a ser utilizadas como macas improvisadas, enquanto caminhonetes de órgãos públicos substituem veículos funerários para o transporte dos mortos.
Segundo o governo, cerca de 12 mil pessoas perderam suas casas, mas organismos internacionais trabalham com estimativas superiores. A Organização Internacional para as Migrações calcula que mais de 6,7 milhões de venezuelanos possam ser impactados direta ou indiretamente pelo desastre. O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) informou que aproximadamente 680 mil crianças necessitam de assistência humanitária e que mais de 400 escolas foram destruídas. A ONU estima prejuízos econômicos de US$ 6,7 bilhões, equivalentes a cerca de 6% do Produto Interno Bruto venezuelano.
As operações de resgate seguem mobilizando cerca de 25 mil agentes venezuelanos e aproximadamente 2,7 mil socorristas enviados por duas dezenas de países. Ainda assim, moradores denunciam demora na chegada da ajuda oficial e afirmam que grande parte das vidas salvas nos primeiros dias resultou da atuação espontânea da própria população. Em diversos bairros de La Guaira, máquinas interrompem o trabalho repetidamente para que equipes tentem identificar possíveis pedidos de socorro sob os escombros.
Além da destruição física, cresce a insatisfação popular. Moradores relatam falta de água, interrupções no fornecimento de energia elétrica e restrições de acesso às áreas atingidas após a militarização da região. “Somos nós mesmos que fazemos tudo. Nós mesmos nos ajudamos e confiamos em Deus”, afirmou a moradora Dayana Lean, de 51 anos.
No cenário internacional, os Estados Unidos anunciaram a ampliação da ajuda humanitária destinada à Venezuela para US$ 300 milhões, com os recursos sendo direcionados a organizações humanitárias que atuam no país, e não ao governo venezuelano. A comunidade internacional também ampliou o envio de equipes de resgate, medicamentos, equipamentos médicos e suprimentos básicos para atender à população afetada.