Conhecido por filmes marcados por intensidade emocional e conflitos sociais, o cineasta alemão de origem turca Fatih Akin apresenta uma abordagem mais clássica ao contar a história de um menino que enfrenta o colapso do Terceiro Reich enquanto descobre, pouco a pouco, as contradições da própria família.
Conhecido por filmes intensos e emocionalmente contundentes, o diretor alemão de origem turca Fatih Akin surpreende em seu novo trabalho ao optar por uma narrativa mais clássica e acessível. Em Uma Infância Alemã, recém-lançado nos cinemas brasileiros, o cineasta abandona momentaneamente o estilo mais áspero de produções como Contra a Parede (2004), vencedor do Urso de Ouro no Festival de Berlim, e Em Pedaços (2017), que garantiu a Diane Kruger o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes, para construir uma história sobre infância, memória e culpa durante os dias finais da Segunda Guerra Mundial.

O longa acompanha Nanning, interpretado por Jasper Billerbeck, um menino que vive na Ilha de Amrum, localizada na região da Frísia, no norte da Alemanha, território que preserva até hoje um idioma próprio. Enquanto o país enfrenta o colapso do regime nazista, o garoto tenta lidar com as consequências da guerra dentro da própria casa.
Seu pai é oficial do regime nazista e está distante, enquanto a mãe enfrenta uma profunda depressão após o nascimento de um bebê. O agravamento do estado emocional coincide com a notícia do suicídio de Adolf Hitler, fato que simboliza o fim iminente do Terceiro Reich. Sensível ao sofrimento da mãe, Nanning decide buscar uma forma de alegrá-la.
A missão escolhida parece simples, mas revela a devastação provocada pelo conflito. O menino tenta conseguir pão branco, manteiga e mel, alimentos praticamente inexistentes em uma Alemanha marcada pela escassez. Para cumprir esse objetivo, ele enfrenta uma série de obstáculos, desde as dificuldades impostas pela maré, que isola parte da ilha, até a convivência com um tio emocionalmente instável, também oficial nazista, que talvez possa ajudá-lo.
Ao longo da jornada, Nanning também precisa enfrentar a hostilidade de moradores da região. Muitos conhecem a ligação de sua família com o nazismo e já não escondem o cansaço diante de um regime que levou o país à destruição. Ainda assim, o menino preserva a inocência típica da infância, observando aos poucos as contradições do mundo adulto.
A estrutura narrativa aproxima Uma Infância Alemã de obras que transformaram o olhar infantil em instrumento para abordar acontecimentos históricos complexos. Entre as referências estão Ladrões de Bicicleta (1948), de Vittorio De Sica, Onde Fica a Casa do Meu Amigo? (1987), de Abbas Kiarostami, e O Balão Branco (1995), de Jafar Panahi, filmes que tratam grandes dramas por meio da perspectiva das crianças.
Embora o filme tenha conquistado o público alemão e registrado bom desempenho nas bilheterias, sua origem está ligada a uma história pessoal. O projeto nasceu a partir de um pedido feito por Hark Bohm, cineasta, roteirista e colaborador frequente de Fatih Akin. Bohm, que trabalhou ao lado de nomes como Rainer Werner Fassbinder, Wim Wenders e Werner Herzog e dividiu a autoria do roteiro de Em Pedaços, enfrentava problemas de saúde quando pediu ao antigo aluno que assumisse a direção da produção.
O veterano morreu em novembro de 2025, poucos meses após a estreia mundial do longa no Festival de Cannes, sem conseguir acompanhar toda a trajetória internacional da obra. Durante participação em uma mesa-redonda em Cannes, com presença do Estadão, Fatih Akin explicou a importância que Bohm teve em sua formação artística.
“Ele é um ícone do cinema alemão, mas sempre foi um outsider porque fazia muitas produções sobre crianças”, disse o cineasta. A influência começou ainda na adolescência. Segundo Akin, assistir ao filme Yasemin, lançado por Bohm em 1988, mudou completamente sua forma de enxergar o cinema alemão.
“Hark Bohm fez um filme em 1988 chamado Yasemin, que me fez querer ser um cineasta alemão. Porque até então eu achava que precisava ir para Hollywood. Mas ele rodou na minha rua, com personagens turcos, e eu fiquei bravo com a maneira como ele os retratou. Eu era adolescente e pensei: Vou me tornar diretor e fazer melhor. Portanto, ele me influenciou muito, e depois nos tornamos amigos.”
A relação entre mestre e discípulo também foi determinante para o nascimento de Uma Infância Alemã. Inicialmente, Bohm pretendia dirigir um filme sobre Konrad Morgen, oficial da SS encarregado de investigar casos de corrupção dentro da organização nazista. O projeto, porém, acabou inviabilizado por falta de financiamento.
Segundo Akin, os custos elevados e a resistência de produtores e órgãos públicos em investir em uma história centrada em um integrante do regime nazista fizeram com que o projeto fosse abandonado. Curioso com o interesse do amigo pelo tema, Akin perguntou por que Bohm insistia naquela narrativa. “Ele respondeu: Minha mãe era nazista, meu pai era nazista, mas eu os amo porque eles são meus pais. Por isso eu queria fazer esse filme”, relatou Akin.
Foi então que o diretor sugeriu que Bohm abandonasse a história sobre Konrad Morgen e escrevesse algo inspirado em sua própria infância. O cineasta recordava o momento em que viu o pai ser preso na Ilha de Amrum ao fim da guerra. “Temos Roma (de Alfonso Cuarón), Belfast (de Kenneth Branagh) e Os Fabelmans (de Steven Spielberg), todos sobre infância. Eu disse a ele que deveria fazer um filme sobre a sua.”
O resultado é um protagonista que carrega uma das principais contradições da narrativa. Nanning cresce dentro de uma família comprometida com um regime responsável por crimes históricos, mas conserva um senso de humanidade que o leva a perceber, pouco a pouco, que seus pais apoiavam o lado errado da história. Mesmo assim, o afeto que sente por eles permanece intacto.
Apesar de ter incentivado a criação do roteiro, Fatih Akin admite que hesitou antes de aceitar a direção do projeto. Conhecido por desenvolver obras bastante autorais, ele temia assumir um filme cuja origem estava na memória de outra pessoa. “Você vai gastar muito dinheiro, trabalhar bastante e viver com esse filme o resto da sua vida”, disse.
A decisão definitiva veio após uma conversa durante um almoço em Cannes com Thierry Frémaux, diretor artístico do festival, e outros dois cineastas franceses. Ao ouvir as dúvidas de Akin, ambos recomendaram que ele aceitasse o desafio. “Eles me disseram para fazer. Que, mesmo sem ter uma conexão pessoal com o material, eu a encontraria no caminho.”
Segundo o diretor, foi exatamente isso que aconteceu. Para construir sua abordagem, ele buscou inspiração em aventuras juvenis como Conta Comigo (1986), de Rob Reiner, e nos romances de Mark Twain, utilizando a jornada infantil como eixo central da narrativa.
Outro aspecto que aproximou Akin do projeto foi o contexto político europeu. Embora a decisão de Bohm de contar essa história não tenha sido motivada pelo crescimento recente da extrema direita no continente, o lançamento do filme coincidiu com esse cenário.
Filho de imigrantes turcos que chegaram à Alemanha apenas após a Segunda Guerra Mundial, Akin afirma que, durante muito tempo, acreditou não carregar responsabilidade direta pelo passado nazista do país. Essa percepção mudou durante a realização de O Corte (2014), longa sobre o genocídio armênio promovido pelo Império Otomano.
“Antes, eu pensava: O Holocausto não é culpa minha, esse trauma não está no meu DNA, os alemães que lidem com isso”, afirmou. “Mas, quando fiz O Corte (produção de 2014 sobre o genocídio armênio perpetrado pelo Império Otomano), aprendi que o Holocausto foi apenas outro genocídio. Então não importa se foram os alemães que fizeram com os judeus e os turcos com os armênios. Humanos fizeram contra outros humanos. E eu sou humano. Por isso, me sinto responsável. É fácil se isentar da responsabilidade, é como uma fuga. Mas é responsabilidade de todos nós.”
Akin também acredita que sua própria trajetória pode ter influenciado o tom adotado na obra. Ao comparar seu trabalho com A Fita Branca (2009), de Michael Haneke, ele observa diferenças na forma de representar a infância e a violência.
“Não sei dizer. Por exemplo, em A Fita Branca (longa de 2009 de Michael Haneke que se passa na Alemanha no começo do século 20, captando a atmosfera que ocasionou as duas guerras mundiais), as crianças são horríveis desde o princípio. Em seu cinema, Haneke cria um mundo sem amor. Eu não o critico por isso, mas tenho uma atitude diferente, porque sou outra pessoa, de outra época. Se isso tem a ver com minha ascendência ou com meus pais, não sei. Precisaria ir ao analista para descobrir.”