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Vagner Araújo

Titina, Tânia, Kaiony e Alice: o RN no palco da vida e da arte

Confira o artigo de Vagner Araújo desta terça-feira 13
Vagner Araújo
13/01/2026 | 05:37

Titina Medeiros partiu cedo demais. Aos 48 anos, vencida por um câncer de pâncreas, ela deixa um vazio que não cabe em nota de pesar nem em post de rede social. Para o Rio Grande do Norte, a perda tem um gosto ainda mais amargo: perdemos uma das raras artistas capazes de atravessar, com autenticidade, o caminho estreito que liga o palco potiguar às telas do país inteiro.

Nascida em Currais Novos mas criada em Acari, Titina foi, antes de tudo, uma atriz de teatro – dessas que aprendem no corpo, no suor e no riso do público. Foi nessa escola, no grupo Clowns de Shakespeare, que ela construiu presença, tempo cômico e uma coragem de cena que a televisão não ensina. Quando a TV a “descobriu”, em Cheias de Charme, o Brasil conheceu a Socorro: barulhenta, afiada, humana. A partir dali, vieram novos papéis, de Geração Brasil a Mar do Sertão e No Rancho Fundo, sempre com aquele tempero de quem não faz “tipo”, faz gente.

Titina Medeiros, atriz — Foto: Luana Tayze
Titina, Tânia, Kaiony e Alice: o RN no palco da vida e da arte - Foto: Reprodução

Quem viu Titina em cena lembra que ela era, ao mesmo tempo, popular e sofisticada: fazia gargalhar sem infantilizar ninguém, e emocionava sem pedir desculpas por ser do interior. Não por acaso, colegas a descrevem como luz e presença por inteiro. Em um estado que raramente exporta talentos e importa reconhecimento, ela foi motivo de orgulho — uma conterrânea brilhando sem renegar o sotaque.

Por uma dessas ironias do destino, no mesmo domingo em que Natal velava Titina no Teatro Alberto Maranhão, três atores potiguares — Tânia Maria, Kaiony Venâncio e Alice Carvalho — estavam, em Los Angeles, celebrando um Globo de Ouro histórico para O Agente Secreto. Tânia Maria, assim como Titina uma seridoense carismática, artesã que virou atriz já na terceira idade, lembra que talento não tem prazo de validade: ele só precisa de chance. Kaiony e Alice, por sua vez, simbolizam uma nova geração que não pede licença; ocupa.

Talvez esta seja a lição final de Titina: o RN não é margem cultural por destino, mas por escolhas. Com política pública, formação, apoio e financiamento, a gente vai além de “descobrir” talentos por acaso e passa a produzi-los por projeto. Titina brilhou. Agora, cabe a nós eternizar seu legado – e garantir que o próximo brilho não dependa de sorte, e sim de compromisso.