Há personagens da ficção que atravessam o tempo porque continuam servindo de metáfora para a política brasileira. Poucos são tão emblemáticos quanto Odorico Paraguaçu, o prefeito de Sucupira criado por Dias Gomes em O Bem-Amado.
Demagogo, mestre dos discursos grandiloquentes e obcecado por inaugurações, Odorico transformou a construção de um cemitério em sua principal bandeira administrativa. O destino lhe pregou uma ironia: o primeiro a ser sepultado no cemitério foi ele próprio.

É justamente essa imagem que o ex-deputado estadual Wober Júnior resolveu resgatar para mirar o ex-prefeito de Natal Álvaro Dias. Em entrevista ao Contraponto, da 96 FM, o dirigente do Cidadania comparou Álvaro a Odorico Paraguaçu e fez um dos ataques mais duros já desferidos contra o pré-candidato do PL.
Classificou-o como despreparado, sem compromisso com o Rio Grande do Norte nem com a boa administração pública, afirmou que ele enganou a população por muito tempo e definiu uma eventual aliança da federação PSDB/Cidadania com o ex-prefeito como um erro fatal e um escárnio para o Estado.
A analogia vai além da simples provocação. Ela tenta cristalizar uma narrativa que os adversários de Álvaro pretendem explorar durante toda a campanha: a do gestor que anuncia mais do que entrega. Não por acaso, o Hospital Municipal de Natal e outras intervenções da capital têm ocupado lugar central nesse discurso.
O episódio também revela outro ingrediente da eleição. Wober influencia os rumos do Cidadania no Rio Grande do Norte, partido federado ao PSDB, justamente quando o presidente da Assembleia Legislativa, Ezequiel Ferreira de Souza, avalia as opções da legenda entre os palanques de Álvaro Dias e Cadu Xavier. Ou seja, a crítica não parte apenas de um adversário externo, mas de alguém que integra a mesma federação partidária que poderá ser chamada a apoiar o ex-prefeito.
Na política, personagens de ficção costumam reaparecer quando alguém consegue enxergar neles uma caricatura do presente. Wober insinua que Odorico Paraguaçu pode voltar aos palanques quase 50 anos depois — desta vez, não em Sucupira, mas na disputa pelo Governo do Rio Grande do Norte.
Sampa
O PL confirmou para o dia 25 de julho, em São Paulo, a convenção nacional que oficializará a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República. O evento será realizado na Arena Pacaembu. Na ocasião, o partido também homologará as candidaturas aos governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às assembleias legislativas.
Jaburu
Um detalhe chama atenção: a menos de um mês do início da campanha, Flávio Bolsonaro ainda não anunciou quem será o vice na chapa. Tudo leva a crer que será uma mulher com forte presença no meio evangélico. Não, não é Michelle. Os dois não se bicam.
O Conto da Aia
Por falar em Michelle, a ex-primeira-dama não perdeu o juízo nem rasga dinheiro. Segundo a CNN Brasil, com o aval de Jair Bolsonaro, ela deverá oficializar a candidatura ao Senado pelo Distrito Federal. O ex-presidente apenas pediu que Michelle evitasse manifestações públicas para não ampliar o desgaste familiar.
Devo, não nego
Paulinho Freire encaminhou à Câmara Municipal um projeto de lei que cria um novo modelo de negociação de dívidas entre a Prefeitura do Natal e contribuintes. A proposta institui a chamada transação resolutiva de litígios, permitindo acordos para débitos tributários e não tributários, inclusive os que já estão nas esferas administrativa ou judicial. O texto prevê descontos sobre multas e juros, parcelamento em até 120 meses e, em casos específicos, redução de até 80% do débito.