Em meio a um ambiente político em que muitos preferem se esconder atrás de frases calculadas e posicionamentos ambíguos, chama a atenção a declaração do ex-prefeito de Natal Álvaro Dias de que não se considera “bolsonarista”. Não é um posicionamento simples, ainda mais se tratando de um pré-candidato ao Governo do Estado que acabou de receber o apoio do PL, epicentro do segmento mais radical da direita.
Diante da força eleitoral de seu maior líder, o bolsonarismo sequestrou pautas da direita nos últimos anos. Mas há muito tempo o movimento extrapolou os ideais do campo conservador legítimo e passou a conviver — e em muitos momentos a estimular — práticas e discursos que afrontam princípios básicos da democracia liberal. O País saiu da polarização saudável e partiu para ações como desqualificação sistemática das instituições, flerte recorrente com o autoritarismo, intolerância ao contraditório, ataque à imprensa, desconfiança em relação à ciência e transformação da política em guerra cultural permanente. Existe um núcleo duro do bolsonarismo que opera pela lógica do conflito, da exclusão e da simplificação grosseira da realidade.

Ao recusar o rótulo, é esse pacote que Álvaro Dias rejeita ao recusar o rótulo. Em situações como a atual, o caminho mais previsível seria o alinhamento pleno ao bolsonarismo, não apenas como estratégia eleitoral, mas como gesto simbólico de pertencimento. Álvaro fez o oposto: separou o apoio político do enquadramento ideológico.
No Brasil de hoje, ser bolsonarista não significa apenas ter apoiado do ex-presidente Jair Bolsonaro em determinado momento. Trata-se de um movimento identitário, que exige lealdade integral, adesão simbólica e linguagem própria. Ao dizer que não é bolsonarista, Álvaro sinaliza ao eleitorado potiguar que não pretende, se eleito, governar a partir do radicalismo, nem se submeter a uma pauta ideológica que ignora as complexidades reais da gestão pública.
A escolha ganha ainda mais peso quando se observa o tabuleiro eleitoral. De um lado, Cadu Xavier, candidato do PT, sustentado pelo capital político do presidente Lula e da governadora Fátima Bezerra. De outro, Allyson Bezerra, do União Brasil, amparado por forças de centro, inclusive o MDB. Diante desse cenário, seria natural que Álvaro buscasse consolidar, sem ruídos, o eleitorado bolsonarista. Não o fez. Preferiu assumir o risco.
Essa postura é coerente com sua trajetória. Álvaro Dias nunca foi um político de extremos. Médico formado pela UFRN, iniciou sua vida pública ainda jovem no antigo PMDB, partido de centro que liderou a transição democrática. Foi vice-prefeito de Caicó, deputado estadual por cinco mandatos, deputado federal e vice-prefeito de Natal antes de assumir a prefeitura da capital em 2018. No Congresso Nacional, filiou-se ao PDT, partido historicamente associado ao trabalhismo, ao nacional-desenvolvimentismo e ao respeito às instituições, inspirado na tradição de Leonel Brizola. Trata-se de uma plataforma política incompatível com o radicalismo que passou a dominar parte da direita brasileira nos últimos anos.
É verdade que, como prefeito de Natal, Álvaro manteve relação institucional próxima com o governo Bolsonaro, especialmente durante o período mais crítico da pandemia da Covid-19. Houve liberação de recursos federais, apoio técnico, viabilização de hospital de campanha, capacitação de profissionais e aquisição de insumos. Grande parte dessa articulação se deu por meio de Rogério Marinho, então ministro do Desenvolvimento Regional. Reconhecer esse apoio é gesto de honestidade administrativa — não de alinhamento ideológico. Gratidão não implica submissão.
A coerência dessa posição encontra respaldo nos dados. Pesquisa do Instituto Exatus, divulgada em novembro de 2025, mostra que 44,11% do eleitorado potiguar se identifica como “independente”, proporção superior à soma dos que se dizem de direita (24,45%) e de esquerda (17%). Quando questionados sobre o perfil desejado para o próximo governador, 56,63% afirmaram preferir um candidato independente. Os números indicam, de forma inequívoca, fadiga com a polarização e rejeição aos extremos.
Nesse contexto, a declaração de Álvaro não soa como improviso nem oportunismo, mas como leitura consciente de cenário. Ao afirmar que não é bolsonarista, ele não rompe com aliados, mas sinaliza que não pretende governar a partir de trincheiras ideológicas. Assume o risco de desagradar setores mais radicalizados em nome de um discurso que dialoga com a maioria silenciosa do eleitorado — aquela que rejeita tanto o lulismo quanto o bolsonarismo como identidades fechadas.
Em tempos em que muitos candidatos preferem dizer o que convém, Álvaro disse o que é. Pode perder votos? Sim. Mas pode ganhar algo cada vez mais escasso na política brasileira: credibilidade, previsibilidade e coerência. Num Rio Grande do Norte cansado dos extremos, isso talvez não seja fraqueza. Talvez seja, justamente, o diferencial.