Trabalhei por quase um ano no sistema Petrobras, entre 2023 e 2024. O último cargo que exerci foi de Assessor da Presidência, a convite do então CEO Jean Paul Prates. A principal missão dada por ele era conduzir articulações internas e externas, inclusive junto ao Congresso, à Casa Civil e ao MDIC, para retomada da indústria naval no Brasil, com elevação do conteúdo local. O plano de investimentos da empresa previa grande demanda para essa área e, desde a pandemia, tornou-se estratégico ter cadeia de suprimento o mais próximo possível para todas as grandes companhias.
O desafio não era simples. Havia um marco regulatório adverso, resquícios de problemas judiciais associados à chamada Lava Jato e, sobretudo, um cenário de desmobilização, descapitalização e baixa competitividade da indústria brasileira diante da tecnologia avançada e dos preços agressivos do mercado asiático. Um dos caminhos possíveis era trazer esses players para produzir no Brasil, estimulando parcerias com empresas locais e transferência tecnológica, o que começamos a fazer promovendo de um primeiro encontro internacional em Houston, junto com o IBP.

Para tratar esse conjunto de temas de forma integrada, com segurança jurídica, confiabilidade técnica e financeira e sustentabilidade econômica, preparamos um plano estruturado. Dei-me à ousadia de batizá-lo, provisoriamente, de “Mar de Oportunidades”. Jean Paul chegou a apresentá-lo ao presidente Lula e aguardava a confirmação de agenda do Planalto para o lançamento quando foi surpreendido por sua saída da companhia.
O programa era ambicioso e abrangente. Englobava iniciativas da Petrobras e de suas subsidiárias, como a Transpetro, voltadas à economia do mar, incluindo a indústria naval, a logística marítima, terminais para hidrogênio verde e projetos de eólicas offshore, compondo uma visão estratégica de longo prazo.
Passados dezoito meses da nossa saída, qual não foi nossa surpresa ao constatar que a Petrobras lançou o programa que deixamos pronto. Manteve o conceito e a lógica estruturante, fazendo apenas um pequeno ajuste no nome, rebatizando-o como “Mar Aberto”.
A passagem pela alta gestão da maior empresa da América Latina foi um marco profissional relevante. Houve aprendizado intenso, senso de responsabilidade e profunda gratidão pela confiança concedida por Jean Paul Prates – e pela acolhida de toda a equipe. Mais importante ainda é perceber que as sementes plantadas estão florescendo, sendo aproveitadas pela gestão que nos sucedeu.
Estávamos no caminho certo. Mesmo as mudanças anunciadas como correções de rumo acabaram, na prática, confirmando que aquela agenda estratégica implementada por Jean Paul estava correta. Em mar aberto a oportunidades, bons projetos resistem às trocas de comando.