Mossoró é uma cidade feita de camadas. De histórias contadas, de silêncios prolongados, de espaços que resistem ao tempo e de outros que se transformam todos os dias. É a partir dessa complexidade que nasce Mossoró Por Todos os Lados, documentário que estreia nesta quarta-feira 28, no Cafezal do Memorial da Resistência, em sessão gratuita e aberta ao público.
Com linguagem jornalística e estética cuidadosamente construída, o filme convida o espectador a observar Mossoró por uma perspectiva ainda pouco explorada na produção audiovisual local: o olhar aéreo. Mas o ponto de vista elevado não cria distanciamento. Pelo contrário, aproxima. “Quando você muda o seu olhar, descobre novas paisagens, novas arquiteturas, novos desenhos de um mesmo lugar”, explica a diretora e apresentadora Luiza Gurgel.

O documentário percorre espaços simbólicos da cidade, como o Mercado Público, museus, bibliotecas, teatros, a Ponte Ferroviária e o Memorial da Resistência. Ao longo desse trajeto, a narrativa costura cultura, gastronomia, turismo e história, revelando uma Mossoró que se constrói no cotidiano, mas que nem sempre é percebida. “A gente passa pelo centro da cidade todos os dias e não vê certas informações que estão ali”, provoca Luiza.
A condução da narrativa se assemelha a uma grande reportagem audiovisual. É a própria diretora quem apresenta, contextualiza e dialoga com personagens pontuais, escolhidos para aprofundar temas específicos. Ainda assim, o filme escapa do tom didático. O equilíbrio entre informação, estética e sensibilidade vem da arte. “Só consigo fazer esse equilíbrio porque a arte é a norteadora do meu trabalho”, afirma.
Mossoró Por Todos os Lados também se propõe a tensionar memórias oficiais. Ao abordar temas como a abolição da escravatura, o filme questiona quem narrou a história da cidade e quem ficou à margem desse discurso. “A abolição sempre foi contada por pessoas que não sofreram aquilo”, lembra a diretora, ao defender a revisão crítica do passado como ferramenta para pensar o futuro.
A escolha pelo Memorial da Resistência como espaço de exibição amplia o significado da obra. O filme retorna à cidade e ocupa o espaço público. Antes da sessão, haverá um bate-papo sobre direito à memória, história e identidade urbana, além de uma exposição com registros dos lugares visitados. Para Luiza, o debate é indispensável. “A cidade não é só geografia. É um ambiente de transformação social, política, cultural e histórica.”
Mais do que um retrato urbano, o documentário se consolida como um gesto de pertencimento. Um convite para olhar Mossoró de forma mais ampla, crítica e sensível – por cima, por dentro e por todos os lados.
Luiza Gurgel
Antes de ser jornalista, cineasta ou documentarista, Luiza Gurgel se reconhece como artista. “Sou artista antes de absolutamente qualquer coisa na minha vida”, afirma. Essa identidade não surge por acaso. Vem de uma herança familiar profundamente ligada à cultura potiguar, da música à literatura, do rádio à história oral.
Desde a infância, Luiza transita por diferentes linguagens. A dança foi o primeiro território, seguida pelo teatro, pela produção cultural, pela música e pela escrita. O jornalismo chega em 2016, com a graduação em Comunicação Social na UERN, e transforma sua relação com a arte. “Ali eu descobri uma outra paixão, tão forte quanto a arte, que é a comunicação”, recorda.
É na universidade pública que Luiza encontra o audiovisual como campo de atuação. O contato com câmeras, narrativas e a noção de registro desperta uma compreensão mais profunda sobre o papel da imagem na preservação da memória. “Hoje, a comunicação e a arte caminham juntas na minha vida”, diz. Seus trabalhos passam por documentários, curtas de ficção, videoclipes e produções autorais, sempre atravessados por uma dimensão educativa.
Embora tenha nascido em Natal, foi em Mossoró que construiu sua identidade. “O que eu sou é atravessado pelo fato de morar em Mossoró, de morar no interior do Rio Grande do Norte, de ser nordestina.” A cidade aparece como eixo central de sua produção artística, seja no livro Nosso Chão, a Terra que Brota Cultura, seja na série jornalística Meu Palco, ou agora em Mossoró Por Todos os Lados.
Como mulher no audiovisual e no jornalismo, Luiza reconhece os desafios. “A pergunta sobre se é possível se sustentar sendo mulher e artista ainda é muito presente, mesmo quando não é dita”, observa. Ainda assim, ela entende o trabalho autoral como forma de ocupação de espaços. “Aos poucos, a gente vai furando essas bolhas e mostrando que os espaços também são nossos.”
Para Luiza, o audiovisual é documento. “O audiovisual tem um papel fundamental na preservação da memória da cidade, porque vira um registro do nosso tempo”, defende. Registrar, para ela, é uma forma de cuidado coletivo, uma ferramenta de transformação social.
Ao apostar na democratização do acesso ao cinema e à produção local, Luiza reafirma esse compromisso. “Democratizar o acesso ao cinema é dar às pessoas o que já é delas”, diz. “Quando uma criança vê alguém da própria cidade fazendo cinema, ela se sente capaz de fazer o mesmo.”
Entre arte, jornalismo e educação, Luiza Gurgel constrói uma trajetória que não separa criação e território. Seu trabalho parte da cidade, retorna a ela e permanece como memória viva – em constante movimento, assim como Mossoró.