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Cultura

Fotolivro retrata a pesca artesanal e a memória das comunidades no RN

Fotógrafa Malu Didier fala sobre o fotolivro Enquanto Houver Maré, resultado de uma imersão em comunidades pesqueiras do litoral Norte potiguar e de um trabalho que aproxima fotografia, memória e modos de vida tradicionais
Por Nathallya Macedo, O Correio de Hoje
22/07/2026 | 15:41

A pesca artesanal ocupa o centro das fotografias de Malu Didier, mas o mar não é o único protagonista de Enquanto Houver Maré. Construído a partir da convivência com comunidades de Rio do Fogo, Maxaranguape e Touros, o fotolivro transforma o cotidiano da pesca em um registro sobre memória, território e modos de vida tradicionais.

Em entrevista ao podcast Cultue, a fotógrafa contou que a proposta inicial era compreender melhor a pesca artesanal. Ao longo das visitas, no entanto, o projeto passou a olhar para algo mais amplo: a forma como essas comunidades constroem sua relação com o lugar onde vivem.

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Durante a produção do livro, Malu Didier conviveu com pescadores e moradores dos municípios de Rio do Fogo, Maxaranguape e Touros

“Eu entendi realmente a grandiosidade dessa atividade, não só como um ofício, não só como uma atividade econômica, um trabalho, mas é uma forma de se relacionar com o território. É um modo de existir.”

Segundo Malu, a pesca artesanal ocupa um papel central na identidade das comunidades tradicionais das águas e precisa ser observada para além da produção econômica.

“A pesca artesanal, sendo povos das águas, povos tradicionais, realmente está num lugar formador da identidade. Então, essa é uma coisa muito grandiosa que a gente não pode esquecer nunca de olhar com a devida atenção.”

Memória e território

O título do fotolivro foi pensado desde o início do projeto. A ideia, explica a fotógrafa, era construir uma obra que dialogasse com a permanência da maré e com a capacidade da água de guardar histórias.

Enquanto Houver Maré faz referência a algo que existia antes da presença humana e continuará existindo depois dela.

“A maré é algo muito além da gente. Ela existe há bilhões de anos e vai existir muito depois da gente já ter ido embora. A água lembra de tudo. Então, enquanto houver maré, haverá memória, haverá história para contar.”

Rio do Fogo, Maxaranguape e Touros foram os municípios escolhidos porque integram a área de preservação dos recifes de coral do litoral Norte potiguar.

Segundo Malu, a intenção era mostrar que a conservação ambiental também passa pelo reconhecimento das comunidades que vivem nesses territórios.

“A gente fala muito em preservação, mas é um cuidado constante. Quando a gente pensa a pesca artesanal como um modo de vida tradicional, a gente pensa como um aliado da conservação da natureza, do meio ambiente, dos bancos de coral.”

Para ela, os pescadores artesanais fazem parte da preservação desse ambiente justamente por manterem uma relação histórica com o território.

Malu também relacionou o projeto às discussões sobre mudanças climáticas. Ela observou que os eventos extremos atingem principalmente populações mais vulneráveis e defendeu que as comunidades tradicionais oferecem referências importantes para pensar formas mais sustentáveis de convivência com a natureza.

Na avaliação da fotógrafa, pensar o futuro exige olhar para conhecimentos que atravessam gerações.

“Se a gente pensa em um futuro possível, a gente precisa aprender a forma que esses povos se relacionam com a natureza, se pensando enquanto parte da natureza, e não enquanto o ser humano dissociado daquilo. (…) A gente só pode falar de justiça climática quando para para pensar que o futuro é ancestral.”

Juventude e fotografia

A participação de crianças e adolescentes também se tornou parte do projeto. A ideia surgiu depois que Malu ouviu, durante as visitas às comunidades, que muitos jovens já não demonstravam interesse pela pesca artesanal.

Em vez de discutir apenas a continuidade do ofício, ela decidiu apresentar a fotografia como outra forma de aproximação com esse universo.

“A fotografia é um meio que me aproxima da minha cultura, da minha realidade. Pensei justamente em criar uma formação para aproximar a juventude desses territórios da atividade.”

Mesmo que os jovens não escolham a pesca como profissão, a fotógrafa acredita que eles podem fortalecer o vínculo com a própria comunidade.

“A pesca é toda uma engrenagem social dessas comunidades.”

Entre todas as imagens do fotolivro, uma ocupa um lugar especial para a fotógrafa. A fotografia mostra três meninos correndo na praia em Rio do Fogo. Foi naquele momento, conta Malu, que ela encontrou o caminho que guiaria toda a narrativa do projeto.

Enquanto buscava identificar as crianças para conseguir a autorização de uso das imagens, ouviu de um morador que elas não estavam brincando.

“Uma pessoa disse: ‘Eles não estão brincando. Eles estão trabalhando’.”

A frase levou a fotógrafa a rever sua própria interpretação da cena.

“Quando eu vi que a brincadeira se aproximava muito do ofício, eu pensei onde é exatamente essa linha entre o trabalho e a brincadeira.”

Foi a partir desse episódio que ela passou a compreender a pesca artesanal como algo presente em todas as dimensões da vida comunitária.

“Tudo envolve o universo pesqueiro. A brincadeira, o lúdico, a fé. Tudo vai envolver. É muito além da economia.”

O olhar da fotografia

Malu afirmou que toda fotografia também revela quem está atrás da câmera. Mesmo trabalhando com fotojornalismo, ela acredita que cada escolha de enquadramento, de tema ou de momento carrega aspectos da experiência do fotógrafo.

“Cada escolha da fotografia da gente carrega um pouco da gente.”

Para ela, esse olhar é acessível a qualquer pessoa.

“A gente tem a câmera fotográfica na palma da nossa mão. O que a gente escolhe fotografar, o que a gente escolhe mostrar, diz muito sobre a gente. Só a gente pode tirar a fotografia do nosso ponto de vista.”

Malu afirmou que a imagem estática perdeu espaço diante da expansão do vídeo, mas considera esse movimento parte das transformações naturais das linguagens.

Ela defende, porém, que o setor precisa criar oportunidades para novos profissionais.

“Abram para novos artistas, para a experimentação, para novas pessoas, novos talentos, novas linguagens.”

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A obra revela como comunidades de Rio do Fogo, Maxaranguape e Touros mantêm uma relação profunda com o mar e a natureza

Disponibilidade

Realizado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc, Enquanto Houver Maré está disponível gratuitamente em formato digital e conta com audiodescrição parcial das imagens.

Segundo Malu, o projeto cresceu durante a produção, o que impossibilitou que toda a obra recebesse acessibilidade nesta primeira edição. A expectativa é ampliar esse trabalho em futuras versões e concluir também uma tiragem impressa.

“O livro digital está disponível para acessar gratuitamente. Mande para quem você acha que vai gostar. Eu espero vê-lo em muitas bibliotecas, em muitas casas, em muitas mãos.”

Ela disse ainda que espera que o livro desperte curiosidade sobre a pesca artesanal e sobre as comunidades que ajudaram a construir a obra.

“Eu fiz muito essa obra para a minha criança interior. Quero muito que a criança das pessoas nunca perca esse olhar. Espero realmente que esse livro ganhe o mundo, inspire quem tiver que inspirar e chegue em quem tiver que chegar.”