A ofensiva militar mais relevante do governo de Donald Trump contra o regime dos aiatolás no Irã provocou reação cautelosa — mas longe de histérica — nos mercados financeiros globais. Embora o conflito já alcance 12 países do Oriente Médio, os preços dos principais ativos indicam que investidores, até aqui, não apostam em uma guerra longa e devastadora.
O comportamento dos mercados foi ilustrativo. O petróleo Brent, após saltar 13% na abertura dos pregões, encerrou com alta de 6,8%, cotado a US$ 77,84 o barril. O dólar, tradicional ativo de refúgio em momentos de turbulência, avançou 0,9% frente a uma cesta de moedas de parceiros comerciais dos Estados Unidos. As bolsas americanas oscilaram em baixa, mas sem perdas expressivas. Já os títulos do Tesouro americano quase não se moveram, reforçando a percepção de que deixaram de ocupar o posto absoluto de porto seguro em tempos de incerteza — papel que, ao menos em parte, vem sendo assumido pelo ouro, que subiu 1,5%.

A reação moderada guarda paralelos com o episódio de junho, quando EUA e Israel atingiram instalações de enriquecimento de urânio no Irã. Na ocasião, Teerã respondeu de maneira contida, lançando mísseis contra território israelense em retaliação limitada e breve. O petróleo chegou rapidamente a US$ 80 por barril, mas recuou em cerca de dez dias. Não há como assegurar que o mesmo roteiro se repetirá agora.
O cenário atual, contudo, apresenta elementos adicionais de risco. O Irã atacou infraestrutura energética de países vizinhos, demonstrando que, apesar da intensidade e rapidez da ofensiva conjunta de Israel e EUA, ainda preserva capacidade operacional. A principal planta de produção de gás natural liquefeito (GNL) do Catar foi paralisada após ataques ao complexo de Ras Laffan. O Catar é o maior produtor mundial da commodity e responde por 20% da oferta global. China e Índia figuram entre os grandes compradores, mas, após a Rússia cortar o fornecimento em resposta às sanções decorrentes da invasão da Ucrânia, países europeus passaram a depender mais do Oriente Médio. No mercado europeu, o preço do GNL subiu 48%. Não há previsão para a retomada da produção — variável crítica diante da redução dos estoques europeus ao fim do inverno.
O Irã também lançou drones contra Ras Tanura, na Arábia Saudita, onde está localizada a maior refinaria do país, com capacidade de 550 mil barris por dia. Embora não tenham sido registrados danos significativos, a estatal Saudi Aramco decidiu suspender preventivamente as operações. Líder da Opep, a Arábia Saudita é justamente o país com maior capacidade ociosa para ampliar a produção.
O Estreito de Ormuz, rota vital para o comércio global de energia, tornou-se outro foco de tensão. Os fretes na região dispararam mais de 50%, e grandes seguradoras suspenderam a cobertura para navegação na área. A interrupção do fluxo de petróleo e a paralisação do GNL do Catar atingem especialmente a China, grande compradora de ambas as commodities. Ainda assim, os chineses vêm reforçando seus estoques há seis meses, o que lhes confere margem para atravessar um período de instabilidade.
Entre os riscos possíveis, analistas consideram que um fechamento temporário de Ormuz seria menos grave do que danos estruturais à capacidade produtiva de petróleo e gás na região. No primeiro caso, o fluxo poderia ser restabelecido de imediato; no segundo, a recomposição seria demorada. Até o momento, os impactos mais severos concentram-se no próprio Oriente Médio. No Catar, as exportações de GNL equivalem a 60% do PIB. A paralisação por prazo indeterminado de grandes hubs aéreos, como Doha e Dubai — este um dos mais movimentados do mundo — sinaliza que o turismo pode sofrer forte retração se o conflito persistir. O setor responde, em média, por 10% do PIB dos países da região.
As bolsas europeias reagiram com maior intensidade do que as americanas. Companhias aéreas e do setor de viagens foram penalizadas, tanto pelo encarecimento do combustível quanto pelas incertezas em Ormuz. Os índices recuaram 2,42% na Alemanha (Dax) e 2,17% em Paris. Como a Europa depende mais de petróleo e GNL do que os Estados Unidos — autossuficientes em ambos —, o temor de pressão inflacionária foi mais evidente, ainda que a inflação ao consumidor na zona do euro esteja em 1,75%, abaixo da meta do Banco Central Europeu.
Com o petróleo até US$ 80, os efeitos globais tendem a ser administráveis, estima a Oxford Economics. Nos EUA, a inflação subiria entre 0,3 e 0,4 ponto percentual, afastando-se ainda mais da meta — já que foi de 2,8% em fevereiro — e reduzindo a margem do Federal Reserve para cortar juros.
No Brasil, onde o repasse da alta do petróleo aos preços internos não é imediato, o JP Morgan calcula que um avanço de 10% no barril acrescentaria 0,2 ponto percentual à inflação e poderia elevar o PIB em 0,1%, dado que o país é grande exportador da commodity. A principal apreensão reside menos no choque direto de preços e mais nas repercussões financeiras, especialmente na valorização do dólar, variável que tem sido determinante para a trajetória de desaceleração inflacionária.
Conforme mostrou o jornal Valor Econômico ao analisar o episódio, os mercados, até aqui, apostam que o conflito permanecerá contido. Mas a moderação atual não elimina a vulnerabilidade estrutural da economia global a choques energéticos. A fronteira entre tensão administrável e crise prolongada permanece tênue — e dependerá, sobretudo, do alcance real da escalada no Oriente Médio.