O Rio Grande do Norte, um dos mais antigos polos de exploração de petróleo no Brasil, enfrenta hoje um momento de inflexão que desafia tanto a sua economia quanto suas perspectivas de desenvolvimento.
Por décadas, a indústria foi um dos pilares do Estado. Nos anos 2010, o Rio Grande do Norte chegou a responder por mais de 40% da produção terrestre de petróleo no País, consolidando sua importância na cadeia produtiva nacional.
Mas, como mostrou reportagem publicada pelo AGORA RN na edição do último fim de semana, a realidade recente é outra. Em dezembro de 2025, a produção de petróleo e gás no Estado caiu para cerca de 33 mil barris por dia, o menor nível em mais de 40 anos — um recuo que não se via desde a década de 1980.

Há dez anos, a produção potiguar era praticamente o dobro da atual, de acordo com a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A queda na produção pode ter um eveito devastador para a economia do Estado. Afinal de contas, o setor de petróleo e gás responde por mais de 40% do PIB industrial do RN, sendo a principal base da atividade manufatureira local.
Além disso, a indústria petrolífera é uma fonte significativa de royalties que sustentam os orçamentos de municípios. A retração produtiva, portanto, não impacta apenas os setores diretamente ligados à extração: reverbera em serviços, empregos e na capacidade de investimento público. Transforma para pior a realidade de prefeituras RN afora.
Esse quadro é o resultado de fatores combinados. A principal empresa que historicamente sustentou a produção no Rio Grande do Norte, a Petrobras, retirou-se gradualmente de campos maduros em terra ainda no início dos anos 2020, vendendo ativos para empresas independentes. Embora isso tenha ajudado a manter alguma atividade, o ritmo e a escala não compensaram o declínio natural das reservas.
O próprio perfil dos campos de petróleo do RN é pouco convidativo à exploração. Determinados poços chegam a produzir 98% de água e apenas 2% de óleo, o que exige técnicas de recuperação secundária e terciária, como injeção de fluidos e métodos químicos, encarecendo a operação.
Neste cenário, a privatização de ativos petrolíferos no RN — um processo que envolveu a venda de campos e infraestrutura estratégica para operadores privados — merece avaliação. Ao transferir importantes frentes de produção para empresas menores, a Petrobras (uma estatal) não só abriu mão de capacidade de investimento e de coordenação estratégica. Pode ter contruído para a erosão econômica de territórios ao apostar em um modelo de curto prazo que não garantiu a sustentabilidade da atividade.
Diante desse cenário, a chamada Margem Equatorial — uma fronteira exploratória que se estende do litoral do Rio Grande do Norte ao Amapá — emergiu como a principal aposta para impedir um esvaziamento definitivo da produção petrolífera. Estudos apontam que sua exploração pode gerar dezenas de milhares de empregos no RN e adicionar bilhões ao PIB estadual, além de impulsionar arrecadações indiretas. A expectativa é que se descubram volumes significativos de reservas offshore nesta fronteira, potencialmente capazes de estender o ciclo de produção de óleo e gás além de 2030.
Além de a reserva ser limitada, o caminho até a nova fronteira de exploração ainda parece longo, contudo. A retirada de petróleo de campos em alto mar enfrenta resistência de ambientalistas. Etapas de licenciamento ainda precisam ser vencidas antes que a primeira gota seja extraída. Além disso, o mundo vive a cobrança pela transição energética, com uso de fontes renováveis e menos poluentes.
Neste sentido, o fim da era do petróleo no RN, se é que ele de fato está próximo, não precisa ser encarado apenas como um problema. Ele pode ser a oportunidade de uma reconversão estratégica, que garanta emprego, renda e competitividade, mas com uma base energética que respeite os limites planetários e abra caminho para setores menos voláteis e mais sustentáveis.
No campo das energias renováveis, o RN tem hoje um outro polo em pleno vigor. O Estado já é um líder nacional em energia eólica, com milhares de megawatts instalados — inclusive em terra, com potencial significativo para expansão offshore — e também possui potencial elevado para energia solar.
A cadeia das energias renováveis será estruturada no Rio Grande do Norte de modo a substituir em tempo a indústria petrolífera e garantir a sobrevivência da economia potiguar? O tempo dirá.