A dança contemporânea no Rio Grande do Norte pulsa entre contradições. A produção é ampla, diversa e reconhecida em palcos nacionais e internacionais, mas esbarra na falta de continuidade e de políticas públicas que assegurem sua permanência. Entre conquistas recentes e desafios históricos, grupos como a Companhia Giradança e o Coletivo CIDA revelam tanto a força da cena quanto os entraves que ainda impedem seu pleno florescimento.
“O cenário da dança no RN sempre vive em uma espécie de contradição, onde os grupos, os artistas, a produção e a criação seguem em efervescência, mas ao mesmo tempo o investimento do poder público não segue nesse lugar”, avaliou Celso Filio, diretor executivo da Companhia Giradança, em entrevista ao AGORA RN.

Segundo ele, mesmo quando há apoio, “ainda existem algumas lacunas, como lugares para se apresentar, a dificuldade na difusão da produção para outras cidades do próprio estado e também para fora, e principalmente a característica da continuidade”. Ele lembra que, apesar de avanços com a Lei Aldir Blanc, muitos seguem produzindo de forma independente e enfrentando essas dificuldades de circulação.
Essa instabilidade obriga artistas a conciliar múltiplas funções. “Muitas vezes os artistas e os produtores têm que estar ligados a diversos outros afazeres, trabalhando com outros grupos e outras linguagens, ou simplesmente desempenhando também a função de professores. E é nesse lugar que a gente considera que a contradição está”, explicou.
Fundada em 2005, a Giradança é destaque por criar coreografias inovadoras que exploram as relações entre corpos com e sem deficiência. Ao longo de duas décadas de trabalho, a companhia tem se apresentado em todo o Brasil e já levou espetáculos a outros cinco países, em busca de fortalecer a internacionalização do grupo. A companhia foi uma das 126 agraciadas com a Ordem do Mérito Cultural (OMC) 2024, concedida pelo Ministério da Cultura. A honraria é a mais alta condecoração pública do Estado brasileiro para contribuições relevantes à cultura.
“Um grupo como o nosso chegar aos 20 anos, sediado e permanecendo em Natal, é incrível. Nesses 20 anos, passamos por diversas formas de lidar, diversos formatos enquanto companhia, acreditamos que conseguimos galgar muitos espaços. Ao mesmo tempo, só conseguimos um patrocínio de manutenção do grupo depois de 19 anos, através do programa Funarte de Apoio a Ações Continuadas. Assim percebemos o quão difícil é viver da dança. Foi desafiador, mas acreditamos no propósito da dança inclusiva”, pontuou Celso.

Crescimento
Criado em 2016 a partir da união de artistas pluriétnicos – com e sem deficiência – vindos de diferentes regiões do país, o coletivo CIDA conquistou relevância no estado e fora dele. “Estar nos principais palcos do Brasil e circular nacional e internacionalmente é fruto de estudo permanente e da decisão ética de tratar acessibilidade e inclusão como dramaturgia, usando a dança para discutir urgências da sociedade contemporânea pelas vias da arte”, contou Arthur Moura, um dos fundadores do grupo.
Para ele, a cena local da dança atravessa um paradoxo. “Somos, muitas vezes, mais valorizados fora do RN do que dentro. Reconhecemos isso sem vitimismo e trabalhamos para tensionar o cenário local, formando redes, criando temporadas, ativando ações formativas e propondo novos formatos de espetáculos”.
O passo seguinte, segundo Arthur, é converter o reconhecimento externo em política de permanência no estado, assim como ampliar a circulação em cidades potiguares, firmar parcerias com espaços e escolas e consolidar uma sede para ensaios e apresentações.
René Loui, um dos intérpretes fundadores, acredita que a dança precisa deixar de sobreviver ao acaso. “Ao longo da nossa trajetória, o CIDA vem propondo interseções concretas entre arte, acessibilidade e política cultural – e sabemos que outros grupos também sustentam esse esforço. Há muito o que aprender continuamente, precisamos afinar linguagens, procedimentos e marcos de fomento para que o acesso não seja exceção, mas método”.
O artista também foi responsável pelo fortalecimento da metodologia dança-tragédia. “A dança-tragédia parte do atrito, surge da violência contra grupos socialmente marginalizados, surge da estigmatização, exclusão, violência e extermínio contra corpos dissidentes. Há pessoas que saem completamente sensibilizadas de nossos espetáculos”, frisou. “Ainda é necessário falar sobre esses temas. Porém, nosso maior desejo é que essas violências sejam passado e não presente”.
Formação de público e acesso
A criação de plateias é outro desafio apontado pelos artistas. “Sempre precisamos formar novas plateias. Porque quando um grupo não consegue dar continuidade ao olhar do público, às vezes esse interesse esfria. Precisamos estar em constante movimento para que esse público se sinta cativo. É continuar passando os saberes artísticos e também, principalmente, promover a apreciação de obras artísticas para um público em geral”, observou Celso.
Para o CIDA, o esforço passa por criar condições reais de acesso. “Abrir o diálogo com escolas e instituições de arte revelou essa carência local, de que as instituições também precisam ser convidadas a participar. A partir disso, já tivemos apresentações lotadas no maior teatro público da cidade”, contou Arthur Moura. “Ainda é preciso formar plateia, mas quando melhoramos a classificação e a comunicação, o público aparece e permanece”.
Falta de política continuada é consenso
Em comum, os grupos afirmam que resistir significa inventar condições de existência em meio à escassez de infraestrutura e à intermitência de editais. “Sempre estamos planejando ano após ano, quando sabemos o apoio que temos garantido, como os festivais dos quais participaremos. Nesse contexto, aliás, os investimentos maiores sempre foram federais”, apontou Celso Filio. De acordo com ele, Natal e RN não têm uma forte política de investimento na arte, especialmente no incentivo a atividades gratuitas.
Também há uma lacuna em relação a apoio para passagens aéreas. “Até recebemos convites internacionais, mas muitos dos festivais não custeiam a questão logística”, comentou. As pessoas que trabalham no meio artístico, conforme Celso, estão inseridas na cadeia da economia criativa em vários segmentos, como fotografia, design, assessoria de imprensa, publicitários e técnicos de teatro. “Estamos em busca de apoio amplo e difundido”.
O fôlego da dança potiguar existe, mas precisa ser melhor calibrado. “Em alguns editais públicos e privados, os valores de referência para dança seguem menores do que os de outras linguagens. Em outros, a pesquisa em dança sequer é contemplada como linha possível, como se investigar fosse direito exclusivo de outras áreas e que na dança não houvesse processo de pesquisa”, afirmou René.
“Com pequenas correções de rota, a dança potiguar pode ampliar sua presença na medida da grandeza que já demonstra nos palcos. E vale sublinhar que o Rio Grande do Norte é referência nacional e internacional na dança pensada pelas diferenças. Só Natal abriga ao menos quatro núcleos que pesquisam criação com inclusão e acessibilidade”, complementou.
“Dança norte-rio-grandense tem muito a ensinar”
Para os representantes da dança local, a força potiguar está na capacidade de transformar a diferença em motor de criação e exaltar a diversidade existente. “A dança norte-rio-grandense tem muito a ensinar à cena brasileira. Essa leitura tem sido reiterada por curadores, críticos e público”, disse René.
“No panorama nacional, não nos vemos aquém dos chamados grandes centros [como São Paulo e Rio de Janeiro], vemos um papel ativo na construção de uma dança contemporânea que pauta pluralidades, protagoniza corpos e singularidades e recusa folclorização do Nordeste. Contamos as histórias reais das pessoas que vivem e criam aqui”, elencou Arthur Moura.