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Trajetória

Roberta Sá celebra 20 anos de carreira: ‘Ser de Natal significa tudo para mim’

Artista celebra duas décadas de carreira com show intimista no Teatro Riachuelo na próxima sexta-feira 15
Agora RN
09/08/2025 | 04:02

Nathallya Macedo
Editora-adjunta

Vinte anos depois de lançar “Braseiro”, álbum que a revelou como uma das grandes intérpretes da música brasileira contemporânea, Roberta Sá volta à cidade onde nasceu para celebrar essa trajetória em um espetáculo intimista e cheio de afeto. No show “Tudo Que Cantei Sou”, que chega ao palco do Teatro Riachuelo na próxima sexta-feira 15, a artista potiguar revisita canções que marcaram sua carreira e pretende emocionar com novas leituras.

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De volta ao seu lugar de alma, Roberta Sá reencontra o aconchego, os afetos e o som que a fez nascer artista. Foto: Thaty Aguiar

Em entrevista ao AGORA RN, Roberta fala sobre o repertório afetivo que compõe o show, relembra encontros marcantes com ícones como Alcione e Ney Matogrosso, e destaca a força das compositoras mulheres que hoje ocupam parte essencial do seu canto. Em tom confessional, ela também comenta o retorno a Natal, cidade que ainda reconhece como seu “lugar de alma”, e compartilha os sonhos que ainda deseja cantar.

Confira:

AGORA RN – “Tudo Que Cantei Sou” celebra duas décadas de trajetória. Em que momento você percebeu que sua obra já tinha corpo, identidade e história para ser comemorada assim?

Roberta Sá – Eu tomei um susto quando percebi que Braseiro, meu primeiro disco, ia completar 20 anos. E me deu uma sensação de celebrar, sabe? De celebrar uma história que mudou a minha vida. Desde que comecei a cantar, tive encontros, revelações, histórias muito consistentes que fizeram da minha vida, da minha carreira até agora, uma estrada bonita, e eu fiquei com vontade de celebrar essa estrada. Um dos fatores é ainda gostar do repertório que eu canto, é olhar para trás, para o meu primeiro disco, e ainda me enxergar nele.

AGORA RN – Você dedica um bloco inteiro do show à produção musical feminina. Como nasceu esse desejo de destacar essas compositoras agora?

Roberta Sá – Eu coloquei Lavoura, da Teresa Cristina e do Pedro Amorim, que foi a primeira música de uma mulher que eu gravei. E eu tenho me emocionado muito com as composições da Tereza. Eu conheço algumas canções que ela tem feito, que ela ainda não gravou, e me deu vontade de celebrar esse encontro também com ela. Aí me veio a canção da Adriana Calcanhotto, Me Erra, porque um outro desejo que eu tinha era não deixar de fora canções que foram feitas especialmente para mim. Me Erra foi composta para minha voz, pela Adriana. E, enquanto a gente ensaiava, os meninos começaram a brincar com uma melodia que lembrava um pouco Vai Malandra e Bela Ciao, e eu acabei cantando um trechinho do Vai Malandra no final. Ficou essa mistura inusitada com o Me Erra, a gente achou divertido e deixou no show.

No meio dos ensaios, fui ao show da Dora Morelenbaum e me apaixonei por uma música dela. Já Juras, da Rosa Passos, é uma canção que eu canto muito em casa. Meu marido, que também faz a direção artística do show, falou: “Você tem que cantar Juras, ela é do seu repertório íntimo, fica linda na sua voz”. Coloquei muito por ele, porque é uma música que toco e canto em casa, no violão.

Aí entrou Virada, da Marina Iris, da Manu da Cuíca. E quando a gente percebeu, essas músicas estavam naturalmente agrupadas no roteiro. Em um dos ensaios, a gente olhou e falou: “Gente, vocês perceberam que a partir de agora só tem música de mulher?”. E a gente achou o máximo, abraçou a ideia. Acho isso muito interessante nesse show. A gente trabalhou muito para que ele acontecesse – os arranjos foram todos pensados e estudados -, mas ele tem uma naturalidade muito grande.

AGORA RN – O que representa cantar esse repertório para o público potiguar, nesse reencontro com suas origens?

Roberta Sá – Sempre fico emocionada de cantar para a plateia de Natal, porque está sempre minha família inteira, muitos amigos da vida inteira, gente que conhece a minha essência – onde eu encontro a minha essência.

Eu lembro do primeiro show que eu fiz em Natal, que foi num restaurante pequenininho chamado Abade, ali no final da Via Costeira. Era um restaurante ótimo, e eu lembro que meu avô estava na plateia, minha avó também… e eu chorei muito cantando De Volta pro Aconchego. Sempre que eu volto para cantar aqui, lembro desse momento. Porque é isso que eu sinto mesmo: um aconchego, e ao mesmo tempo um desafio muito grande.

Acho muito significativo estar aqui, celebrando 20 anos de carreira, voltando com esse show. Eu vou fazer 45 anos, e tinha 9 quando fui pro Rio. Mas o tempo todo, ser daqui ainda significa tudo para mim. Eu ainda me sinto muito daqui. É um pertencimento da alma. Um pedaço da minha alma mora aqui. Minha alma nasceu aqui, minha alma criativa de artista nasceu aqui.

E tenho ficado muito feliz de ver artistas como Igor Fortunato, Juliana Linhares – que eu admiro tanto – ganhando o cenário nacional e sendo daqui, dessa terra que eu amo tanto. Assim como minha amiga Khrystal, que eu conheço há muito tempo, a gente é da mesma geração, e ela tem ocupado mais espaço no cenário nacional. Isso me deixa com o coração muito quente. Cantar aqui em Natal é sempre muito especial. Ainda mais sabendo que há artistas tão grandiosos me acompanhando nessa caminhada.

AGORA RN – Ao longo da carreira, você dividiu palco com ícones como Gil, Alcione, Ney Matogrosso. O que aprendeu nesses encontros?

Roberta Sá – Eu aprendi a observar e a tirar lições importantes de cada um. Por exemplo, a Alcione… Ela é de uma convivência muito fácil. Dividir camarim com a Alcione é tranquilo, é leve. E isso me marcou. Aprendi com ela a importância de tornar esse espaço – o camarim, o bastidor – um lugar agradável, generoso. O quanto era bom chegar e ter o sorriso dela ali me esperando. Isso me ensinou a oferecer também esse acolhimento. Com todos esses grandes artistas, eu percebi uma coisa em comum: a grandeza não vem com dificuldade. Os maiores são, muitas vezes, os mais generosos e simples no trato. Isso me inspira muito.

Tenho tentado cada vez mais ser fácil, tornar o meu ambiente de trabalho um espaço tranquilo, onde a gente possa se divertir, ser feliz. Porque quando a gente trabalha com música, com sentimento, com arte, com afeto e profundidade, o ambiente tem que ser leve. O peso – se for para ter algum – tem que vir da música, do som, do swing, das palavras, do recado que a gente quer dar. É isso que eu levo comigo.

AGORA RN – Depois de celebrar os 20 anos, o que você sente que ainda não cantou e gostaria de cantar?

Roberta Sá – Olha, tem muita coisa que eu ainda não cantei. Muita gente com quem eu ainda não tive a chance de dividir o palco ou gravar. Imagina… Eu ainda não cantei com o Djavan, não cantei com o Caetano. São encontros que eu ainda sonho em viver.

Com a Teresa Cristina, por exemplo, eu já cantei, sim – momentos lindos, inclusive – mas ainda não gravei nada com ela. E também não gravei com essas mulheres incríveis da nova cena, como a Marina Iris, a Dora Morelenbaum, a Rosa Passos… São artistas que eu admiro profundamente. Então sim, ainda tem muita coisa para acontecer. Muito o que cantar, descobrir, dividir. A estrada continua.

AGORA RN – Qual mensagem deixa para seus fãs de Natal?

Roberta Sá – O que eu posso dizer para o meu público de Natal e do Rio Grande do Norte é: muito obrigada. Sempre senti um incentivo muito grande do público daqui. Desde quando participei de um reality na Rede Globo e vim fazer show aqui pela primeira vez, eu me senti abraçada. Sempre. Quando venho cantar no Carnaval e vejo a praça lotada, ou quando estou no teatro e recebo aquele carinho… é como se me abraçassem como uma filha. Então eu queria dizer isso: muito obrigada. E que vocês sejam sempre muito bem-vindos. Espero ser merecedora dessa troca tão linda e tão rica que a gente construiu ao longo desses 20 anos.

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