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Pecuária

RN inicia exportação de gado vivo com negócios de R$ 50 milhões

Primeiro navio deixou o Porto de Natal com 2.700 bovinos para a Arábia Saudita; segunda embarcação levará outros 3.700 animais ao Líbano, abrindo novas oportunidades para a pecuária potiguar
Elias Luz
29/10/2026 | 00:38

O Rio Grande do Norte iniciou uma nova etapa na comercialização de sua produção pecuária com o primeiro embarque marítimo de bovinos vivos realizado no Nordeste. A operação ocorreu nesta terça-feira, 27, no Porto de Natal, de onde uma embarcação partiu às 14h transportando 2.700 animais com destino à Arábia Saudita. Um segundo navio já está atracado no terminal para embarcar outras 3.700 cabeças de gado destinadas ao Líbano. Juntas, as operações deverão movimentar aproximadamente R$ 50 milhões em negócios para a pecuária potiguar.

Os números foram apresentados pelo secretário estadual da Agricultura, da Pecuária e da Pesca, Guilherme Saldanha. Segundo ele, a abertura do mercado internacional representa uma oportunidade para ampliar a comercialização de bovinos e estimular investimentos na atividade. “A expectativa do Governo do Estado é que as operações tenham continuidade e contribuam para aumentar a produção pecuária no Rio Grande do Norte”, disse o secretário.

Caminhão transporta gado junto a navio no Porto de Natal
Caminhão com gado bovino ao lado do navio que partiu para Arábia Saudita — Foto: Divulgação

Atualmente, o rebanho bovino potiguar é estimado em 1,4 milhão de cabeças. Embora considere o volume pequeno, diante de outros Estados brasileiros, Saldanha avalia que o acesso aos mercados internacionais poderá incentivar a expansão da criação de animais, com investimentos em propriedades rurais, alimentação, manejo e infraestrutura produtiva.

O secretário também não descarta que o crescimento da atividade favoreça, em um futuro próximo, a instalação de um frigorífico no Estado. “Essa possibilidade está relacionada à ampliação da oferta de bovinos e à formação de uma cadeia produtiva com maior capacidade de processamento, mas não há – por enquanto – nenhum anúncio de investimento ou prazo definido para a implantação de uma unidade industrial”, informou Saldanha.

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A movimentação prevista de R$ 50 milhões corresponde às duas operações anunciadas e poderá beneficiar diferentes segmentos da economia. Além dos criadores, o transporte dos animais até o porto envolve empresas de logística, fornecedores de combustível, trabalhadores portuários e prestadores de serviços relacionados à atividade.

A habilitação do Porto de Natal para exportação de animais vivos também cria uma alternativa de escoamento para a produção regional. A expectativa apresentada para o terminal é alcançar, futuramente, movimentação superior a 100 mil bovinos por ano, volume que dependerá da demanda internacional, da oferta de animais e da capacidade operacional.

O Governo do Estado considera que a abertura dessa modalidade de exportação poderá estimular a ampliação dos rebanhos e a entrada de novos produtores no mercado externo. Para isso, será necessário manter condições sanitárias, infraestrutura de transporte e capacidade de atendimento às exigências dos países compradores.

A chegada das primeiras embarcações coloca o Porto de Natal em uma atividade até então inexistente no terminal. A continuidade das operações poderá ampliar a participação da pecuária na economia estadual, mas também exigirá acompanhamento dos custos logísticos, das condições de transporte e dos impactos associados à movimentação de animais vivos.

Pequenos produtores participam das vendas

A primeira operação de exportação também contou com a participação de agricultores familiares e pequenos criadores. Segundo Guilherme Saldanha, nos 30 dias anteriores ao embarque, 13 produtores comercializaram entre um e dez bovinos cada, enquanto outros quatro venderam entre 11 e 20 animais.

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A participação de 17 pequenos produtores, de acordo com o secretário, atende à orientação do Governo do Estado de permitir que criadores de diferentes portes tenham acesso às oportunidades abertas pelo comércio internacional.

Em vídeo divulgado na terça-feira 27, Saldanha afirmou que a iniciativa poderá ampliar a geração de renda nas propriedades rurais e movimentar atividades ligadas ao transporte, ao abastecimento e aos serviços portuários.

O secretário também abordou as condições de transporte dos bovinos, afirmando que o bem-estar animal é uma das prioridades da operação. Entre os cuidados mencionados estão o fornecimento de água, alimentação adequada e condições de conforto durante a viagem. A expectativa é que novos embarques sejam realizados, permitindo maior participação dos produtores potiguares no mercado internacional.

Navio com gado tem histórico de falhas em inspeções

A expansão das exportações de bovinos vivos pelo Porto de Natal também é acompanhada por questionamentos sobre a segurança das embarcações. O navio Dalal F, previsto para transportar animais ao Líbano, foi construído em 1980 e adaptado para o transporte de gado em 2016, após 36 anos de operação.

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Segundo levantamento apresentado pela organização Mercy For Animals (MFA), a embarcação passou por quatro inspeções internacionais entre 2024 e 2025, realizadas em portos do Líbano, Egito e Espanha. Os procedimentos identificaram 15 deficiências em nove áreas, incluindo segurança da navegação, equipamentos de emergência, condições estruturais e prevenção da poluição.

O navio opera sob bandeira da Guiné-Bissau desde julho de 2023. A entidade aponta que o país integra a lista negra do Memorando de Entendimento de Paris sobre Controle Estatal Portuário, classificação utilizada para avaliar o desempenho de bandeiras marítimas. O histórico de inspeções, isoladamente, não comprova irregularidades na operação atual.

A preocupação também envolve precedentes brasileiros. Em 2015, o naufrágio do navio Haidar, no Pará, provocou a morte de aproximadamente 5 mil bovinos e vazamento de óleo. Em março de 2026, um incêndio no North Star 1, em São Sebastião, reacendeu o debate sobre a segurança do transporte marítimo de animais.

A programação da Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern) registra o Dalal F no Porto de Natal entre 28 e 30 de outubro, com destino declarado a Beirute, no Líbano.

Exportação gera alerta de proteção animal e sobre impactos em Natal

A chegada do transporte marítimo de animais vivos ao Porto de Natal também provocou manifestações de entidades de proteção animal. A Mercy For Animals questiona os efeitos da atividade sobre o bem-estar dos bovinos e os possíveis impactos ambientais e urbanos na capital potiguar.

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Segundo a organização, as viagens podem durar várias semanas, período em que milhares de animais permanecem confinados em embarcações. Entre os riscos apontados estão estresse térmico, desidratação, problemas respiratórios e dificuldades de movimentação.

“Para os animais, o processo de exportação compreende uma sequência de situações estressantes e debilitantes, do transporte terrestre desde o interior do Brasil até o desembarque nos países de destino, passando por semanas de confinamento em alto-mar sob condições extremamente insalubres”, afirma George Sturaro, diretor de Relações Governamentais e Políticas Públicas da MFA no Brasil.

A entidade também chama atenção para a localização do Porto de Natal, próximo a áreas residenciais, comerciais e turísticas. O aumento do tráfego de caminhões, a produção de resíduos e os possíveis odores estão entre os pontos levantados pela organização.

“A experiência de outros estados mostra que os impactos da exportação de animais vivos não ficam restritos ao porto. Permitir esse tipo de operação em Natal significa expor a cidade aos mesmos riscos e impactos sociais, econômicos e ambientais já registrados em outras partes do Brasil”, afirma Sturaro.

O Ministério da Agricultura exige procedimentos sanitários e operacionais para a exportação de animais vivos, incluindo habilitação das instalações e documentação veterinária. A discussão coloca em lados diferentes a perspectiva de ampliação das receitas da pecuária e as preocupações com a segurança marítima, a proteção animal e os efeitos da atividade sobre a cidade. A continuidade dos embarques deverá exigir fiscalização e acompanhamento das operações para verificar o cumprimento das normas aplicáveis.