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Opinião

Dois votos que o eleitor precisa conhecer

Pesquisa mostra que 45% não sabem quantos candidatos escolher para o Senado, que renovará 54 das 81 cadeiras
Agora RN
30/09/2026 | 00:07

É chocante que, faltando menos de uma semana para o encontro com as urnas, quase metade do eleitorado não tenha a real dimensão da tarefa cidadã que o espera. A pesquisa Quaest divulgada nesta terça-feira 29 mostra que 45% dos brasileiros não sabem ou erram ao responder quantos votos deverão dar para senador. A cinco dias do primeiro turno, o resultado expõe uma lacuna de informação sobre uma escolha que terá consequências para o funcionamento das instituições nos próximos anos.

Neste ano, cada eleitor deverá escolher dois candidatos diferentes ao Senado. Serão renovadas 54 das 81 cadeiras, equivalentes a dois terços da Casa. Votar duas vezes no mesmo candidato torna o segundo voto nulo. Portanto, conhecer a quantidade de escolhas e os números dos candidatos é indispensável para que a vontade do eleitor seja corretamente expressa. A dúvida identificada pela pesquisa pode resultar no desperdício de uma oportunidade de participação política.

Eleitora utiliza urna eletrônica
Eleitor terá dois votos para o Senado | Foto: Valter Campanato / Agência Brasil

Entre os entrevistados, 55% responderam corretamente que serão dois votos. Outros 29% não souberam ou não responderam, 10% disseram que seria apenas um e 6% acreditaram que seriam três. São situações diferentes, mas que exigem uma orientação comum: explicar de maneira simples como funciona a votação e por que a renovação do Senado alterna entre um terço e dois terços das vagas.

Houve avanço em relação ao levantamento divulgado em 5 de agosto, quando apenas 34% sabiam que deveriam votar duas vezes. Naquela ocasião, outros 34% não souberam responder, 22% indicaram um voto e 10% disseram três. A proporção de respostas corretas cresceu 21 pontos percentuais, mostrando que a informação alcançou uma parcela maior da população durante a campanha. O progresso merece registro, mas permanece insuficiente diante da proximidade da eleição e do tamanho do contingente ainda desinformado.

Encomendada pela Globo e pelo jornal O Globo, a pesquisa ouviu 2.004 pessoas de 16 anos ou mais entre 24 e 27 de setembro. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%, e o registro é BR-06520/2026. O levantamento também investigou a atenção dedicada aos cargos em disputa, oferecendo elementos para compreender por que uma regra relevante da eleição permanece desconhecida por tantos brasileiros.

Para 59%, a Presidência ocupa o primeiro lugar na atenção. O governo estadual aparece em segundo lugar para 39%. Na terceira posição, Senado e Câmara dos Deputados foram mencionados por 24% cada. Já na quarta, 31% indicaram deputado federal e 26%, deputado estadual. A concentração do interesse nos chefes do Executivo ajuda a explicar o menor espaço reservado às escolhas legislativas. Entretanto, o presidente e os governadores dependem de relações com o Legislativo para transformar propostas em políticas públicas.

No Senado são discutidas e votadas matérias que afetam diretamente a população, como regras tributárias, financiamento de serviços públicos e mudanças na legislação. Os senadores participam da elaboração de leis, da apreciação de propostas de alteração constitucional e da fiscalização do Executivo. A Casa representa os estados e o Distrito Federal e possui competências específicas sobre endividamento público e operações financeiras. Cada estado tem o mesmo nível de representação (são 3 cadeiras para cada unidade da federação). Sua atuação alcança questões que interferem na capacidade dos governos de atender às necessidades da sociedade.

Também cabe ao Senado aprovar indicações para funções estratégicas, entre elas ministros do Supremo Tribunal Federal, procurador-geral da República e dirigentes do Banco Central. A instituição tem competência para processar e julgar determinadas autoridades por crimes de responsabilidade, observadas as exigências constitucionais. Essas atribuições tornam sua composição decisiva para o equilíbrio entre os Poderes. Escolher senadores exige avaliar preparo, compromisso democrático e capacidade de exercer fiscalização com responsabilidade.

O dado se torna especialmente assustador quando a disputa pelo Senado passou a ocupar o centro das estratégias partidárias, em razão do papel que a Casa terá na estabilidade institucional a partir de 2027. A renovação de dois terços das cadeiras pode alterar maiorias, influenciar a agenda legislativa e redefinir relações com o Executivo e o Judiciário. Enquanto os partidos calculam os efeitos dessa composição, uma parcela expressiva dos cidadãos desconhece até a quantidade de votos que possui.

Os números são mais um sinal do distanciamento e do desinteresse do eleitor pela política, embora também revelem falhas de comunicação. É preciso intensificar campanhas de conscientização que expliquem a votação e a importância do Senado.