Para sentar à mesa e discutir o tarifaço dos EUA, aquela primeira leva de 50% de tarifa sobre produtos brasileiros, o governo de Donald Trump apresentou uma lista de exigências políticas e econômicas. Uma delas pedia o compromisso de que o Brasil não impediria a participação, nas eleições presidenciais de 2026, de pessoas classificadas pelos Estados Unidos como “dissidentes políticos”, expressão usada lá para quem seria perseguido por posição política.
A cobrança está num documento enviado pelo governo americano ao Brasil em outubro de 2025, cujo teor foi revelado pelo jornal O Estado de S. Paulo.

O texto foi apresentado no formato de uma declaração conjunta, documento que seria assinado pelos dois países. “O Brasil se compromete a realizar eleições presidenciais livres e justas em 2026 e não deterá, prenderá nem limitará arbitrariamente, de qualquer outra forma, a participação de dissidentes políticos no processo eleitoral”, trazia a minuta preparada pela Casa Branca.
As exigências, porém, não paravam na disputa eleitoral. Outro compromisso que Washington queria arrancar era o de que o Brasil não adotaria regime de competição digital capaz de restringir o comércio americano, cobrança lida aqui como possível referência ao Pix, o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.
Havia ainda um terceiro ponto, este voltado a proteger americanos: o Brasil não aplicaria multas, não faria prisões nem determinaria o congelamento de bens de cidadãos dos Estados Unidos em processos que tratassem de liberdade de expressão.
Quem recebeu o papel foi a comitiva brasileira que estava em Washington para uma rodada de negociação com representantes do governo americano. A missão era liderada por Mauro Vieira, ministro das Relações Exteriores, que sentou à mesa com Jamieson Greer, representante comercial dos Estados Unidos, e com Marco Rubio, secretário de Estado do país.
O comunicado conjunto divulgado depois daquele encontro dava conta de que os dois lados seguiriam conversando em outras frentes. “O embaixador Greer, o secretário Rubio e o ministro Mauro Vieira concordaram em colaborar e conduzir discussões em múltiplas frentes num futuro próximo, estabelecendo um caminho de trabalho conjunto”, dizia a nota.
Nos bastidores, a reação foi outra. Integrantes da diplomacia brasileira consideraram inaceitável o conteúdo da mensagem americana. Coube ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avisar o outro lado de que não haveria negociação sobre aquelas bases.
Quando anunciou a aplicação inicial da tarifa de 50% contra o Brasil, Trump ligou a decisão ao processo criminal que corria aqui contra o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), naquele momento réu por tentativa de golpe de Estado. O americano chamou o julgamento de “caça às bruxas” e disse que ele nem deveria existir.
“A forma como o Brasil tem tratado o ex-presidente Bolsonaro, um líder altamente respeitado em todo o mundo durante seu mandato, inclusive pelos Estados Unidos, é uma vergonha internacional. Esse julgamento não deveria estar ocorrendo. É uma Caça às Bruxas que deve acabar IMEDIATAMENTE!”, escreveu Trump na ocasião.