A importação de diesel programada para outubro despencou por causa da diferença entre o preço cobrado pela Petrobras e as cotações no exterior, e o abastecimento passou a preocupar o setor. Até agora, estão previstos 150 mil metros cúbicos de diesel importado para entrega no mês que vem, menos de 18% dos cerca de 850 mil metros cúbicos de setembro.
A queda chega justamente quando o consumo aumenta por causa da safra. De acordo com a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), que reúne as empresas importadoras, a defasagem entre os preços no Brasil e lá fora chegou a 104%, o equivalente a R$ 2,87 por litro. Na sexta-feira 11, bateu 109%, o nível mais alto já medido pela associação.

Como o diesel comprado lá fora chega ao país custando mais do que o preço de venda aqui dentro, os importadores estão deixando de fechar novas compras para não ter prejuízo. Com isso, a Petrobras fica com uma fatia maior da responsabilidade de abastecer o mercado nacional.
“O cenário é preocupante, pois em setembro já tivemos redução na importação de diesel em relação aos meses anteriores. Em agosto, acabou havendo sobra na oferta, com a soma da produção e da importação entre 1,2 milhão e 1,3 milhão de metros cúbicos, permitindo que a demanda de setembro fosse atendida. Agora, em outubro, quando o consumo é ainda maior, há risco de falta de diesel”, disse o presidente da Abicom, Sergio Araujo.
Em setembro, a Petrobras respondeu por mais da metade do diesel importado. O Brasil compra no exterior entre 25% e 30% do diesel que consome, e, com a saída das empresas privadas, a estimativa é que a estatal responda atualmente por 80% dessas compras.
Os importadores aguardam um possível reajuste nos preços da Petrobras e a regulamentação das medidas que o Ministério da Fazenda anunciou para cobrir parte do custo das operações. Na sexta-feira, o governo editou uma medida provisória que permite uma subvenção extra, espécie de subsídio, de R$ 1 por litro de diesel, mas ela só passa a valer depois de regulamentada.
O setor espera que a compensação tributária reduza os prejuízos e incentive a compra de novas cargas. A medida também pretende evitar que a disparada do petróleo no mercado internacional chegue aos preços no país e garantir combustível para caminhões, ônibus e máquinas agrícolas.
Segundo o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Pedro Rodrigues, a diferença crescente entre os preços da Petrobras e as referências internacionais fecha a janela para as importações privadas. “As empresas deixam de importar e tentam comprar o produto diretamente das refinarias da Petrobras por meio das cotas. O governo não vai deixar faltar diesel, mas o sistema fica mais pressionado”, afirmou.
No mercado internacional, o barril do petróleo Brent, referência de preço no mundo, passou de US$ 109 depois da paralisação de um oleoduto na Arábia Saudita e do adiamento de uma reunião dos países do Golfo sobre o transporte pelo Estreito de Ormuz. A cotação perdeu fôlego durante o dia, mas fechou em alta de 1,02%, a US$ 105,68.
Falas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, seguraram a alta. Ele disse que o Irã quer “fazer rapidamente um acordo” e cobrou do presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, o fim dos ataques com drones a refinarias e fábricas de diesel na Rússia.
Para Trump, os bombardeios reduziram a produção russa de combustíveis e ajudaram a provocar a falta de diesel no mundo. Na sexta-feira passada, o galão do diesel nos Estados Unidos atingiu US$ 6 pela primeira vez.
A instabilidade no petróleo mexeu ainda com as apostas sobre os juros nos Estados Unidos. No Brasil, o dólar teve alta de 0,43% e fechou a R$ 5,14, e o Ibovespa, principal índice da Bolsa, recuou 0,91%, para 185.501 pontos.
Setembro e outubro estão entre os meses de maior consumo de diesel no ano por causa da agricultura. Marcos Delia, da Leggio Consultoria, avalia que a baixa quantidade de importações programadas precisa ser acompanhada, mas que a experiência da Petrobras em lidar com esse período torna menos provável um desabastecimento em todo o país.
“O que pode ocorrer são problemas logísticos pontuais em algumas regiões, principalmente envolvendo distribuidoras menores, mas não acredito em um cenário de falta de produto. As notícias relacionadas à guerra sempre trazem mais volatilidade e incerteza para o mercado”, afirmou o consultor.
No Rio Grande do Sul, agricultores já falam em limitações e demora nas entregas. A Federação da Agricultura do Estado (Farsul) enviou cartas à Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e ao Ministério de Minas e Energia para relatar o problema no início do plantio da safra de verão. Segundo a entidade, algo parecido aconteceu entre março e abril, na colheita do arroz e da soja. “Agora, o problema reaparece em momento igualmente decisivo”, diz o documento. A federação afirma que a falta de diesel pode atrasar o plantio, diminuir a área plantada e prejudicar a produtividade.
“Estamos com suboferta do diesel S500 no Estado”, disse o presidente da Farsul, Domingos Velho Lopes, sobre as compras feitas no mercado à vista, para entrega imediata. O S500 é o diesel com até 500 partes por milhão de enxofre. A ANP afirmou que consultou a Petrobras e as distribuidoras que atuam no Rio Grande do Sul e que foi informada de que as entregas estão normais.
O volume de diesel importado para outubro deve ficar claro nas próximas semanas. A situação pode apertar ainda mais por causa de paradas já programadas em refinarias da Petrobras, que aumentariam a necessidade de a própria empresa comprar combustível no exterior.
Procurada, a Petrobras disse que acompanha a oferta e a demanda de forma integrada. “Para setembro e outubro, está prevista a importação de diesel em volumes compatíveis com a demanda, considerando a sazonalidade típica do período, influenciada, entre outros fatores, pelo escoamento das safras”, informou a empresa, que afirmou ainda que as entregas das refinarias seguem o planejamento e os contratos em vigor e que todo o volume contratado pelas distribuidoras está sendo entregue.